OPINIÃO
21/03/2014 12:51 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Fazer o que gosta (ou não) é o negócio da sua vida?

No meu primeiro texto no Brasil Post citei um pouco da minha trajetória profissional, e voltarei para fundamentar o tema que abordaremos agora.

Há exatos dois anos larguei o mundo corporativo para buscar algo que fizesse mais sentido para mim que atuar numa área de marketing de grande empresa como mais uma peça de um grande tabuleiro. Os motivos valem um texto a parte, mas nada muito diferente do que alguém que, beirando os 30 anos como estou, sentem: insatisfação com os rumos da carreira, incompatibilidade de valores com o das organizações, falta de protagonismo sobre a própria vida. Gil Giardelli, o qual tenho a honra de dividir espaço no Brasil Post, resume este conflito hoje tão recorrente aos X, Y, Z - dê o nome de geração que quiser - com a seguinte reflexão: "Você vai mesmo entregar os anos mais produtivos da sua vida para um sonho que não é seu?"

Pois bem, resolvi empreender e fui atrás de alguma iniciativa que gostasse - afinal de contas é o que sempre ouvimos de conselhos daqueles que empreenderam e foram bem-sucedidos. Reflexo direto do famoso provérbio de Confúcio: "Escolha um trabalho que você ame e você nunca mais saberá o que é trabalhar um dia em sua vida."

Comecei a ver Fórmula 1 aos 4 anos - a minha primeira memória de um esporte na vida é justamente o GP do Japão de 1988, onde Ayrton Senna conquistou seu primeiro título mundial. Meu pai me incentivava a acordar cedo sábados e domingos para tomarmos café juntos e vermos treinos e corridas - hábito que mantenho até hoje. Aprendi a ler basicamente através da 4 Rodas, que era bem mais interessante para mim que os contos da Disney e do Monteiro Lobato. Confesso que ainda são, inclusive.

Claro que associei uma coisa a outra e pensei: Por que não empreender com automobilismo? Unir a paixão as minhas habilidades num mercado carente de profissionalismo. Perfeito! Quiçá poder viajar o mundo apoiando algum cliente, como uma equipe, piloto ou mesmo categoria... A vida de sonhos que qualquer fanático pelo esporte desejaria. Me preparei para isso: fiz alguns cursos, conheci algumas pessoas, bolei planos, apresentações e um belo cartão de visita.

Mas as coisas não deram certo. Em mais de um ano prospectando e buscando rotas de entrada para implantar uma consultoria de marketing exatamente onde gostaria não consegui nenhum resultado.

Se eu sou chateado com isso? Nem um pouco. Pelo contrário: hoje sou um (ainda mais feliz e errante - lembram do texto anterior?) consultor de pequenos negócios em fase de crescimento e médio/grandes que precisam de análise estratégica e orientação à execução. E a experiência com o projeto que denominei Bolt UnLTD (sim, em homenagem ao veloz jamaicano) foi fundamental para hoje escrever um livro sobre atitude empreendedora e linhas tortas neste belo portal.

O que aprendi nesta experiência?

- Sabe qual é a sua paixão? Pare e reflita mais um pouco. Engana-se quem acha que Steve Jobs gostava de computação, gadgets, estas traquitanas que compramos na Apple. O negócio da vida dele era derrubar o status quo no que estivesse envolvido. Foi assim com a maçã, com a Pixar e o discurso de formatura mais famoso do mundo, onde ele aborda exatamente este tema a todo tempo.

- Há coerência entre valores? Boa parte do meu insucesso no marketing esportivo veio da não concordância com o modus operandi do esporte nacional em geral, onde há um certo culto ao amadorismo e uma série de ações de caráter duvidoso - basta ver o último escândalo envolvendo a Confederação Brasileira de Vôlei. Confira a série "A várzea sobre rodas" do Grande Premio e veja a versão quatro rodas desta cultura de gestão do esporte no Brasil.

- Há mercado coerente com suas ambiçõe$? Um cantor de rock - a não ser que você se chame Paul McCartney - em tese não terá o patrimônio, mesmo se bem sucedido, que um dono de um conglomerado multinacional. E ok quanto a isso, desde que esteja de acordo o propósito de vida. Dinheiro paga as contas, mas o jogo aqui é sobre satisfação pessoal e legado.

- Você tem os requisitos necessários para o sucesso? A outra parte da minha falha residiu aqui - o segmento esportivo é bem fechado (reflexo, em parte, da sua gestão e cultura) e exige que você ou já esteja inserido ou que alguém o "apadrinhe" - a entrada do grupo publicitário WPP no setor no Brasil através da formação da 9ine com o jogador Ronaldo não foi a toa. Há uma obra, "O livro negro do empreendedor", o qual sempre recomendo quando palestro que é preciso neste quesito de formação de sociedade aonde há a soma de habilidades complementares.

Hoje percebo que meu negócio, na verdade, não é dar consultoria - esse é o canal por onde entrego valor atualmente. O que eu realmente gosto (e sim, Confúcio está correto) é de transmitir e entregar inteligência para tornar o mundo dos negócios melhor. O que pode ser feito num post, livro, através de consultoria ou até apoiando o esporte nacional. Quem sabe alguém por aqui não se interessa em me ajudar?