OPINIÃO
04/04/2016 00:22 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Michel Temer não é solução para ninguém

Adam Hester via Getty Images
A young man with a colorful brazilian flag around his back at sunset on the top of Sugarloaf mountain in Rio.

A se começar pelo começo. Michel Temer ainda não é presidente do Brasil.

Por trás das conclusões fáceis e do eterno consenso de boa parte da mídia - da qual excluo o HuffPost Brasil, que vem apostando na pluralidade de pensamento -, o impeachment é um processo altamente traumático e duro, desses que só se decidem no último minuto e envolvem muita luta, de ambos os lados das trincheiras.

Nesse sentido, é difícil entender como qualquer um, mesmo os que apostam todas as fichas na deposição da presidenta, ache normal que os trâmites do impeachment, após postos em marcha, durem três meses, enquanto a cassação de Eduardo Cunha, contra quem há provas muito mais robustas, indubitavelmente, se arrasta sem previsão de encerramento.

Para bom entendedor, apenas esse fato já indicaria que o debate não é nem nunca foi motivado por uma questão legal, que, aí sim, acarretaria o julgamento político.

O que esteve e está em jogo é a motivação política, a deturpação do impeachment, que passa a ser tratado como ferramenta para apear do poder um governo impopular e com enormes problemas na condução da economia.

As justificativas legais são acessórias e, por isso, foram sendo trocadas a cada instante - o seriam ainda mais não fosse a pressa da oposição e do comandante do Congresso, Eduardo Cunha, o intocável.

Há falta de legitimidade não da ferramenta em si, constitucional, mas da forma como está sendo utilizada. Que se soma à falta de legitimidade do que comanda e dos que votam o processo, envolvidos até o pescoço em investigações as mais diversas.

Há, por outro lado, base de apoio à manutenção da ordem democrática, sem atropelos. Base essa que defende a investigação de todos e a reforma profunda do sistema político e não a destruição de um partido como solução para os dramas nacionais.

Ela não tem, é verdade, o "momentum" das manifestações contra Dilma Rousseff, mas tem unidade e capacidade de resistência.

São, sim, brasileiros, cidadãos, tanto os ligados aos movimentos sociais quanto os estudantes, professores, artistas, intelectuais.

Assusta, aliás, a falta de reconhecimento da divergência que vemos na oposição, esteja ela no Congresso, nos jornais ou na televisão.

Pode-se achar um erro a permanência da presidenta, mas não se pode, como fazem vários veículos, desqualificar sistematicamente os que a apóiam como sendo vendidos e cooptados.

Sejamos honestos. MBL, Fiesp e afins gastaram rios de dinheiro em seus movimentos.

A Fiesp é uma organização empresarial. O MBL já anunciou que terá candidatos em diversos partidos, todos de oposição, vários deles mais atrasados que o atraso e sem nenhum caráter liberal. Mas eles são "povo", enquanto o outro lado não é.

Não nos deixemos iludir: o jogo não está decidido.

Dito isso, passo para um segundo ponto. Qual o cenário delineado pelos atores pró-impeachment, em caso de vitória?

Açodados pela perspectiva de poder, eles precipitam o anúncio de suas verdadeiras intenções, o que nos permite, pela primeira vez, uma análise consistente.

O PMDB de Michel Temer quer - como sempre quis - ser governo. Expôs agora ao País o seguinte roteiro: capitaneados nem mesmo pelo que há de melhor no partido e sim pelos nomes mais surrados, afirmam a necessidade de transformação nacional ao abandonar, aos 45 do segundo tempo, um governo do qual fizeram parte durante uma década.

Mantendo o vice, claro, porque isso faz sentido. Governaria com o PSDB, que cada vez mais - especialmente após a expulsão da Paulista de Geraldo Alckmin merendão/metrolão e Aécio Neves, o homem de todas as listas - tem medo das urnas.

Ou seja, teríamos, como forma de renovar a política e dar resposta às cobranças das ruas, o partido que apoiou o atual governo até concluir que ele não tinha mais forças para sustentar as barganhas tradicionais, aliado ao partido derrotado nas últimas eleições.

Os peemedebistas metidos até o pescoço na Lava Jato, possivelmente mais implicados até do que o próprio PT e tendo Michel Temer compactuado, como vice, com as tais pedaladas fiscais.

Os tucanos tendo seu líder e último candidato citado em um sem número de delações premiadas e mais do que provável investigado pela PGE. Sem falar nos demais escândalos que, espera-se, comecem a vir à luz do dia diante da expectativa da população.

Mas não fica nisso. Parte das "ruas", não a que está descontente com a economia e com a corrupção tão somente e sim a que se organizou e tem pretensões políticas, mostra a que veio. Repete a mesma retórica falida que dizia criticar.

As manifestações recentes do MBL são vergonhosas. Eles propõem o que há de mais sombrio e velho. Vão se candidatar sob a argumentação clássica de que "respondem ao chamado dos apoiadores, pelo trabalho que fazem", fala que caberia muito bem na boca de Eduardo Cunha ou de Marco Feliciano.

Pior, não demonstram o mínimo respeito, coerência ou transparência junto ao eleitor. Se ao menos se candidatassem, todos, pelo Partido Novo, efetivamente liberal e acerca do qual ainda pouco se sabe, tudo bem.

Mas não. Virão pelo DEM, PSC, PSDB e PPS. Não satisfeitos em se candidatarem por partidos que fazem tudo o que eles atacam, dizem que vão mandar às favas os votos que tiveram e o sistema partidário democrático porque, se eleitos, formarão uma bancada MBL, similar às ultraliberais (onde?????) bancadas da bala, do agronegócio e evangélica.

Essas três que, todos sabem, têm sido fundamentais para a renovação política do Brasil.

Conclusão? Uns e outros querem o impeachment para ter acesso ao poder e já revelam, descuidadamente, que, para tê-lo, utilizarão os mesmos métodos de sempre.

O objetivo declarado, nesses termos, não é a reforma política, não é recriar a representatividade dos partidos, não é batalhar por regras e sistemas de controle que impeçam que corruptos dominem o Congresso com seus interesses.

O objetivo é comandar a bandalheira.

O objetivo é minar, desde já, uma candidatura que, com as muitas discordâncias que dela tenho, busca um caminho do meio. Busca, ao menos no discurso, formar um partido coeso, com projeto e capacidade de ouvir vozes de várias matizes: Marina Silva.

Fica uma pergunta então: o povo, de um lado e de outro, vai concordar com isso? Foi por um governo sem voto do Michel Temer com o PSDB que milhões de pessoas saíram às ruas? São eles que vão "limpar o Brasil"?

Porque, se não forem, precisamos, desde já, formular alternativas.

Caso o impeachment seja derrotado, que se cobre da presidenta, com pressão mas sem atalhos, que mude as práticas e renove o seu partido, na espera das eleições de 2018.

Caso o impeachment vença, que unam-se, ainda que momentaneamente, os dois lados, para que possam enfrentar-se na arena legítima das eleições.

Que se unam, os dois lados, contra a "solução" Temer, que não é solução nenhuma e sim a tentativa de sufocar a voz popular.

A voz popular à esquerda, ao centro e à direita.

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