OPINIÃO
06/06/2015 12:48 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:25 -02

Neoconservadorismo: o legado das manifestações de 2013

Rodrigo Villani/500px
Um dos protestos em que estive presente. Esse rapaz e o jeito como ele estava falavam por sí.

As manifestações de junho de 2013 completam dois anos e têm um legado devastador. O preço a ser pago por trazer o debate político de volta à moda foi o de reduzi-lo a um fator de identificação pessoal.

Expor uma posição política se tornou um acessório similar a um iPhone, uma barba comprida, uma camisa quadriculada, ou, num outro espectro, uma bolsa da Chanel, um terno bem cortado e fotos das férias em Nova York. Ter opinião sobre os destinos do país tornou-se "hypado".

Muito se discute sobre a retomada da mobilização popular e sobre os efeitos e consequências das redes sociais nesse processo. Esqueceu-se de que, como dizia McLuhan (cara, tenho uma grande amiga que ficará orgulhosa ou furiosa porque eu finamente consegui citar o McLuhan em algum texto meu!), "o meio é a mensagem".

As manifestações de 2013 popularizaram a política apenas porque a engoliram e cuspiram de volta, anódina. Assimilaram-na à estrutura cultural preponderante, na qual cada ato, cada roupa, cada foto, constrói um personagem.

No último pleito, ninguém, em programas eleitorais, debates ou discursos, conseguiu captar o "espírito da rua" porque na rua não havia espírito algum. E, assim, bateu-se mais uma vez na tecla da autonomia do Banco Central, da legislação trabalhista, do salário mínimo, das privatizações. Tudo muito parecido com 2006 e 2010.

Foi, entretanto, o suspiro derradeiro. É a evolução direta de 2013 que se consolida, agora. A mera guerra de torcidas na qual a imagem é o conteúdo. A elite que fala para si mesmo, meio em cólera, meio divertindo-se. Selfie com a camisa do Brasil x comentários irônicos sobre panelas.

No que se refere aos partidos e movimentos organizados, os liberais se veem a reboque de garotos que exigem o rompimento institucional, apolíticos que são. Como o Lampreia, chanceler de FHC que aceitou tirar os sapatos para entrar no Estados Unidos, Aécio e os tucanos tomam pitos do messias Kim Kataguiri, a quem prometem satisfações num tom submisso.

Os socialistas dividem-se entre os que tratam a autocrítica como crime de estado, numa linha semistalinista, e os que, autofágicos, se afogam em lutas setoriais, viciados seja no corporativismo seja numa ineficiente horizontalidade, que, no fundo, abdica da política partidária. Ou da política como um todo.

Não é à toa que o MPL, central em 2013, assume como principal tarefa fazer pressão na única liderança que implementa uma gestão progressista consistente e moderna no país, o Prefeito Fernando Haddad, já cercado por todos os lados, inclusive no PT.

E quem consegue efetivamente impor um projeto de país? Ora, nisso não há surpresa. São os que estavam ausentes das ruas em 2013 e continuaram assim em 2015. Os que, assustadoramente, jogam sem medo - ou escrúpulos, é bem verdade - com líderes e objetivos claros: os conservadores mais arcaicos, representados por Eduardo Cunha e Silas Malafaia, entre outros.

Enquanto inúmeros representantes da esquerda os detonam, mas não disputam as bases que os sustentam, preferindo falar para quem já os apoia ou discutir com uma minoria de fascistóides ensandecidos; enquanto diversos colunistas e políticos da direita clássica ficam estupidamente fascinados com manifestações de rua absolutamente dispersas, um Congresso retrógrado toca a sua agenda, numa impressionante sucessão de votações.

A esquerda perdeu o pé da situação e a direita, ao menos a direita liberal, ilude-se achando que as coisas caminham como ela quer. Não caminham.

Eduardo Cunha não é tucano. Malafaia não é tucano. Bolsonaro não é tucano. Eles representam algo muito mais parecido com um Tea Party, a ala fundamentalista do partido republicano dos Estados Unidos. Falam para um Brasil profundo, que, paradoxalmente, passou a ser dominante justamente em função do modelo de crescimento do governo Lula.

É esse Brasil que precisa ser disputado. Não adianta espernear. Não adianta fazer do comercial do Boticário a grande frente de batalha, ainda que esteja nesse tipo de enfrentamento quase a única faixa de entendimento generalizado e ofensivo da esquerda, bem como neles brilhem seus deputados mais originais e atuantes, como o excelente Jean Wyllys.

Quem faz a diferença não lê o Merval, nem a Veja, nem a Carta Capital nem o Paulo Henrique Amorim. Quem faz a diferença está saindo às ruas, no máximo, em eventos de cunho religioso.

Politicamente, 2013 é a expressão de um vazio ideológico. E só.