OPINIÃO
17/03/2016 11:39 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

'De ombros para o Brasil': Um resumo do dia de ontem

REUTERS/Ueslei Marcelino

Agora não dá mais.

Eu juro que não ia comentar mais sobre política por aqui. Cansei de, ao analisar a construção da marca dos candidatos em 2014 - e deixar claro minha posição na competição da época - tomar pancada dos dois lados. Uma pulverização que, conforme Wagner Moura disse dias atrás, torna o diálogo burro; o que é um fato.

Mas depois de ontem não dá mais.

O que aconteceu nesta quarta-feira (17) não foi um golpe, como dizem alguns contrários ao lulopetismo presente e reforçado com a vinda do ex-presidente à Casa Civil, num impeachment branco da Dilma Roussef. Nem a comprovação por meio de escutas de que não existe governo para o povo, e sim um projeto de poder que se sustenta à frente dos interesses sociais.

O que a soma dos eventos da tarde trouxe foi um acinte, um atentado à República. É o nosso momento mais frágil como democracia desde 1985, quando Tancredo finalmente se impôs como civil à frente do País em comparação ao ainda atrelado regime militar Paulo Maluf.

Ainda falando de Wagner Moura, tempos atrás, o José Padilha - hoje morando em Hollywood e responsável criativo pela série Narcos, do Netflix - disse uma frase que faz todo sentido à vista do Brasil: "O brasileiro perdeu a noção do ridículo".

E, realmente, a soma de acontecimentos em série trazendo à tona o modus operandi ao qual somos geridos criou uma certa couraça que nos blinda cegamente de entender o que está acontecendo.

Mas o que veio para a imprensa ontem - da nomeação de Lula para Ministro da Casa Civil às gravações da Lava-Jato apontando claramente o conchavo entre líderes do país do governo para manutenção e manipulação do poder é um atentado não ao tão citado "Estado de Direito".

É uma afronta, de cara limpa e lavada, um atentado à população.

E aí o povo acordou de vez. Resultado: milhares de pessoas nas ruas em plena quarta-feira pós-expediente. E é só o início.

Não vou questionar a decisão de Dilma de colocar um investigado em âmbito estadual e federal como líder de governo. Apenas considero que o ato de chamar um ex-presidente para tal responsabilidade é a assinatura informal do fim de seu mandato por incompetência - de gerir o País às vias de uma crise inédita econômica, sem aliança com os anseios das ruas e traquejo para lidar e conversar com situação e oposição para construir uma agenda comum ao País.

Parabéns à Dilma: nem o "coroné" Sarney foi tão mal quanto ela. Na melhor das hipóteses, precisaremos de 5 anos para consertar, na economia e no mercado, o que ela conseguiu estragar em 15 meses de segundo mandato.

O grande ponto - e que levou pessoas às ruas novamente na noite de ontem - foram as gravações que comprovam que o PT tem, na prática, um interesse sincero em manter-se no poder; e para amenizar os palavrões do outrora presidente de direito (hoje de fato), que se danem as autarquias que se opõem a ele. O tráfico de influência com ministros e até o prefeito do Rio Eduardo Paes provam isso.

(Pausa: O cúmulo do absurdo a enésima potência a crítica do prefeito da "Cidade Olímpica" fez para a cidade de Maricá. Tinha de vir do mesmo cara que deu um espetáculo no hospital com falta de recursos da administração dele, este domingo)

Ah, mas os amigos (ainda) defensores da corja petista (favor separarem esquerdistas de petistas) podem dizer: "ah, mas as escutas de Sérgio Moro foram feitas ilegalmente!". Tudo bem. Se forem, precisam ser investigadas e gerar advertência ao magistrado.

Mas isso não tira o mérito da afronta que veio à tona.

Em termos de estratégia, acho que o movimento das últimas horas foi um suicídio do PT e suas lideranças: é muita presunção achar que um movimento destes não geraria revolta para grande parte da população (lembrem-se: 70% são a favor do impeachment, segundo Ibope e outros institutos de pesquisa).

As pessoas praticamente trouxeram 2013 de volta, mas agora com uma agenda clara - que era o ponto fraco da época: todos querem a cabeça de Lula e Dilma, e o reforço da investigação da Lava-Jato, independentemente de qual lado está (vide a reação à presença de Aécio nas manifestações de São Paulo).

A partir de agora, a pressão das ruas frente ao rito do impeachment será muito forte, podendo ser a balança a favor do impedimento de Dilma - mesmo com a presença de Lula como articulador principalmente para unificar PMDB e outros partidos à combalida base governamental.

Ao mesmo tempo, o STF fui ultrajado com as supostas manipulações sobre Rosa Weber e Lewandovski e terá de correr atrás para não ficar com a pecha de "vendido" frente aos interesses da alta gestão do outro lado da Praça dos 3 Poderes. Ainda que Moro não possa julgar mais Lula por foro privilegiado, a comoção popular sobre futuras indiciações pode (e deve) sentir efeito.

Espero que a crise, que atingiu seu ápice até o momento, termine logo e seu desdobramento dê liberdade para o mercado e a economia tomem seus caminhos. É o mercado que gera emprego, riqueza e divisas ao governo, e não o contrário.

Que nos deixem trabalhar para que, com eficiência e planejamento, amenizamos o problema histórico que o Eixo Monumental de Brasília e seus representantes acometem de má gestão e descaso com os brasileiros - mesmo com programas sociais, como o Bolsa-Família.

Por último, como cidadão, agora não tem mais jeito: você precisa se posicionar, independentemente da sua posição. É o diálogo e a consciência que pode levar este país para a frente.

Diálogo e consciência que é justamente o Palácio do Planalto deu de ombros 72h depois da maior manifestação da História do País.

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