OPINIÃO
18/03/2018 16:08 -03 | Atualizado 18/03/2018 16:08 -03

Como acreditar na Justiça quando Marielle é alvo de mentiras de uma desembargadora?

Marilia Castro Neves, do TJ-RJ, comentou no Facebook que a vereadora "estava engajada com bandidos".

Divulgação/Alessandra Rocha
Marielle Franco foi alvo de mentiras de desembargadora via Facebook.

Acho difícil, quase impossível dizer alguma coisa sobre a execução da vereadora Marielle Franco. Muitas pessoas que a acompanhavam em toda a sua luta parlamentar e política já o fizeram e farão com muito mais propriedade. Votei nela e, como milhões de pessoas, sinto a perda de uma brilhante representante pública, uma esperança em meio a decrepitude que há muito toma conta da política nacional — e internacional. Estou acompanhando todos os desdobramentos e tentando entendê-los.

Todo esse preâmbulo, no entanto, é só para criticar a desembargadora Marilia Castro Neves, do TJ-RJ (Tribunal Regional do Rio de Janeiro). A desembargadora, embora ocupe uma das mais altas posições no Judiciário, sente-se à vontade para espalhar as mais absurdas calúnias sobre a vereadora, sua atuação, seu partido. Inventa associações com o crime e outros absurdos que, infelizmente, se tornaram lugar comum na manifestação de alguns.

Ingenuamente, admito, ainda fico chocado ao ver uma representante da Justiça, nas mãos de quem, sabemos, residem tão importantes decisões acerca dos cursos do nosso País, falar barbaridades, abertamente, sem o mínimo respeito pelas pessoas a quem se refere e, mais até, pelo cargo que ocupa. Bom, não precisaria nem dizer, mas é difícil de controlar: alguém é capaz de confiar nas decisões de uma juíza como essa?

O que a desembargadora manifesta não é opinião, não é liberdade. Mentira não é discordância. É fraude.

Uma representante da Justiça que não vê o menor problema em mentir e caluniar, simplesmente porque não concorda politicamente com uma vereadora que foi executada? Uma desembargadora — e, ah, existem muitos outros como ela — que não se preocupa com provas (desculpa, isso já seria pedir muito) — que não se preocupa minimamente com a realidade, apenas com a prevalência das suas percepções ideológicas e sua visão distorcida do mundo. Para pessoas como a desembargadora, não há julgamento, não há Justiça.

O que ela manifesta não é opinião, não é liberdade (tenham santa paciência!). É, apenas, mentira! A gente ainda entende esse conceito? Mentira.

Mentira não é discordância. É fraude. E, se uma desembargadora sente-se tão livre para encarnar o total desapreço pelos fatos, pela análise, somente porque quer agredir aqueles de quem discorda, mesmo que estejam mortos, é impossível, para quem quer que seja, acreditar que há um mínimo de isenção nas tantas e tantas decisões que encarceram milhares de pessoas e deixam livres um punhado de outras. Não dá pra gente se iludir.

Na Justiça, como em todas as outras partes do Estado e da sociedade brasileira, existem setores podres, elitistas, absolutamente cegos para tudo que não os beneficia, que não reafirma o seu papel de castas dominantes, excludentes, escravagistas.

E, para aqueles — e, acredito, são muitos — que podem ter abordagens políticas muito diferentes das minhas e o terem de boa fé e movidos pela vontade de melhorar, de avançar, antecipo: não tem essa de vitimismo, de "estão usando a tragédia" ou "e as outras mortes qua acontecem todo dia?".

Vamos tratar as coisas pelo que elas são. Em toda a História, há, obviamente, mortes que, pelo que representam – e por quem os mortos representam – ganham um significado específico. Marielle representava uma ideia, uma trajetória e, junto a isso, ela representava, como vereadora, o Estado de Direito.

Vamos nos revoltar com todas as mortes? Vamos lá, é o que deveríamos fazer, sim. No entanto, se não nos revoltarmos pelo menos com essa, estamos abandonando qualquer traço de civilização.

Marielle lutava por uma polícia que mate menos e morra menos. Por um policial que ganhe melhor, viva melhor, possa voltar para casa à noite e ficar com a sua família, sem ser tratado como massa de manobra.

Assassinos não podem interferir nas nossas escolhas políticas, quaisquer que elas sejam, à esquerda ou à direita. Porque, se o fizerem, não há Democracia. Não há espaço nem mesmo para o enfrentamento político e ideológico.

Marielle tornou-se um símbolo e, como todo símbolo, justamente por ser quem era, representa muito mais. A morte da vereadora representa, hoje, milhares, milhões de outras mortes.

Chamar atenção para o drama que os próprios policiais vivem, usados, sim, para fazer o trabalho sujo do Estado, enviados para morrer diariamente enquanto a gente assiste novela ou séries na Netlix, não tem nenhuma contradição com a necessidade de reagir ao assassinato de Marielle Franco. É exatamente o contrário.

Falar de direitos humanos é falar também dos direitos do policial a ser mais, muito mais, do que margem de manobra para políticos e sanguessugas do Estado que, eles mesmos, nunca arriscam suas vidas por ninguém, quanto menos pelo cidadão.

Por fim, e gostaria muito que a desembargadora Marilia Castro Neves, que não se importa em mentir, nem mesmo diante da morte, me ouvisse.

Desembargadora, a vereadora — e tantos que lutam como ela —, concordando-se ou não com ela, lutava, também, pela polícia.

Por uma polícia que mate menos e morra menos. Por um policial que ganhe melhor, viva melhor, possa voltar para casa à noite e ficar com a sua família, sem ser tratado como massa de manobra.

E sabe quem trata os policiais como peões, fingindo defendê-los quando apenas quer vê-los caminhando para o abatedouro de dentro de seus gabinetes com ar-condicionado e cheques de auxílio-moradia na gaveta?

Ah, essa é fácil. Desembargadoras Marilias e seus asseclas.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.