OPINIÃO
02/12/2015 20:50 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Em São Paulo, porrada em estudante. Em Brasília, chantagem e golpe

Iniciar um processo de tamanha gravidade tendo como motivação a chantagem e a vingança não pode ter outro nome... É uma tentativa de deposição. É golpe. Se havia alguma legitimidade nos argumentos da oposição, fosse ela partidária ou da sociedade, ela acaba de se esvair no ato de Eduardo Cunha.

Montagem/Estadão Conteúdo

O que o governador Geraldo Alckmin está fazendo em São Paulo é um exemplo do que há de mais atrasado no PSDB.

Autoritário, violento e sem o menor respeito com aquilo que o partido tem defendido com tamanho afinco nos últimos meses: a participação popular.

Alguém precisa avisá-lo que Democracia não vale só quando as pessoas concordam com a gente.

Quer dizer, sair à rua pedindo impeachment e tirar foto com o Eduardo Cunha é um movimento apartidário e legítimo. Ok.

Mas quando estudantes se mobilizam - como a sociedade tanto tem exigido, com consciência e organização - isso é um movimento "nitidamente político".

Ora, tenha paciência.

O nível de imbecilidade que tem sido defendido, então, por seguidores acéfalos é inacreditável.

"Ah, é tudo para tirar o foco de Brasília."

Voltamos à retórica da Guerra Fria. Se o PSDB embarcar nessa - como o governador já embarcou há tempos -, está perdido.

Por essa lógica, tudo o que significar reivindicação social e participação é tentativa de revolução comunista.

Já deu! Não estamos em 1960. Não existe União Soviética. Cuba já reatou relações com os Estados Unidos.

E, pior, trata-se de uma visão medíocre do capitalismo. Ser capitalista, nesses termos, quer dizer o quê?

No capitalismo estudante tem que estudar quietinho, trabalhador tem que aceitar o salário que o patrão quer pagar, cidadão não pode questionar o governo? É isso?

E os liberais, concordam com essa versão do sistema? Porque parece muito com o regime stalinista. Vai ver o Stalin é que entendia de verdade o capitalismo...

Não é possível sermos prisioneiros dessa dicotomia insana. Nem em São Paulo nem em Brasília, onde, agora, o político - solto - com menos legitimidade que existe acaba de anunciar que aceitou, por motivações estritamente técnicas, com tristeza no coração, o pedido de impeachment contra a presidenta Dilma.

Quer dizer, chegamos num ponto em que nem disfarçar minimamente é necessário.

O PT diz que não vai apoiá-lo no Conselho de Ética e literalmente vinte minutos depois Cunha encaminha a tentativa de depor a presidente.

Sim, porque dar início a um processo de tamanha gravidade tendo como motivação a chantagem e a vingança não pode ter outro nome... É uma tentativa de deposição. É golpe.

Se havia alguma legitimidade nos argumentos da oposição, fosse ela partidária ou da sociedade, ela acaba de se esvair no ato de Cunha.

Essa tem que ser a manchete dos jornais - e duvido muito que seja. Essa teria que ser a atitude de uma oposição séria, democrática.

Não interessa o que se pensa do governo do PT e de Dilma. Podiam ser os mais odiados do Universo. Nenhuma Democracia séria se sustenta quando passa a ser possível tirar o presidente do cargo por esse tipo de expediente.

A não ser que se abandone qualquer veleidade de interesse pelo país e se assuma como objetivo único defenestrar o PT, é impossível apoiar esse tipo de movimentação.

Porque é a mais mafiosa de todas. Igual a tudo que se fez na Petrobras e a toda a mercantilização da política a que temos assistido.

É preciso que cada um de nós, qualquer que seja nossa posição, decida se quer mudar a política ou, apenas, assumir o que nela há de mais baixo para ganhar.

E ganhar o que, afinal de contas? Uma democracia em frangalhos, um sistema deformado, partidos que, de todos os lados, terão traído qualquer tipo de convicção que um dia tiveram.

Um País entregue, justamente, à estrutura desgovernada que tanto se critica.

Democracia não é isso. Em São Paulo ou em Brasília.

Democracia não é mandar a polícia "dialogar" com estudantes que fazem tudo o que deles pedimos -- pensam, se organizam, buscam seus direitos.

Democracia não é apoiar um chantagista para tirar um governo e um partido do poder. Mesmo para quem acredita que esse governo e esse partido representam o que há de pior.

Lá e cá, em São Paulo, com o PSDB na situação, e em Brasília, com o PSDB na oposição, está em jogo a história dos tucanos.

Se acham que o PT acabou, parecem preparados para morrer - ao menos como social democratas - abraçados com ele.

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