OPINIÃO
15/06/2015 17:10 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Iggy Azalea e sua chance de redenção

Lançado em 2014, seu álbum The New Classic é medíocre. Algumas músicas boas, muitos fillers. A indicação dele ao Grammy de melhor álbum de rap/hip-hop certamente piorou a situação de Iggy com o público, e confirmou à todos que ainda não sabiam que o Grammy é, de fato, uma premiação predominantemente branca, e nem o hip-hop está livre disso.

reprodução/instagram

Em fevereiro de 2014, o mundo finalmente conheceu Amethyst Amelia Kelly - mais conhecida como Iggy Azalea - a jovem modelo australiana que chamava a atenção por conquistar, aos poucos, seu espaço no universo do hip-hop.

Depois de seu hit single Fancy, em parceria com a britânica Charli XCX, todos estavam com os olhos nela. Evidentemente, a comunidade do hip-hop também. Foi aí que começou a discussão sobre sua autenticidade, e sobre ela estar inserida em um meio que, culturalmente, não pertencia a ela. A discussão sobre artistas como Iggy e Macklemore envolvendo a apropriação cultural gerou polêmicas. Alguns a defenderam. Não foram muitos. No mês de dezembro, Azealia Banks cedeu uma entrevista à rádio HOT97 que viralizou por seus comentários contra a apropriação cultural no meio, disparando críticas a ambos os artistas, e sobre como os brancos têm privilégios até mesmo em um meio predominantemente negro:

No mês de lançamento de Fancy, no ano passado, escrevi uma postagem sobre como Iggy vinha derrubando estereótipos do hip-hop e enalteci sua importância para o meio. Em 2011 e 2012 ela havia mostrado sua autenticidade com boas mixtapes. Os versos nunca foram essencialmente seu forte (todos com certeza já se depararam com paródias do famoso freestyle de Iggy), mas ela tinha atitude e paixão. Em algum lugar, infelizmente, isso se perdeu.

Os versos sólidos e consistentes - nas palavras da própria Iggy - de Fancy, então conhecida como Leave It, postada em seu Soundcloud em 2013, não poderiam ser desperdiçadas daquela forma. A solução? Some versos simples, agradáveis e bossy a um refrão pop forte e meloso. Pronto, você agradou as rádios e as paradas. O sucesso era iminente, mas depois disso as coisas começaram a ficar estranhas.

Era evidente (ou não), que daí em diante algo sairia diferente. Quando uma underdog do hip-hop se torna uma das maiores estrelas musicais do ano, toda a estratégia de sua carreira e seus planos de divulgação são virados de cabeça pra baixo, isso com um monte de executivos em cima de você para a produção de hit atrás de hit. Infelizmente é assim que funciona. Muito se falava em como, dali, nascia uma estrela, mas pouco se discutia quem, de fato, era Iggy Azalea, e qual seria o destino da sua assinatura musical.

Ela colecionou alguns outros hits, como Black Widow, com Rita Ora (basicamente uma versão alternativa de Dark Horse que atingiu o top 5 da Billboard Hot 100) e Beg For It, com a cantora MO, que apesar de uma divulgação completamente atrapalhada que resultou até no cancelamento do videoclipe da faixa rendeu recentemente certificado de platina nos EUA. Ambas seguindo a mesma fórmula "Fancy".

Lançado em 2014, seu álbum The New Classic é medíocre. Algumas músicas boas, muitos fillers. A indicação dele ao Grammy de melhor álbum de rap/hip-hop certamente piorou a situação de Iggy com o público, e confirmou à todos que ainda não sabiam (ou fingiam não saber) que o Grammy é, de fato, uma premiação predominantemente branca, e nem o hip-hop está livre disso. Macklemore não merecia ganhar de Kendrick Lamar, e Bon Iver não merecia ganhar de Nicki Minaj. Ganharam. Desta vez, Iggy não saiu vitoriosa, mas Eminem saiu.

O relançamento do The New Classic, intitulado Reclassified, retirou grande parte das músicas da primeira versão, deixando somente os hits e algumas faixas que receberam críticas positivas, para dar vez a mais um monte de músicas medíocres e possíveis hits. A já mencionada Beg For It é a melhor faixa do relançamento, mas não passa de uma segunda versão de Fancy. Trouble, com Jennifer Hudson e We In This Bitch também merecem menção honrosa. O resto, infelizmente, é completamente descartável.

No mais recente episódio da conturbada carreira da rapper, ela se viu cancelando sua turnê após dois adiamentos com uma explicação um pouco estranha. Pretty Girls, a promissora parceria com Britney Spears, acabou resultando em um decepcionante top 40, além de aumentar ainda mais a discussão sobre a qualidade de Iggy como rapper. Para piorar, ela cancelou sua participação em um festival LGBT depois de tuítes antigos seus, evidentemente homofóbicos, serem descobertos. Após todas estas acusações, entende-se como ela recebeu, recentemente, o título de "popstar mais odiada do mundo".

Depois disso tudo, significa que é o fim da carreira de Iggy? Dificilmente. De acordo com um comunicado oficial, o cancelamento da turnê irá servir pra ela descansar e definir quem, de fato, ela é. Enquanto alguns esperam que suas próximas canções sejam ainda mais similares aos hits que a popularizaram, vejo que ela está identificando seus próprios erros e procurando corrigi-los: Em uma recente conversa com um fã pelo twitter, relatou ter "jogado seis meses de trabalho do novo álbum fora", e começado tudo novamente, dizendo estar focada em incorporar alguns dos sons que ela usou em suas mixtapes, sentindo que, sonoramente, algumas das músicas da época ainda refletem uma boa parte do que ela é, e que isso se perdeu na produção de seu álbum.

Novamente respondendo a um fã, disse que é cedo demais para dizer como as coisas irão soar nas novas músicas, mas que ela não está buscando abandonar sua identidade. De fato, ainda é muito cedo para dizer qual o próximo passo que será tomado por ela. Espero, sinceramente, que o cancelamento de sua turnê e a reclusão temporária signifiquem o retorno da "primeira" Iggy, aquela cativante, intensa e com força de vontade. Os próximos meses para Amethyst serão a chance para a redenção, e o mundo todo está com olhos nisso.