OPINIÃO
21/05/2015 16:26 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Poesia com sangue dos outros é refresco

No Rio de Janeiro, a cada morte, seja ela na Zona Sul ou numa favela, a opinião de esquerda, na qual me incluo, com pouquíssimas e louváveis exceções, reproduz acriticamente a ladainha de que os assassinos são vítimas do sistema e que com segurança não vai se mudar nada. Exaltam a sua própria tristeza e fazem belas poesias sobre a injustiça social. Ok. Aplacam assim a sua culpa e o seu ego.

JOÃO LAET/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO

No Rio de Janeiro, a cada morte, seja ela na Zona Sul ou numa favela, a opinião de esquerda, na qual me incluo, com pouquíssimas e louváveis exceções, reproduz acriticamente a ladainha de que os assassinos são vítimas do sistema e que com segurança não vai se mudar nada. Exaltam a sua própria tristeza e fazem belas poesias sobre a injustiça social. Ok. Aplacam assim a sua culpa e o seu ego.

Seria natural supor, contudo, que a isso acrescentassem algo mais. Que se dessem ao trabalho de discutir um modelo de transformação educacional e social viável, por exemplo. Que expusessem experiências que deram certo e ajudassem a pensar, pelo menos com um dos 300 mil posts que põe no Facebook, em como podem ser adaptados para o Brasil. Não. É esperar demais. Debater sobre como é possível conciliar ações imediatas com outras, de médio e longo prazo? Em como se pensar uma política de segurança ampla, progressista, inclusiva, concretamente? Buscar entender o jogo de forças populares e como se pode mobilizá-las para construir um discurso e um projeto real que signifique avanços sociais? Deus os livre. Jamais!

Os nobres e angelicais arautos da esquerda limitam-se pelo contrário, a reproduzir uma dicotomia ingênua, na qual o povo é bom e inocente e a elite é classista e opressora. Atacam o conservadorismo sem se preocupar por um segundo em formular uma visão original qualquer, tão egoístas - mais até, porque falsos - quanto seus "inimigos". Pior. Atacam justamente os que supostamente defendem e sentem-se por isso recompensados em sua cruzada narcisista. Sim, porque quem defende a proibição do aborto, a diminuição da maioridade penal e a pena de morte, assim como que "bandido bom é bandido morto", está longe, muito longe, de ser apenas a elite. O ódio pelo menino de 16 anos que esfaqueou o médico na Lagoa ou em qualquer outro lugar, assim como o preconceito contra o morador de favela é possivelmente mais exacerbado no cara de classe média baixa do subúrbio do que no cara do Leblon.

Nossos heróis, sem perceber, fecham-se orgulhosos numa concha de superioridade moral e sentimentalismo hipócrita tão ou mais elitista quanto ter nojo do cara que antes andava de ônibus e agora anda de avião. Expressam o mesmo tipo de desprezo pela grande maioria da população que dizem condenar. Pela classe C, multiplicada, sim, no governo Lula, assim como pelas classes D e E.

Essa pseudoesquerda serve, como serviu em todo o século XX, à perpetuação do sistema que critica. São uma mera válvula de escape. Representam o papel ingênuo e apolítico que a direita mais tacanha quer que representem, para usar livremente seus Bolsonaros e afins na conquista do voto popular conservador. Porque o Bolsonaro, insano e medieval, ouve as classes populares e fala para elas. Para o voto da nova classe média que o PT criou e, sabia há tempos, corria o risco de perder. Para os amplos segmentos da população que querem ter uma casa, um trabalho, os filhos no colégio particular e um plano de saúde. Para levar à frente um projeto político real de esquerda é preciso respeitar essas pessoas. De que adianta atacar ferozmente a elite branca ao mesmo tempo em que se fala quase que exclusivamente para ela, em suas diferentes matizes? Ou alguém acha que vai conseguir mobilizar a maioria da população repetindo em looping que a polícia é um reflexo da ordem burguesa imperialista e sonhando com uma revolução inexistente? Reiterando frases feitas e advogando, do alto sabe-se lá de que autoridade, um mundo ideal, sem propor um caminho qualquer que leve a esse direção? Foi justamente essa indignação sem rumo que alimentou as tão amadas e elogiadas - por mim também, inicialmente - manifestações de 2013, cujos desdobramentos, em 2015, serviram unicamente ao retrocesso.

São esses indignados que, agora, se chocam porque ganha força no Congresso uma agenda conservadora. Ora, essa agenda, por mais que possa ser criticada, tem um mérito inegável: ela existe. Qual é a agenda da esquerda, hoje, além de defender a educação, a saúde e os direitos humanos, assim mesmo, nesses termos anódinos de programa eleitoral gratuito? A se julgar pela opinião de larga maioria de seus representantes e da vanguarda do seu eleitorado, nenhuma.

Ah, sim, mas temos ótimos poetas e uma legião de pessoas que sofrem na carne - quer dizer, quase - a dor dos meninos de rua e dos Amarildos...