OPINIÃO
23/07/2014 15:18 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Jogos online nunca foram "brincadeira de um só gênero"

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Segundo a escritora e feminista nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, "a história em si cria estereótipos, e o problema com estereótipos é que, além de falsos, eles também são incompletos. Eles fazem uma história se tornar a única história."

A atual participação feminina na indústria de jogos digitais é uma discussão que vem chamando mais e mais atenção recentemente. Aqui mesmo, no Brasil Post, me deparei com um ótimo texto do Pedro Zambarda sobre como os videogames precisam ser feministas. A afirmação é certeira, e contribui significativamente para o debate, que é cada vez mais essencial se quisermos quebrar os tabus que ainda envolvem os gêneros nas mais variadas atividades, como os próprios jogos digitais.

Ao buscar por artigos sobre o tema (mulheres e games), pode ser um pouco decepcionante o resultado que lhe aguarda: é muito difícil não se deparar com o cliché insuportável de que as mulheres estão "conquistando espaço nos jogos eletrônicos", geralmente acompanhado da foto - ainda mais cliché - da moça, olhando para o nada, com o controle na mão, e alguns comentários dizendo que "mulher que joga é trap", ou é "carregada no jogo" pelo namorado. Será que a realidade é realmente essa?

No artigo do Pedro, ele apresenta um dado importante: Um estudo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), de outubro do ano passado, apontou que mulheres contabilizam 41% do público de jogos eletrônicos no Brasil. Acho que quase a metade é mais do que suficiente para ser considerado um "espaço conquistado", certo? Então por que continuamos na mesma?

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Como já mencionado, tenho grande fascínio pelo universo dos jogos eletrônicos, e possuo amigos que compartilham da mesma paixão. Comecei a jogar World of Warcraft por insistência de uma amiga, Dhaiele, de 20 anos. Gamer ávida, joga WoW desde 2006, e o mais legal: com a própria mãe, Andreia.

Não, elas não "jogam mal", não ficam pedindo socorro porque não conseguem usar certas magias, e nem dependem de alguma ajuda masculina para sobreviver nas partidas. Já vi colegas com mais idade (considerando a faixa etária jovem que popula os MMORPGS), assim como Andreia, ouvindo muitas piadas maldosas. Infelizmente, não é algo incomum, mas é no mínimo embaraçoso. Veja: Você já parou para pensar com quantas pessoas mais velhas já pode ter se deparado em jogos online? E quantas são mulheres? E o mais importante: como isso tudo não importa em nada, e o simples fato de se julgar a pessoa por gênero e idade, retrata que nossa sociedade ainda precisa desenvolver bastante em certos aspectos?

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Andreia (à esquerda) e Dhaiele.

Dhaiele, 20, atualmente estuda Design de Games na Anhembi Morumbi e trabalha no time de suporte de uma empresa de jogos online de cartas. Para ela, hoje, os jogos são mais do que hobby.

Eu tive todas as inseguranças do mundo. Eu mesma não levava o curso a sério, até que conversei com um amigo que fazia, e ele me explicou como envolvia uma parte audiovisual enorme e interessante.

Andreia, 40, mãe de Dhaiele, é jogadora ávida de títulos como World of Warcraft, Doom, Wolfenstein e Prince of Persia, assim como a filha. Segundo ela, a diferença de tratamento dentro dos jogos ao descobrirem que ela é uma mulher é algo existente, e incomoda:

Como eu sou mulher e jogo, para mim isso é completamente normal, mas já passei por muito preconceito; por ser mãe, por ser mulher, por jogar, porque é "coisa de jovem". Isso só não acontece se for truco, ou tranca, tipos de jogos que não me apetecem (risos). Já aconteceu de não quererem me colocar em um grupo no World of Warcraft só porque eu era mulher, mas temos que deixar claro que temos a mesma capacidade que os homens, e que o respeito é necessário. Diferentemente do que pensam, estamos lá para jogar e não para namorar.

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Uma outra jogadora de World of Warcraft, que preferiu não se identificar, diz que a diferença de aceitação entre jogadores do gênero masculino e feminino é notável. Segundo ela, que joga no servidor mais populado do jogo no Brasil, a melhor guild de lá não aceita mulheres.

Não sei dizer se isso acontece por preconceito de que "mulher joga mal" ou se é porque os players prestam mais atenção na mulher do que no jogo. De qualquer forma, a maioria é desse tipo, que acha que garotas não tem a mínima chance de serem boas jogadoras.

Por jogar junto de players mais experientes, assim como ela, a cobrança é grande, mas as brincadeiras ainda surgem durante as partidas.

Se eu utilizo o aplicativo de voz para falar com os outros jogadores, sempre ficam de graça, então eu evito falar. Aqueles que se acham "deuses" no jogo ficam bravos quando você chega perto do nível deles. E se passa então... Mais ainda. Aquela coisa de "ugh, beaten by a girl" (apanhei de uma garota) sempre rola, mas gente boa e ruim tem em todo jogo, tanto homem quanto mulher.

E como lidar com o preconceito? Segundo Andreia, isso é algo que cessará com o tempo.

Eu e minha filha já fizemos personagens masculinos para evitar cantadas, e todo tipo de situação chata. Para mim, preconceito é uma coisa que só o tempo desfaz. Creio que com o aumento de mulheres jogando, independentemente da idade, isso fará com que ele acabe aos poucos. Hoje mesmo, já é bem menor que antigamente.

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Vamos esperar que eventualmente diminua, de uma vez por todas. E também não esqueça: Na próxima vez que tentar fazer piadinhas com uma mulher em algum jogo online, certifique-se de que ela não é mais forte que você!

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