OPINIÃO
16/04/2018 18:53 -03 | Atualizado 16/04/2018 18:55 -03

Dizer que a prisão do Lula simboliza o fim da impunidade é ilógico – e esse é o problema

"O que essa prisão prova é que, no Brasil que muitos continuam a querer, só paga o pato, mesmo, quem vem da classe trabalhadora."

"Lula não representa, na história e no imaginário brasileiros, a elite nacional, que domina e atrasa o país há 500 anos."
Rodolfo Buhrer / Reuters
"Lula não representa, na história e no imaginário brasileiros, a elite nacional, que domina e atrasa o país há 500 anos."

Há um erro insuperável - inclusive de tantos e tantos comentaristas profissionais, com ampla experiência na área - na lógica de que prender o Lula tem uma simbologia contra a impunidade. É o inverso, e por isso a dificuldade atávica que eles tem para entender como ele mantém popularidade e apoios.

O que quer que se ache dele, o Lula não representa, na história e no imaginário brasileiros, a elite nacional, que domina e atrasa o país há 500 anos. Chega a ser ridículo ler e ouvir essa associação, naquela linha de que "finalmente vemos que os poderosos podem ser presos". Ridículo nem pelas minhas convicções - embora também por elas -, mas pela anemia histórica e sociológica dessa avaliação.

O Lula foi o primeiro presidente do Brasil que não veio da elite, eleito pelo primeiro partido brasileiro nascido da classe trabalhadora. É ele, justamente ele, o escolhido para representar os poderosos? Um nordestino, ex-metalúrgico e sindicalista? Condenado por membros, eles sim, da elite estrutural, enquanto outros membros da elite estrutural governam o país e outros tantos livram-se da cadeia, pelas mesmas mãos que prendem o Lula?

Pode-se odiar o PT com todas as forças, pode-se soltar fogos com a prisão dele, mas a realidade é que o Lula já ganhou a narrativa. Porque, a despeito do que se ache ou não que ele tenha feito, o que essa prisão prova é que, no Brasil que muitos continuam a querer, só paga o pato, mesmo, só é eleito para cristo, mesmo, só é alvo de ódios passionais, mesmo, quem vem da classe trabalhadora. Ainda que tenha chegado aos degraus mais altos do poder. E isso não é novidade galera, não é passar o país a limpo. É continuar igual. Líderes trabalhistas a gente já prende há muito tempo, desde sempre.

Se fosse para convencer a população de que a espada da justiça está revolucionando o Brasil, sem distinções de classe, o Lula teria que ser o último. Teriam que espinafrar diariamente, fazer bonequinho e por na cadeia, antes, o Aécio, o Serra, o FHC (que, vale salientar, eu respeito), o Renan Calheiros, o Temer, o Jucá, o Agripino Maia, o Aloysio Nunes, o Alberto Fraga (esse que foi pego numa gravação, em 2009, reclamando do valor da propina e, em 2018, ainda achou tempo e liberdade para caluniar a Marielle), o Sarney, o Collor.

Ou seja, prender os poderosos tradicionais, das famílias tradicionais, da política tradicional. Que dominam a máquina estatal desde que o mundo é mundo. O Lula nunca, jamais, vai ser considerado o símbolo desse grupo, nem poderia ser. Mesmo que tenha se aliado a alguns deles. No máximo daria para emplacar a prisão do Lula, depois de todas as outras, numa argumentação "pegamos geral, trabalhadores também podem se envolver no toma lá dá cá, não dá pra livrar o cara." Esse discurso até dava para vender.

Transformá-lo em líder supremo da elite privilegiada brasileira, cuja prisão inaugura uma nova era de igualdade republicana, a despeito do que você e eu pensemos, a despeito de argumentações sobre foro privilegiado e juiz Moro, não vai rolar. A eleição do Lula – e não sua prisão - é o que terá sido o ponto fora da curva na história brasileira.

Pô-lo na cadeia, sinto decepcionar, não será suficiente para desconstruir a imagem que dele ficou – e que sustenta os impressionantes índices nas pesquisas eleitorais: o primeiro presidente brasileiro que não veio da elite e, sim, do povo.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.