OPINIÃO
02/07/2018 11:24 -03 | Atualizado 02/07/2018 11:26 -03

Neymar e a Fúria Moralista

Como caímos tão facilmente na esparrela clássica de abstrair completamente o sistema e concentrar os ataques nos indivíduos?

Neymar e seus cabelos são alvo de ataques e deboche durante a Copa da Rússia.
Anadolu Agency via Getty Images
Neymar e seus cabelos são alvo de ataques e deboche durante a Copa da Rússia.

Leio e ouço as pessoas falando sobre o Neymar e me pergunto: quando nos tornamos, nós também, a galera de esquerda, tão cheios de ódio? Tão donos da moral. Do certo e do errado. Como caímos tão facilmente na esparrela clássica de abstrair completamente o sistema e concentrar o fogo, os ataques, a responsabilidade, nos indivíduos? Que o indivíduo seja negro, desculpem, não me parece coincidência. Nunca foi coincidência no Brasil.

Alguém já ouviu um áudio do João Saldanha dizendo que em time dele não jogava quem usasse black power? Vale ouvir. Não há, mesmo, nenhum paralelo com os comentários sobre o cabelo do Neymar?

Gente, ninguém aqui se arruma pra tirar foto no Instagram? Quantos seguidores você tem? O cara tem centenas de milhões de pessoas olhando tudo o que ele faz, durante horas e horas. Jura que você, nesse caso, ia acordar com aquele rosto de sono e aparecer na galera?

Preocupação com o cabelo, jamais, afinal, somos bravos guerreiros espartanos que não se preocupam com a aparência e nos dedicamos, apenas, 24 horas por dia, sem distrações, a nossos objetivos como nação. Sério?

Já cortei o cabelo inúmeras vezes antes de momentos importantes, apresentações, lançamento de livro e ninguém pôs o dedo na minha cara pra dizer que aquilo era um absurdo e que eu devia era estar concentrado e não preocupado com essas idiotices estéticas.

"Ah, mas ele não se importa com a Seleção."

Bom, o cara tá há 3 meses fazendo fisioterapia depois de uma operação grave. Levantou-se o boato, até, dentro do PSG, de que ele estava deixando o clube de lado para garantir que jogaria a Copa. Ele, é inegável, se esforçou e se esforça pra ficar bem.

No dia lá em que cometeu o impensável ato de cortar o cabelo, pela segunda vez (uma aparadinha, vai), em seguida passou a noite jantando com a família, no hotel. Não se tem notícias de fuga da concentração, muito menos de corpo mole em treinos ou qualquer coisa do gênero. Na realidade, nunca houve notícias de corpo mole ou falta de esforço do Neymar, em qualquer time no qual ele tenha jogado. É o tipo de jogador que se machuca pouco e está sempre em forma.

"Ah, mas ele ganha milhões pra jogar bola."

Número um, muito cuidado. Especialmente à esquerda. Jogar futebol não é um trabalho menor. Não é fácil. Não é qualquer um que faz. Envolve dedicação de 12, 15, 18 horas por dia, quando se joga em alto nível, como é o caso dele.

A esquerda agora acha que futebol é coisa de vagabundo, por acaso? Como, lá atrás, se achava que samba era coisa de vagabundo? Não é. Sabe por que ele ganha milhões (como ganham milhões os jogadores da NBA que se recusaram a encontrar o Trump)? Porque nossa sociedade gasta bilhões com esporte. O que mudou, ao longo das décadas, foi que os "operários" desse negócios, os jogadores, corretamente passaram a exigir uma fatia maior do bolo. Do bolo criado e sustentado, na verdade, por eles.

Você acha errado? Acha absurdo que um jogador de futebol ganhe milhões e um professor não seja valorizado? Tá ótimo. Vamos discutir isso. O nosso modelo de sociedade. Controlado e alimentado, se tanto, por grandes investidores, especuladores, governos. E por nós mesmos. Ah, mas tudo isso é complexo demais e não dá pra gente esculhambar ninguém especificamente, né?

O Messi também foi acusado de sonegar imposto, joga menos na seleção do que o Neymar, e também ganha milhões pra jogar futebol. Mas ele é fácil de engolir né. Cabelinho liso, barba ruiva, caseiro, não usa corrente de ouro nem boné. É branco. Com aquele estilo que faz a gente se sentir à vontade. Que não desafia os nossos conceitos arraigados do que é "querer chamar atenção". Será que alguém, sei lá, no baile charme de Madureira, se veste como o Messi? Duvido muito. Já como o Neymar...

"Ah, mas ele não tem caráter."

Gente, o que isso quer dizer? Era mais fácil aceitar a genialidade do Garrincha né, sempre tratado — até hoje — como um Macunaíma de estimação da elite brasileira. Muita gente ganhou muito dinheiro com ele. O Garrincha, o próprio, ficou com uma partezinha muito pequena...

Mas é assim que a gente gosta. Era o Mané das pernas tortas. Que pomos nos lugar com o qual nos sentimos confortáveis. No circo. Lindo de assistir, mas que depois some e não ocupa os NOSSOS espaços. Que não ousa ser rico, ter jatinho, tornar moda o jeito com o qual se veste. Esse Mané, que não nos ameaça, pode driblar, pode ser arrogante no campo, pode fazer o que quiser. Como fazia.

