OPINIÃO
17/12/2015 15:19 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

A voz das ruas foi contra o impeachment. E agora?

Estadão Conteúdo

A grande justificativa para o impeachment de Dilma Rousseff era a "voz das ruas". A mesma tática do Hugo Chávez, mas tudo bem.

Só que a voz das ruas minguou. Ou melhor, inverteu-se. Como se não bastasse a queda vertiginosa de presença popular nas manifestações do último domingo (13), elas ainda foram superadas, em São Paulo, pela de quarta feira (16). Contra o impeachment. Quem diz não sou eu, é o Datafolha.

Ah, mas houve pouco tempo para organizar, afirma a oposição, o MBL e muitos comentaristas.

Ué, mas não era tudo espontâneo? Por que uma manifestação espontânea que revela um desejo tão urgente da população precisa de tanta organização? O tal consenso e mobilização populares precisam de carros de som e convites bordados para aparecerem? Só vão às ruas se tiverem bonecos flutuantes e espetáculos circenses? Uma semana de aviso prévio não é suficiente para aparecer na Avenida Paulista ou na Praia de Copacabana?

Engraçado porque eu achava que era só marcar e o pessoal ia. Achava, inclusive, que tinha sido assim em 2013.

Ah, mas a manifestação dessa quarta-feira tinha apoio e presença de sindicatos, insistirão os arautos do impeachment.

Ué, mas sindicalista não é povo? Não vota? Não pode ter lado? Quer dizer, o movimento pró-impeachment pode ser montado por organizações estruturadas e abertamente anti PT, organizações que pedem doações, vendem camisetas, bancam carros de som e se reúnem com o PSDB e outros partidos de oposição. Já o movimento contra o impeachment, para ser legítimo, tem que ser organizado por anjos tocando harpas.

Pensando bem, faz sentido. É o mesmo raciocínio que Geraldo Alckmin teve com o movimento dos estudantes. Se é contra ele, não presta, se é a favor, trata-se do espetáculo da democracia.

Para os anti PT, a voz das ruas só serve quando diz o que eles querem.

Aliás, a voz da Justiça e das delações, também. O Eduardo Azeredo, ex governador de Minas, acaba de ser condenado a 20 anos de prisão por sua participação no mensalão tucano. Em primeira instância, porque ele, de maneira republicana, renunciou para não ser julgado pelo STF. Trata-se de um santo injustiçado. Nada a ver com o que fez o PT, o PMDB e todos os partidos. Nada! Chega a ser ofensiva, quase um sacrilégio, tal comparação.

Bom, Nestor Ceveró disse que tinha altíssimos desvios da Petrobras na gestão FHC. Coordenados pelo Delcídio, o petista ex-tucano. Meu Deus! Que absurdo, clama a oposição. Aquilo foi coisa de bandido, corrupção organizada é só com o PT. Ninguém do PSDB sabia que o Delcídio estava fazendo esses horrores, naquela época.

Ué, mas quando o Lula fala que não sabia não fica todo mundo indignado?

E os tais movimentos sociais, pró-impeachment? Revoltam-se com essas revelações? Defendem que todos sejam presos, tucanos, petistas e todos que desviaram dinheiro? Defendem apurações abrangentes para realmente limpar o País? Não. Se calam ou, no máximo, dão declarações protocolares. E reiteram que a solução para tudo é tirar a Dilma.

Bom, novamente, faz sentido. Também não deram um pio sobre o Cunha, até verem que ele havia se tornado um argumento a favor da Presidenta. Aí se indignaram. Para inglês ver, porque não questionaram sua autoridade, nem buscaram barrar as votações que ele conduzia.

E agora? Parece que o homem vai preso, já já. A PGR pediu que fosse retirado do posto.

Essa bandeira estava na passeata de domingo? Não. Estava na de quarta.

Não é curioso?

Não é curioso que, justamente quando o processo do impeachment finalmente começa, seus defensores sejam superados nas ruas? Não deveria ser o contrário?

Quais serão as desculpas?

Ah, mas não se trata somente das ruas, dirão, mudando o discurso pela vigésima quinta vez. O problema são as pedaladas. Essas que constam num parecer do TCU ainda não votado pelo Congresso.

Ora, e quem se importa com essas formalidades?

O Hélio Bicudo e o ex-ministro do FHC, Reale Júnior, já decidiram. O negócio é votar o impeachment antes! De uma vez! Ontem! Vamos tirar a Dilma urgente porque o país não aguenta mais essa bandalha. Vamos limpar esse país com o PSDB, o DEM e o Michel Temer, que se elegeu duas vezes na chapa do PT! Unidos pela nova política!

Não, Peraí. Muita calma nessa hora. Pensando melhor, apontam os salvadores do Brasil, temos que esperar um pouco. Temos que esperar uns meses, que é para agravar a situação da economia. Temos que deixar o povo refletir.

Claro, porque um ano inteiro com o Brasil em suspenso e com centenas de manifestações - algumas delas enormes - não foi suficiente para o povo entender o que está acontecendo.

Aham Cláudia, senta lá.

O povo vai pensar melhor, sim, enquanto perde emprego e vê o país se afundar, paralisado pela guerra política. Dane-se, responderão nossos heróis. A culpa é do PT - e em parte é mesmo. Depois, só quem consegue mobilizar a população no Natal é a CUT e o MTST.

Mas e o Brasil, pergunto eu (algo ingenuamente, admito)?

"Hein? O quê? Brasil?" Dirão os anti PT. "Do que você está falando? Ninguém se importa com o Brasil. Se os petistas tiraram o Collor e criaram o fora FHC, por que a gente não pode tirar eles? O Brasil é o de menos. A população tem que chegar ao fundo do poço mesmo, para aprender. Deixa eles se arrebentarem. Se arrebentarem legal. Tem que doer porque só assim a gente consegue tirar a Dilma. E o que interessa é tirar a Dilma! Brasil? Hahahahahhahaha!"

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