OPINIÃO
17/06/2015 13:24 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Maioridade Penal: PSDB se joga na lama para que o rei Cunha não suje os pés

Se tucanos cederem a Cunha, estaremos assistindo ao marco de um duplo processo de desintegração partidária: do PSDB e do PT.

O PT, ao longo dos anos noventa, liderou o processo que levou ao impeachment de Collor e, em seguida, consolidou-se como a opção popular aos tucanos. Estrategicamente, teve aí muitos acertos, bem como alguns erros graves, que agora se voltam contra o partido. Um deles foi o flerte exagerado com o rompimento institucional - não esqueçamos de que defendeu levianamente, sim, o fora FHC, em diversas ocasiões. Outro foi o moralismo udenisma, parcialmente retomado pelo PSOL.

Já o PSDB, na oposição, praticamente só teve erros. Os tucanos venderam sucessivamente seu programa de governo às circunstâncias, com resultados desastrosos. Avaliaram mal as tendências de médio e longo prazo e descaracterizaram o partido. Tivessem simplesmente mantido suas posições originais e implementado com base nelas um duro combate ao PT, programático, e estariam hoje no poder.

Que não o tenham feito é prova de uma enorme falha institucional. Que, em 2015, repitam exatamente os mesmos equívocos é demonstração de indigência intelectual.

Exemplo crasso, que beira o inacreditável, vem com o triste papel ao qual, tudo indica, vão se prestar no debate sobre a diminuição da maioridade penal.

Partamos do princípio de que, no atual cenário, qualquer votação será uma derrota do PT, que perdeu inelutavelmente a iniciativa parlamentar. Essa derrota, entretanto, pode se dar com duas opções.

Opção 1: faz-se valer a inteligente jogada do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin e do senador José Serra. Sem diminuir a maioridade penal, O PSDB endurece a punição aos menores infratores, com diferenciações no que se refere a crimes hediondos. Ganha discurso forte junto aos estratos populares conservadores, ganha discurso junto aos estratos mais ao centro, ganha impulso até mesmo frente a um eleitorado meio místico de esquerda, boa parte do qual se encantou por Marina Silva, nos últimos anos.

Diante de um Partido dos Trabalhadores acuado, os tucanos demonstram capacidade de formulação e de articulação e impõe, quase que item por item, a sua solução para uma questão que adquiriu contornos centrais para o país. A grande mídia repercute exaustivamente essa interpretação. Os tucanos alimentam a tão desejada - e não alcançada, mesmo com a crise do PT - imagem de liderança.

Opção 2: o PSDB cede ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e adere a uma proposta de redução da maioridade que será atribuída única e exclusivamente a ele, a despeito de quantos votos os tucanos lhe ofereçam ou de que ajustes negociem. Em vez de se fortalecerem, fortalecem assim a liderança de um parlamentar que defende o lançamento de uma candidatura própria à presidência pelo PMDB, no próximo pleito.

Mais importante até, um parlamentar cuja representatividade, nesse momento, transcende o seu partido e identifica-se a um projeto político alternativo tanto ao PSDB quanto ao PT, com reais chances de vitória.

Sabe o nome disso? Suicídio.

Se tal linha prevalecer, míope como só a mediocridade absoluta pode ser, estaremos assistindo a um evento decisivo. O marco de um duplo processo de desintegração partidária. De um lado, o Partido dos Trabalhadores, incapaz de lutar por um de seus pilares ideológicos, expondo suas entranhas em praça pública, sob intensa artilharia, interna e externa e, nesse momento, sem perspectivas.

De outro, os sociais democratas, eternamente divididos entre seus próprios caciques e crescentemente dominados por uma bancada de deputados imatura, irresponsável, distante de qualquer compromisso programático, cujo único objetivo é apear o PT do governo, sanguinariamente.

Cegos a ponto de não entenderem que, no ritmo em que as coisas andam, não serão eles a substituir Dilma Roussef.

Para o país, trata-se de um risco abissal. É uma ilusão achar-se, como alguns analistas têm dito, que a desconstrução dos partidos sobre os quais a Democracia brasileira atual se fundou é o resultado da falência de um modelo e a condição inevitável para o surgimento de outro. Infelizmente, ao contrário do que gostariam esses visionários utópicos, não é de toda destruição que nascem avanços.

Como lembra a velha expressão do Barão de Itararé - tão velha quanto os obscuros setores que agora se agitam - de onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo. Da destruição de um sistema, pode nascer algo muito pior.