OPINIÃO
19/06/2015 14:38 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Aécio, Tintim e Asterix na Venezuela

Enquanto por aqui Eduardo Cunha virou o nêmesis do governo, o cara que destrava todas as pautas, que derrota sucessivamente o PT, Aécio, do alto de seus 51 milhões de votos, resolve ser ator de novela mexicana - desculpe, de novela venezuelana. 

DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO

O Brasil passa por um momento chave de sua história político partidária. As votações em Brasília e os movimentos que delas decorrem terão forte impacto nos rumos institucionais do País. Reforma política, maioridade penal, fator previdenciário, ajuste fiscal, entre tantos outros.

 

Tudo isso se dá com o governo do PT fragilizado e numa fase em que o conservadorismo radical busca, pela primeira vez desde o fim da ditadura, tornar-se protagonista. Chegar efetivamente ao poder, em voo solo.

A oposição define agora quem serão suas lideranças.

 

Para o bem e para o mal, o Congresso Nacional assume uma centralidade que jamais teve no atual período democrático brasileiro. É ali, no parlamento, que tudo se joga. As articulações de deputados e senadores constroem o Brasil dos próximos dez anos.

Diante desse cenário, me vem a pergunta: o que diabos o senador Aécio Neves está fazendo na Venezuela? 

 

Enquanto por aqui Eduardo Cunha virou o nêmesis do governo, o cara que destrava todas as pautas, que derrota sucessivamente o PT, Aécio, do alto de seus 51 milhões de votos, resolve ser ator de novela mexicana - desculpe, de novela venezuelana. 

José Serra e Geraldo Alckmin, envolvidos diretamente nas batalhas em curso no parlamento, devem estar rindo de orelha a orelha. Os dois mostram que podem ser líderes da oposição. Já Aécio confirma as piores opiniões que dele já foram veiculadas. Age como um canastrão, fazendo o mesmo tipo de demagogia que critica no PT. O teatro da velha política, como diria Marina Silva.

 

Que o regime venezuelano tem graves falhas não há dúvidas. Chavez diminuiu e muito a desigualdade num país que vivia uma impressionante concentração de renda e poder político, mas, ao mesmo tempo, foi incapaz de diversificar a economia e escapar de suas origens pessoais militaristas. 

 

Não teve a eficiência, por exemplo, de Evo Morales, que consolidou um modelo estável e democrático na Bolívia - modelo esse que, surpreendentemente, apesar do continuado crescimento econômico boliviano, passa à margem do noticiário brasileiro.

 

Maduro é medíocre e autoritário. A forma como procedeu diante da armadilha dos senadores brasileiros revela um político juvenil.

 

Tudo isso pode ser dito. Mas, e o Brasil? O que podemos dizer da situação do nosso País e dos nosso líderes? 

 

Existe alguma dúvida de que tudo o que aconteceu durante a viagem dos senadores fazia parte de um script, minuciosamente planejado? 

 

Ato 1: pegamos o avião, sem pautas concretas. Ato 2: chegamos e causamos um auê, o que quer que aconteça. Ato 3: dizemos que fomos vilipendiados. Ato 4: cobramos uma reação do governo brasileiro e o criticamos, independente do que faça. Ato 5: atacamos a Dilma, genericamente, por colaborar com um regime ditatorial.

 

É evidente, mesmo para os mais ácidos críticos do regime chavista, que o objetivo dessa história toda não era ajudar a oposição a Maduro, e sim desgastar o governo Dilma. 

Poderia até ser um objetivo politicamente legítimo, se não fosse ridículo, nas condições que o Brasil atravessa hoje e dada a posição do senador Aécio Neves, que deveria ser o principal líder da oposição no legislativo.

 

O que ele defende em relação à redução da maioridade penal? O que acha da MP sobre o fator previdenciário? Que tipo de ajuste fiscal advoga, em relação ao que seria votado nessa quinta-feira? Como se posiciona frente ao Frankenstein de reforma política que está sendo aprovado? Serra teve opiniões. Alckmin, mais ainda. Pode-se discordar de ambos - e eu geralmente discordo -, mas tiveram. O Eduardo Cunha nem se fala.

 

E o Aécio? Ah, ele volta ao Brasil para, finalmente, se pronunciar, enfaticamente.

 

Sobre a Venezuela.

 

Quem sabe, depois, ele não continua suas aventuras por toda a América Latina e lança livros infantis contando o que viu? Juntaria-se então aos ícones da política franco-belga, Tintim e Asterix. Já consigo até ver: "Aécio entre os bolivianos". "Aécio e o mistério do Equador". "Aécio e o cachimbo uruguaio"...

 

Restaria, nesse contexto, apenas uma questão em aberto: quem está pagando a conta de tamanha criatividade editorial?