OPINIÃO
18/03/2016 11:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Transformação política, sim. Governo do Judiciário, não

A sociedade terá que cobrar que o mesmo rigor com que está sendo tratado o Partido dos Trabalhadores se volte para o PSDB, o Bolsonaro e todos os partidos. Sem show. E precisaremos direcionar nossas forças para a profunda reforma do sistema partidário. Reforma, não destruição.

Marilyn Nieves via Getty Images
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Tenho 36 anos. Vivi apenas os estertores da Ditadura Militar, embora tenha herdado do período as memórias dos meus pais, que a combateram, como jornalistas, e do meu colégio, majoritariamente de esquerda. Um parênteses: não fui doutrinado e sim educado, com toda a liberdade de pensamento possível. Em 1994, meu colégio organizou um debate eleitoral e eu fui um dos dois representantes da ala tucana, defendendo - contra a opinião de 9 em 10 professores, mas seguindo a posição do meu pai - a candidatura de Fernando Henrique Cardoso.

Posso afirmar que meus argumentos da época, para defender a aliança do PSDB com então PFL, eram os mesmos que o PT passou a usar quando virou governo e usa até hoje: acordos com forças conservadoras são necessários para fazer avançar pautas progressistas, desde que haja liderança dos partidos de esquerda. Eu acreditava - como hoje os partidários do deputado Jair Bolsonaro acreditam - que o PSDB era um partido de esquerda.

Digo isso como um aceno aos antipetistas e uma críticas aos petistas. Houve, sim, moralismo, demagogia e intolerância da parte do PT. O Partido dos Trabalhadores buscou impeachments que não se justificavam, estigmatizou adversários como se monstros fossem, vendeu-se - da mesma forma com que, hoje, com menos legitimidade, os tucanos tentam se vender - como o depositário único e indiscutível da honestidade.

Foi tudo parte do jogo político para chegar ao poder. E, ao chegar, para executar um programa que fez o Brasil avançar, crescer, tornar-se mais plural. Isso não elimina a responsabilidade do PT e de Lula, mas implica em algo que parece impossível, atualmente: pensar.

Temos que abandonar a indignação automática e o jornalismo seletivo.

Ouço muito - e isso dos amigos mais serenos - que "o Brasil não muda nunca, por isso as pessoas estão revoltadas", ou que "não interessa no que vai dar, o momento é de acabar com a política que está aí". Desculpem-me ser o cara chato que diz o que ninguém quer ouvir, mas não é verdade. Nem uma coisa nem a outra.

O Brasil de 1994, o ano daquele meu debate no colégio, era outro. Era infinitamente pior. Muito mais pobre, muito menos desenvolvido, menos educado, com menos infra-estrutura, com menos peso internacional, menos escolas, menos hospitais, menos mercado interno, muito mais inflação, muito mais instabilidade econômica, a despeito da crise que vivemos, menos pessoas na Universidade, com um Rio de Janeiro (onde nasci e moro) parado no tempo e uma região Nordeste que parecia destinada à miséria eterna.

Os governos de Fernando Henrique Cardoso, Lula e, em uma parte, de Dilma, representaram um brutal avanço para o Brasil. Todos eles, cada um com seu papel e, muitas vezes, representando projetos diferentes.

É preciso que olhemos para isso - e que olhemos para os números que mostram isso, para não falar na memória de quem viveu aqueles tempos - quando escolhermos a posição a tomar, agora. É preciso questionar a ideia de que o Brasil vive uma crise eterna e imutável. Não vive. O período democrático que marcou os últimos trinta anos foi extremamente positivo para o País.

E o foi, justamente, porque a democracia partidária, com todos os seus defeitos e limitações, funcionou. Se hoje há insatisfação, se hoje se quer mais, não é porque nada se fez nos últimos trinta anos, pelo contrário. É porque as expectativas - e entram aí as expectativas de uma enorme contingente da população que, antes, poucas ambições e poder político tinham - são maiores.

Por outro lado, se olharmos com cuidado para o que acontece ao redor do mundo, sem o vício de dividi-lo artificialmente entre neo liberais e comunistas, veremos que há uma crise de representatividade. Foi essa a tônica da campanha que elegeu Obama, há oito anos, e é essa a tônica da eleição norte americana atual.