O Garrincha não tentava sacanear o adversário? Não prendia demais a bola? Alguém se imaginaria, hoje, vendo o Garrincha tentar um drible e dizer que ele é individualista e não tem caráter? Não. Sabe por quê? Porque o que importa, mesmo, é o que o cara faz em campo. Ele acabava com o jogo e, enquanto acabou com o jogo, foi o grande Garrincha. Depois, foi largado na sarjeta.

Nossa, como a gente queria fazer isso com o Neymar, né. Como a gente queria poder jogar o Neymar na sarjeta, puni-lo por não ser quem a gente acha que ele devia ser, ter controle sobre ele e o que faz. Pois é, surpresa, a gente não tem.

"Ah, mas ele provoca."

E por que isso virou, em si, algo tão horroroso? Já falamos do Garrincha, mas passemos para outra esfera. NBA, para dar um exemplo. O Lebron James, que treina até dormindo, faz jogadas para provocar o adversário. O Stephen Curry, religioso e que pede desculpas – de verdade – quando fala palavrão, faz uma dancinha quando mete cesta de 3. O adversário fica puto? Fica.

Sabe como um deles (o JR Smith, conhecido por arrumar confusão) respondeu? Fez uma de 3 ele também e imitou a dancinha. Não deu porrada.

Parece, no Brasil, que, porque achamos que o Neymar exagera — e, no fundo, quando ele erra —, a gente justifica a porrada. É uma negação da nossa história e uma negação da poesia brasileira no futebol. Não tomamos de 7 x 1 por causa disso, tomamos de 7 x 1, pelo contrário, porque ao longo dos anos nos distanciamos do nosso estilo. Que, desculpem, é, sim, sempre foi, de ousadia e alegria.

Isso quer dizer que não se pode questionar o Neymar? Claro que não! Ele pode e deve ser analisado como qualquer profissional. Pelo quanto se dedica e pelo que faz em campo. Como você deveria ser avaliado no seu trabalho, independentemente da roupa que você veste ou se você gosta de cortar o cabelo 8 vezes por semana, se a sua namorada é atriz, se os seus amigos vivem na sua casa ou se você viaja muito. Você chega na hora? Se dedica? Está preparado? Cumpre seus objetivos? Consegue se relacionar bem com seus colegas de trabalho?

Essas questões ele tem que responder. A contusão ainda atrapalha? Se atrapalha, não seria melhor prender menos a bola e jogar mais adiantado? Não acha imprescindível, dado que faz um jogo para atrair faltas, que tenha controle emocional para não tomar amarelo por reclamação, pondo em risco sua presença em jogos importantes?

Porque, finalmente, é isso que interessa. É sobre isso que ele tem que prestar contas à torcida, do clube dele e do Brasil. A função dele, o tal "caráter", no que consiste o futebol, é jogar bem e fazer o time jogar bem. Não é ser um asceta que representa todos os valores morais de uma sociedade socialista.

Pelé não era isso, Zico (que foi secretário do Collor) não era isso, Romário, Rivaldo, Ronaldo, Jairzinho, Gérson não eram isso. Sabe quem mais se aproximaria das tais exigências morais que fazemos ao Neymar? O Tostão, hoje médico e comentarista. Que acha o Neymar o maior jogador brasileiro depois do Pelé e discorda de 90% das críticas feitas a ele. É irônico.

Isso só mostra que é preciso, especialmente para quem se inscreve no campo progressista, pensar. Sempre. Pensar, por exemplo, sobre o quanto das exigências que estabelecemos para um esportista representam, na verdade, preconceitos arraigados na nossa sociedade.

Jogadores de vôlei, como o Giba, branco, sem bonés e correntes de ouro, já declararam que "o que faltou ao Brasil foram mais guerras". Outros, também brancos e "palatáveis", como Sheila e Ana Paula, dizem a torto e a direito barbaridades políticas. A mim, isso é mil vezes mais ofensivo do que qualquer corte de cabelo ou visual do Neymar. No entanto, nunca fiquei xingando enfurecido nenhum desses jogadores nem vi ninguém dizendo, como vi comentaristas fazendo após o jogo contra a Costa Rica, "que dá vontade de bater" no Neymar.

Está mais do que na hora de aceitar que o Neymar simboliza não o que a gente pensa, o que a gente gostaria que ele fosse, mas o que ele quer. E, fora das 4 linhas, podemos gostar ou não do jeito dele, mas não temos nada com isso.

Bom, para ser justo, vale um parênteses: conheço alguém que, a despeito de qualquer argumento, discordaria frontalmente de tudo o que escrevi acima, sobre o Neymar e sobre muitas, mas muitas outras pessoas. Alguém para quem os próprios imperativos morais devem ser a régua para toda a sociedade. Alguém que não hesita em apontar o dedo e condenar os que, a seu ver, não estão à altura da imagem que ele faz do Brasil.

Sabem a quem me refiro? Se não sabem, podem jair adivinhando.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.