OPINIÃO
02/07/2014 14:38 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

O fim em 3 atos: o que o Orkut te ensina em termos de estratégia de negócios

A pergunta é: por que o Orkut vai morrer, enquanto o Facebook, ainda que sob críticas, é a principal mídia digital do mundo e tornou-se um negócio bilionário?

Não é costume - nem a demanda acordada com o Brasil Post - escrever diariamente por aqui. Mas a ocasião se fez necessária. Afinal de contas enquanto a bola rola elefantes brancos da Copa Brasil afora, o mundo, que por coincidência é uma bola, continua girando.

Segunda-feira a comunidade digital brasileira recebeu a notícia que o Orkut encerrará suas atividades no final de setembro, deixando para trás o rastro de estrelinhas de fãs, corações, testemoniais, scraps e - o mais legal do site - os grupos com nomes espetaculares.

Não vou perder tempo aqui falando do que sentiremos falta - uma série de postagens entre agora e o desligamento final falarão sobre isso. Mas como profissional e usuário daquela que foi um dia o maior canal digital social do país, vale compartilhar com vocês algumas reflexões.

A primeira leva a uma série de questionamentos, e uma lição de marketing/empreendedorismo: Facebook e Orkut possuem a mesma idade - nasceram em janeiro/fevereiro 2004, sendo o segundo onze dias mais "velho". Sendo assim, a pergunta que fica é: por que o Orkut vai morrer, enquanto o Facebook, ainda que sob críticas, é a principal mídia digital do mundo e tornou-se um negócio bilionário?

Simples: vejamos as trajetórias iniciais das duas empresas.

Orkut: nasceu dentro do Google, por intermédio de um engenheiro turco de nome... Orkut.

A idéia é que fosse a página central da vida dos usuários e que permitisse interação com seus amigos. Apesar de nascer com foco nos Estados Unidos, rapidamente cresce no Brasil e Índia sob o pilar das indicações/convites que alguns (clientes Gmail/Google) recebiam e repassavam aos mais próximos.

Facebook: Nasce da iniciativa de Mark Zuckenberg, notório (depois de fazer um concurso online de comparação de mocinhas) nerd judeu programador de Harvard. Dissemina o (ainda) thefacebook.com dentro dos clubes finais mais relevantes da faculdade mais relevante dos EUA, depois partindo para as demais faculaddes da Ivy League - as 8 faculdades mais disputadas da costa Atlântica estadunidense.

Análise: A estratégia do Google em desnatar o produto através de indicações de amigos - todos dentro do universo de suas soluções - não era ruim. O problema foi confrontar com uma mídia que nasceu "de cima para baixo", ou seja, dos jovens mais desejados da América aos demais. O apelo foi muito mais atraente.

Agora vamos analisar a funcionalidade das plataformas:

Orkut: Você partia da sua página, e tinha de ir atrás dos seu amiguinhos para deixar recados, testemoniais quando era alguém interessante (depois este atributo virou o pai do "inbox") e a popularidade estava lastreada em cima de estrelas (fãs), corações (atração) e cubos (? - simpatia, ou algo parecido).

Facebook: Rapidamente o Facebook percebeu que você não gostaria de ver somente o seu perfil, mas sim de ver o que o outro está fazendo - e assim nasceu o mural, onde você acompanha em série tudo o que acontece e pode comentar. Sua popularidade está atrelada ao conteúdo que você constrói e a sua popularidade - medida em likes e shares.

Análise: Ainda que os grupos presentes eram super interessantes e proporcionavam ótimas conversações, o Facebook vence o Orkut pela estruturação da interface entre usuários, permitindo mais diálogo com mais pessoas ao mesmo tempo. Zuckenberg pode não ser o sujeito mais sociável do mundo, mas ele e sua equipe entenderam muito melhor que o Google como levar o fluxo de conversações da vida real para o mundo digital.

Por último, vamos ver o modelo de negócios de ambos:

Orkut: O Google pode negar, mas a invenção do Google gerou um certo receio por parte da empresa: quanto mais tráfego por lá menor era o de outras soluções, como mail, procuras e anúncios - logo os carros-chefe e fonte de receita da marca. Por isso nunca deu muita força e nem fez grandes alterações no site quando a concorrência se fez mais presente - mesmo no Brasil, onde a virada ocorreu somente em 2012. O Orkut de certa forma sempre foi um natimorto, e sem atração alguma para empresas e marcas anunciarem e dialogarem com seus fãs.

Facebook: Da mesma forma que Mark e sua turma entenderam rapidamente como a interação entre pessoas deveria ocorrer em ambiente virtual, colocou o elemento marcas e empresas no meio, através das fan pages. O motivo é simples: o Facebook é uma empresa/mídia em si só, ao invés do Google que tem uma suite de soluções para, conforme o DNA da sua marca, proporcionar a organização das informações da internet.

Análise: O resultado é que a soma de interações entre pessoas e marcas do seu dia-a-dia (o DNA do Facebook é justamente esse: tornar o diálogo mais simples e prático entre pessoas do mundo todo) trouxe ainda mais interesse e receitas bilionárias ao Mark, que com o tempo tornou sua mídia um real competidor ao Adwords do Google.

Em resumo: O Facebook rapidamente engoliu o mercado por três trunfos:

- Melhor estratégia de lançamento da sua marca/produto.

- Experiência do usuário mais fluída com o dia-a-dia real (mindset vigente).

- Trouxe outras empresas e marcas para o diálogo, proporcionando diálogo entre usuários e suas empresas favoritas, bem como fortes fontes de receitas que fortaleceram sua expansão global.

Ao mesmo tempo, o Google tomou decisões (aqui o detalhe: de forma consciente) que culminaram no fim do Orkut:

- Não deu foco à evolução da ferramenta, pois sabia que o tráfego poderia influir numa menor demanda por produtos mais rentáveis, como Adwords e AdSense.

- Pela mesma razão, não desenvolveu soluções para empresas participarem da dinâmica social-digital alí presente.

- Por último, não se importou com a chegada de novos concorrentes - ainda que lançou o Google Plus como alternativa o fez tarde, quando o tráfego estava todo no Facebook e suas soluções não compensavam a mudança.

Espero que a trajetória devidamente analisada aqui do Orkut traga a importância da estratégia para o lançamento, evolução e rentabilização da sua marca ou negócio. Mesmo você sendo detentor de uma posição de destaque, a atenção sobre o que vem por aí deve ser constante. Não a toa o Facebook comprou WhatsApp e Instagram - alí sabe que além do data mining existem concorrência. Ao mesmo tempo que o Google sabe que precisa focar no que gera receita e é sua expertise, que são aplicativos e sistemas, onde seus links e vídeos patrocinados são a cereja do bolo e o cerne da suas receitas bilionárias e lucrativas.

Se saber lançar e validar um produto é uma arte, matá-lo e dar orientação ao que realmente importa e paga as contas também o é. Logo apesar de aqui termos um vencedor, Mark, Sergey e Larry estão felizes e repletos de dólares no bolso.

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