Isso significa que é preciso, sim, mudar o sistema. É preciso, sim, repensar a promiscuidade entre os setores público e privado, a estrutura e o financiamento de partidos, os mecanismos que a população deve ter para interferir e mesmo retirar governantes do poder.

O problema é que, por mais que uma grande parcela de brasileiros tenha embarcado nessa onda, isso não será feito por uma nova República, refundada e comandada pelo Judiciário. É uma ilusão atraente, claro. Mas é uma ilusão. O fato de um juiz ou de um policial ser concursado não representa um atestado nem de idoneidade nem de imparcialidade.

Um juiz e um policial federal são pessoas, como um político. Podem ter os mesmos defeitos e podem, ainda que acreditem piamente no que fazem, cometer excessos e desvios. Por isso existem sistemas de controle. Na política partidária, por pior que ela seja, temos o melhor deles. Pelo menos o melhor dentre todos os que testamos até hoje. O voto.

Um juiz ou um policial federal não são eleitos. Isso pode parecer uma vantagem, mas só quando negamos o valor da Democracia. Imaginar Sérgio Moro como um paladino da nação é tirá-lo de sua função. É, infelizmente, o que ele mesmo vem fazendo. Como político, ele domina, atualmente, dois poderes - e tem o apoio do quarto, a imprensa. Não há como controlá-lo.

Julgar, com isonomia e rigor, é atribuição de um juiz. Custe o que custar, doa a quem doer.

Decidir os rumos do País, por mais tentador que possa parecer, não é.

O que está acontecendo agora não é a história de um sistema legal que finalmente se faz valer para todos e, sim, de um sistema legal no qual o Judiciário assume o comando do País, pairando acima dos partidos e, pior até, fazendo-se valer do mesmo populismo que tanto se ataca no PT.

Quando Moro usa a opinião pública - com a precisão e inteligência de uma grande articulador - ele está fazendo política. Quando ele grampeia e libera a gravação de uma conversa entre Lula e a presidente da República, dentre outras - a quase totalidade delas que em nada tem a ver com qualquer apuração em curso - ele está fazendo política. Quando um juiz federal de Brasília que tem fotos no facebook manifestando-se duramente contra Dilma e o PT concede liminar impedindo Lula de assumir o cargo de Ministro, ele está fazendo política.

Desculpem-me novamente os entusiastas de um governo do Judiciário, mas esse tipo de política eu não quero. E, mais do que não querer, tenho a certeza, pelos exemplos históricos que temos, no Brasil e no mundo, que ela não criará um novo país. Se a mobilização que hoje vemos não abandonar o lema fora PT, fora Dilma, amamos Sérgio Moro e o substituir pela reforma política, a reconstrução dos partidos e a punição, igual, a todas as práticas de corrupção, a Lava Jato terá sido apenas um episódio. Uma lição para o futuro Governo - que pode ser muito pior do que o atual - sobre a necessidade de se controlar e até mesmo sufocar a atuação da Justiça.

Confesso que não sei é ainda é possível, mas o único caminho para evitar que isso aconteça é abandonar o espetáculo. Deixar que o impeachment tramite no Congresso, qualquer que seja o seu resultado, sem alimentar a narrativa com vazamentos diários. Retirar os questionamentos à entrada de Lula no Governo da esfera jurídica e passá-los para a esfera política.

Se der certo, ele e a economia brasileira colherão os benefícios, que em nada vão interferir com o bom andamento de qualquer processo. Ou o STF, que dizimou o PT no mensalão, não contestou nenhuma decisão de Moro e e atua sob intensa pressão pública, passou a ser um órgão sem credibilidade?

Se der errado, ele continuará respondendo à Justiça e terá praticamente esgotado o seu capital. Nesse cenário, o PT sairá do poder e terá que se reconstruir, aproveitando os bons quadros que ainda tem - como o Prefeito Fernando Haddad.

A sociedade terá que cobrar que o mesmo rigor com que está sendo tratado o Partido dos Trabalhadores se volte para o PSDB, o Bolsonaro e todos os partidos. Sem show. E precisaremos direcionar nossas forças para a profunda reforma do sistema partidário.

Reforma, não destruição.

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