OPINIÃO
11/12/2015 12:33 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:40 -02

Aliados de Cunha e da máfia, PSDBs e Kataguiris querem 'mudar o Brasil'

Qual o sentido de se acabar com um governo utilizando os mesmo métodos que nele se critica? A não ser que o motivo não seja moralização alguma. A não ser que o motivo não seja combate à corrupção. A não ser que o motivo não seja acabar com pedaladas. A não ser que o motivo seja, apenas, tirar o PT do poder porque se discorda do rumo que o partido deu ao Brasil.

Divulgação/MBL

Qual legitimidade pode ter qualquer partido ou movimento social ao aceitar que o processo de impeachment seja conduzido por um político que sofre duras acusações de corrupção e até de ameaças às famílias de delatores, advogados e parlamentares?

Um político que age de forma a mais truculenta, atrasada e autoritária possível?

Como supostas lideranças da sociedade civil, tais quais o célebre Kim Kataguiri, podem argumentar que Dilma Rousseff não tem condições de se manter no poder enquanto forjam uma aliança, explícita ou tácita, com Eduardo Cunha?

Se pesassem contra ela metade das acusações na Justiça que pesam contra o presidente da Câmara, Dilma já teria perdido o cargo há tempos.

Se fossem honestos em seus propósitos, os oposicionistas só aceitariam a continuidade do debate após a saída de Cunha. Não seria muito, não seria nem mesmo demorado.

Seria o mínimo.

Cunha não é Ibsen Pinheiro, cassado após articular o impeachment de Collor, por razões em nada ligadas ao tema.

Cunha é acusado de desviar dinheiro da Petrobras, na mesma investigação que bradam aos quatro ventos para atacar a presidenta.

Cunha dá cada passo de maneira estudada para enfraquecer o governo e tentar se salvar.

Cunha manipula o Congresso exatamente da maneira bolivariana que os opositores do PT imputam ao partido.

Age sem apreço algum pela transparência e pela opinião pública, por meio de conchavos de bastidores e favorecimentos pessoais.

Qual o sentido de se acabar com um governo utilizando os mesmo métodos que nele se critica?

Nenhum.

A não ser que o motivo não seja moralização alguma. A não ser que o motivo não seja combate à corrupção. A não ser que o motivo não seja acabar com pedaladas, nem dar mais transparência à gestão pública nem, muito menos, mudar as atuais práticas políticas.

A não ser que o motivo seja, apenas, tirar o PT do poder porque se discorda do rumo que o partido deu ao Brasil.

É o que fica claro no discurso de cada um dos opositores.

Do líder do PSDB, Carlos Sampaio, que muda de posição, sem cerimônia, ao sabor das circunstâncias, a Kataguiri e afins, que repetem estratégias populistas radicais e disfarçam seus objetivos, assim como fazem os políticos que tanto atacam.

Que eles assumissem, ao menos, essa visão! Sem meio termo, sem disfarces.

Que eles não se proclamassem paladinos da Justiça e de um novo País e mentissem, eludissem, tergiversassem apenas para favorecer seus argumentos diante da opinião pública.

Encontraram-se com Cunha, afagaram Cunha.

Agora, aceitam que Cunha conduza o processo sem legitimidade e sem democracia, aproveitando cada oportunidade para se safar da cadeia. Aceitariam que ele se safasse se o prêmio fosse a cabeça de Dilma.

Não se preocupam com a corrupção em governos anteriores e em outros partidos. Não querem esperar qualquer análise de contas de campanha pelo TSE ou até pela Lava Jato, que tanto exaltam. Não querem trâmites republicanos no Congresso.

Se armam com manifestações de rua e com pesquisas e dizem, abertamente, que daí vem a legitimidade do impeachment.

O resto, está mais do que claro, são cortinas de fumaça.

Não fossem as tais pedaladas -- que, vamos ser honestos, não tirariam presidentes em lugar nenhum do mundo e não seriam ameaça a um presidente popular e com base forte no Congresso -- inventariam outra coisa.

Que o digam então!

Que digam que para tirar o PT vale tudo. Que é esse o único objetivo. Que para tirar o PT não importam métodos. Que para tirar o PT cria-se um novo modelo institucional no qual um presidente que tenha 10% de bom e ótimo em pesquisas, somadas a manifestações - significativas, não há dúvidas - e desorganização da base legislativa, tem que ser retirado do cargo.

Porque é esse o procedimento que, sob o manto de uma transformação da política, estão instituindo. Porque estão fazendo do impeachment uma ferramenta de luta partidária.

Que o digam, ao menos!

E não venham com essa de Collor. Collor foi acusado de corrupção pessoal, pelo próprio irmão e por Eriberto Costa, entre outros.

Acusações como as que ele sofria quem recebe hoje é Cunha, cuja presença na presidência da Câmara é amplamente tolerada.

Collor não foi retirado do poder porque seu governo era desastroso ou impopular - embora fosse ambos.

Tanto assim que muito da política econômica que aplicou foi retomada com FHC, oriundo de um PSDB que apoiou o impeachment.

Collor foi retirado do poder porque roubou. Sem metáforas. Sem teses sobre como o déficit primário é a chaga dos mais pobres e a grande fraude nacional.

Dito isso, vamos imaginar que não tenha sido assim. Vamos imaginar que o PT e outras forças tenham buscado acabar com o então presidente porque o achassem incompetente e incapaz de liderar o país. Porque não suportassem o "estelionato eleitoral" por ele cometido ao confiscar a poupança. Sim, estelionato eleitoral, essa forma jurídica recentemente introduzida na Constituição brasileira e medida, dentro de todos os parâmetros legais, pelo Datafolha.

Se o impeachment de Collor teve como motor esse tipo de atuação político partidária, se foi um julgamento do governo e não uma reação à descoberta de corrupção pessoal do ex-presidente, ele foi um erro grave. Que não deveria ser repetido. Muito menos por quem vê no PT a origem de todos os males -- quem sabe não foi desse também?

O problema é que nada disso interessa. O impeachment de Collor pode ter acontecido por razões totalmente diversas das que se alega atualmente, ou pode ter sido um equívoco. Pouco importa.

Pouco importa o debate sobre o Brasil. A oposição parece ter esquecido que existe um País que eles mesmos querem governar.

O que prevalece hoje é um desejo incontrolável, expresso antes, durante e no dia seguinte às eleições: defenestrar o Partido dos Trabalhadores.

Um desejo que, incompreensivelmente, não pode esperar as urnas.

Um desejo tão forte que faz ditos liberais e sociais democratas, esses que esculhambam a política de alianças adotada pelos petistas, darem às mãos a Cunha, Paulinho da Força, Jair Bolsonaro e Marco Feliciano, em vez de buscarem a luta pelo voto, em 2018.

Diante de uma vontade tão incontrolável que se assemelha a um vício, só resta uma saída política e intelectualmente honesta: assumam, de peito aberto, o que querem fazer. Falem a verdade!

Pelo menos isso a população brasileira, que vocês dizem defender e prezar acima de tudo, merece.

Também no HuffPost Brasil:

Galeria de Fotos Manifestações contra Cunha em SP, BH e BSB Veja Fotos

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: