OPINIÃO
27/05/2015 18:34 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02

A ditadura do futebol

Sabe o que é mais chocante nesse episódio da Fifa e de José Maria Marín, ex-presidente da CBF? É que a grande surpresa não foi a corrupção em massa e sim o fato de prisões terem efetivamente acontecido. Não se pode nem falar em descoberta de esquema porque esse esquema, em linhas gerais, já era público e notório há muito tempo.

Buda Mendes via Getty Images
TERESOPOLIS, BRAZIL - JULY 10: Luiz Felipe Scolari (L) gestures with Jose Maria Marin the president of the Brazilian Football Confederation (CBF) during a training session of the Brazilian national football team at the squad's Granja Comary training complex, on July 10, 2014 in Teresopolis, 90 km from downtown Rio de Janeiro, Brazil. (Photo by Buda Mendes/Getty Images)

Sabe o que é mais chocante nesse episódio da Fifa e de José Maria Marín, ex-presidente da CBF? É que a grande surpresa não foi a corrupção em massa e sim o fato de prisões terem efetivamente acontecido. Não se pode nem falar em descoberta de esquema porque esse esquema, em linhas gerais, já era público e notório há muito tempo.

Sob o manto absurdo da independência desportiva, a Fifa e a CBF se tornaram organizações cujo objetivo central parece ser o de flutuar acima das leis. Quando cobradas ou mesmo questionadas, se revoltam com a "intervenção" e assumem a atitude de empresas privadas eficientes que sofrem um ataque indevido do poder público ou da mídia. Não são.

Os representantes do FBI acertaram na mosca na escolha de palavras. Disseram que os dirigentes "sequestraram o esporte". É isso mesmo. Qual é o ativo da Fifa e da CBF, afinal de contas? Não são donas dos clubes, não são donas dos estádios, não são donas das bolas. Tornaram-se donas absolutas do futebol. Privatizaram um bem imaterial e tratam-no como se o houvessem criado e pudessem aprisioná-lo, eternamente.

Veja só, o problema não é a gestão privada. O problema é que, de maneira incompreensível, essas entidades pegaram um bem coletivo, sobre o qual não tem - ou não deveriam ter - nenhum direito e vampirizaram-no. Numa época em que a democracia é o único regime aceito como legítimo no Brasil - bom, quase - e no ocidente inteiro, as entidades que administram o esporte mais popular do planeta são ditaduras.

Não há aí nenhuma figura de imagem. São organizações impermeáveis à influência dos cidadãos e defendem abertamente que assim o sejam. Agem como querem, não dão explicações a ninguém nem admitem contestações. E, quando confrontadas, ameaçam. Têm o poder de decidir quem faz parte ou não do mundo do futebol e o utilizam contra os inimigos, descaradamente.

Algumas iniciativas relativamente recentes - entre muitas - mostram a que estágio chegou o autoritarismo e a alienação da federação. Uma delas, a mais inacreditável, é a escolha do Catar para sediar a Copa do Mundo de 2022. Decisão que só poderia ter sido tomada numa ditadura.

Não tenho nada contra o Catar. Se há uma coisa positiva feita pela Fifa nas últimas décadas é o trabalho de levar o esporte a todos os cantos do globo. Há, entretanto, um pequeno detalhe: de acordo com todas as avaliações - pasmem, inclusive do presidente da Fifa! - é impossível jogar futebol no país durante os meses de junho e julho. Em qualquer democracia do mundo, falha que fosse, seria necessário debater e contornar esse fato previamente, no mínimo, para se avaliar tal candidatura.

Não. Escolheu-se o Catar e dane-se.

Como se a entidade não devesse explicações ou mesmo racionalidade aos bilhões de fãs que diz representar. Como se, trancados num salão na Suiça, pudessem decidir o que quisessem e pronto.

Aos dissidentes, o Goulag do ostracismo futebolístico.

E a CBF? Bom, a CBF é a Fifa em território nacional. Por mais que se critique a gestão dos clubes brasileiros - com toda a razão - neles há, ainda, traços de democracia. É difícil, mas possível mudar. Dirigentes poderosos fazem o diabo, contudo, eventualmente são derrotados e substituídos. Está longe, muito longe, de ser um modelo eficiente e transparente. Agora, em comparação com a CBF, os clubes são um paraíso de liberdade.

Após décadas com o mesmo presidente e quando esse presidente teve de sair acuado por acusações de todos os lados, houve algum ensaio de debate sobre um novo sistema, sobre um processo de renovação? "Hahahahaha", responderiam os dirigentes da CBF, numa conversa no Facebook. Entrou o José Maria Marin, ex-governador biônico durante o governo militar. Para melhorar a piada, a sede da CBF, no Rio de Janeiro, foi batizada com o seu nome! Isso lembra a vocês alguns regimes políticos adoráveis ao longo da história? E continua.

Diante do fracasso na Copa e da nítida necessidade de se repensar conceitos no futebol brasileiro, a CBF promoveu um tipo qualquer de consulta pública? Abriu-se, nem que fosse de mentirinha, numa jogada publicitária, para as opiniões alheias? "Hahahahaha", de novo. Puseram o Dunga e o Gallo, que outro dia foi demitido, num caso obscuro, sem que se tenha entendido qual o projeto que ele implementava e qual o projeto que vão implementar agora.

Reitero que, assim como não tenho nada contra o Catar, não tenho nada contra o Dunga. Discordo da escolha, mas me parece um cara decente. O Gallo ninguém sabe o que fez antes, durante e depois. O ponto não é esse. O ponto são as medidas sempre autocráticas de uma entidade que deveria representar o futebol brasileiro e, na verdade, representa apenas a si mesmo.

O ponto é que, no mundo e no Brasil, deixou-se isso acontecer. Há muitos responsáveis por esse cenário lá fora, inclusive na civilizada Suíça, que abriga a sede da Ditadura. Entretanto, concentremo-nos em nosso país.

A sobrevivência da CBF, no modelo em que atua, é uma expressão do grau de perversão ao qual a acomodação política desenfreada nos tem conduzido.

Democracia é, sim, negociação, busca de consenso. Desde que esse consenso leve a algum lugar. Aceitar a putrefação do esporte mais popular do país não pode fazer parte de nenhum compromisso. No entanto, fez. Compromissos do PT, do PC do B, do PSDB, do PMDB, do PSB, do PPS, do DEM, de quase todo mundo. Da esquerda e da direita.

A pergunta que fica é: e agora?