OPINIÃO
29/05/2015 14:22 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02

Reforma política sem povo dá nisso

DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO

Ah tá. Quando a Presidente Dilma, fortemente pressionada pelas manifestações de 2013, propôs um plebiscito para realizar a reforma política, o mundo veio abaixo. Choveram especialistas para decretar que se tratava de uma medida populista e - mais incompreensível - perigosa. Por quê? Porque seriam abordados temas muito complexos e a população poderia não entendê-los, ou acabaria sendo manipulada por campanhas demagógicas.

O correto, segundo essa visão, era deixar que o parlamento fizesse as mudanças. Qualquer coisa diferente disso seria uma atitude chavista - o espantalho que a tudo serve. Bom, à época tal interpretação já me pareceu absurda. Basta lembrar que acontecem plebiscitos e participação popular direta em diversas democracias consolidadas - com destaque para Estados Unidos, onde se vota para dezenas de questões e cargos, a cada eleição.

Qual o sentido, pensei, de pegarmos um tema que envolve interesses intrínsecos de 90% dos deputados e senadores e deixarmos na mão deles - e somente deles - um projeto de mudança? Um projeto que é cobrado há mais de uma década e jamais aconteceu? Os especialistas, ao advogarem essa brilhante ideia, realmente acreditavam que daria certo? Ou queriam somente contrariar a presidente?

Não sei. Agora, se fosse esse o objetivo, poderiam ao menos ter aderido ao referendo, que dava a iniciativa ao congresso, mas a relacionava ao debate público.

Não o fizeram. Pior. Os partidos - PT a frente - que defendiam historicamente a consulta popular em temas como esse e inicialmente a propuseram, recuaram. Agiram exatamente como seus críticos os acusavam de agir. Como se o projeto fosse apenas uma cortina de fumaça.

Traído por todos os lados, o que restou ao cidadão? Não há otimismo nem meio termo possível para responder a essa pergunta. Não restou nada. Assistimos a um dos espetáculos mais ridículos já encenados no Congresso Nacional. Um show de horrores.

Votou-se à toque de caixa, sem nenhuma discussão efetiva, uma série de tópicos cuja existência nos era comunicada quase em tempo real. A população descobria o que ia ser votado basicamente durante ou no fim da votação, isso se estivesse acompanhando o noticiário online.

A reforma política, que se arrastava desde o século passado, foi finalizada em uma semana para deixar tudo como está e, claro, piorando um pouquinho. Teve seu grande formulador no estadista Eduardo Cunha, o homem que, convenhamos, sabe mobilizar a Casa, inclusive para a proeza de votar duas vezes a mesma coisa em 24 horas, porque da primeira o resultado não foi do seu agrado.

Abrimos mão, assim, da chance de pensar, como país, sobre qual sistema político queremos. Com serenidade, transparência, escrutínio de propostas, articulação entre sociedade e parlamento. Abrimos mão da melhor chance que tínhamos de conseguir uma reforma positiva, ainda que com falhas.

Essa janela não existe mais. Estamos presos a decisões que foram tomadas sem a nossa participação e praticamente sem o nosso conhecimento.

É nisso que dá submeter toda e qualquer posição a interesses eleitorais ou ideologias monolíticas. É nisso que dá ter medo da democracia.

Enfim. O povo foi alijado do processo. Ficamos sem o populismo e com o Eduardo Cunha.

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