OPINIÃO
29/09/2015 00:29 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

A complexidade da política brasileira não será resolvida com o impeachment de Dilma

Em vez de investir energias no impeachment, a oposição e os antipetistas fariam muito melhor em se organizar para propor uma agenda de transformação do Estado e defendê-la à sociedade.

REUTERS/Ueslei Marcelino

Uma opinião -- qualquer opinião -- tem um histórico. Ela se baseia numa visão de mundo preexistente, aplicada ao tema em questão.

Quando um articulista escreve, ele tende a esconder esse histórico e a expor, apenas, o raciocínio pronto. Nesse caso, o leitor vê mais a tese do que o autor.

Opto, aqui, por uma abordagem diferente. Temos, hoje, teses demais sobre o impeachment, prontas e infalíveis. O que nos falta é o debate, profundo, honesto intelectualmente e democrático.

Sendo assim, começaremos pelo legado do PT, passaremos pelos tucanos e chegaremos nos bolcheviques, a partir dos quais atingiremos nossa conclusão. Que vocês julguem as partes e o todo!

Transformação social nos governos do PT

Os governos Lula e Dilma provocaram uma revolução na estrutura da sociedade brasileira. Criaram a classe média tipicamente capitalista e tipicamente consumista que há décadas nós almejávamos ter. A classe média que faz do Brasil um mercado de importância global.

O PT teve a visão, brilhante, de que a economia só cresce realmente se a base da pirâmide se enriquecer. Uma ideia de escopo muito mais norte americano e keynesiano do que bolchevique.

Uma ideia, na verdade, bem parecida com a que tem oJosé Serra. Esse José Serra mesmo que você está pensando, o tucano. Que é truculento politicamente e meio que vendeu a alma para tentar ganhar da Dilma, mas que é um grande formulador e gestor.

Um homem que tem, sim, visão de País. Infinitamente melhor que Aécio, Alckmin e até FHC.

Dito isso, o FHC não é um neoliberal safado que odeia o povo. É um intelectual a ser respeitado e foi um estadista, ainda que dele se possa discordar -- como eu discordo em muitos pontos.

O Plano Real lançou bases para um ciclo de desenvolvimento. O PSDB pensou novas estruturas para o Estado brasileiro -- novas estruturas mais do que necessárias, até hoje.

Buscou modernizar o Brasil e gerar desenvolvimento. Não o fez com a mesma visão do PT, provocou desastres econômicos e "estelionatos eleitorais" similares aos que põe na conta da Dilma (vide a desvalorização cambial), mas fez.

Petróleo

O sistema de partilha é altamente questionável. Pode dar frutos, mas gerou enormes atrasos na produção de petróleo e jogou no lixo quase uma década na qual o setor de Óleo & Gás poderia ter se desenvolvido muito mais do que se desenvolveu, fortalecendo a Petrobras.

Ao mesmo tempo, a obrigatoriedade de que a Petrobras utilizasse conteúdo nacional, medida tão facilmente criticável como protecionista e "esquerdopata", foi a responsável direta por trazer ao País centenas de empresas de ponta, que aqui investem e geram empregos.

Diante de um mercado aquecido, as multinacionais não espernearam, como tantos colunistas. Vieram para cá.

Política externa

Falando em multinacionais, os Estados Unidos não são um monstro, responsáveis por todos os males do Universo em conluio com a mídia brasileira e os espiões tucanos.

O país pode -- e deve -- ser parceiro prioritário de um Brasil que tenha uma política externa independente.

Assim como a China é um ator estratégico, mas não tem em mente o bem estar da humanidade e sim o seu próprio interesse comercial.

A iniciativa privada e o Estado

Não, amigos, a iniciativa privada também não é a razão de todos os males, assim como o Estado não é a solução para tudo.

Na época em que vivemos e com as ferramentas que temos, o poder da iniciativa individual pode ser mais democrático, transformador -- e até mesmo socialista -- do que a concentração das iniciativas nas mãos do governo.

Nesse sentido, menos impostos para quem produz e menos burocracia na ação estatal não são bandeiras elitistas.

Vale avisar isso à parte da mídia que, dando razão aos bloqueios de direita, trata a busca pelo lucro e as parcerias público-privadas (como as das Olimpíadas no Rio), com desconfiança similar a que teriam diante de um grupo de mafiosos.

A esquerda (e os blogueiros) que defende o indefensável

Defender esquemas gigantescos de corrupção sob a justificativa de que investigá-los obedece às diretrizes norte-americanas e visa ao enfraquecimento da economia nacional é uma piada.

O PT sempre foi -- e ainda é, vide o posicionamento pelo financiamento público das campanhas -- o partido que atacou o conluio obscuro entre o governo e o grande capital.

De repente virou o contrário? As empresas corruptoras e os agentes públicos corruptos servem ao desenvolvimentismo? Difícil de engolir...

A indignação seletiva

Por outro lado, também é difícil de engolir a tese de que a oposição não utilizou e utiliza os mesmos estratagemas.

É difícil de engolir a demora no julgamento do mensalão mineiro; a lentidão absoluta do MP de São Paulo e a ausência de delações premiadas no caso do Trensalão, que envolve mais de uma década de governos do PSDB em São Paulo; a opção por não investigar o sistema de corrupção na Petrobras na era FHC, entre muitos exemplos possíveis.

É difícil de engolir que o partido que teve em sua base de apoio dos mesmos Renan Calheiros e Sarney que apoiaram o PT, acrescidos de nomes como o inesquecível Antônio Carlos Magalhães, denuncie agora a politizacão e o aparelhamento da máquina pública, enquanto age da mesma forma em todos os estados que administra, haja vista a pressão sobre a Sabesp, denunciada pelo TCE paulista.

Difícil engolir que o PSDB se horrorize com a corrupção endêmica do PT e apoie descaradamente o Eduardo Cunha.

O jornalismo militante

Ah, é difícil, mas boa parte da mídia engole e reproduz. Confesso que não consigo entender a lógica do Merval Pereira quando diz que o fato das pedaladas fiscais não terem sido punidas "sabe-se lá o porquê" em anos anteriores não justifica que não o sejam agora. É sério que ele não sabe por que não foram punidas antes?

Não foi porque os governos eram populares (ou menos impopulares) e reprovar suas contas, nesse contexto, era impensável e a nada levaria, enquanto agora pode servir a objetivos políticos?

Usar instrumentos técnicos e jurídicos de acordo com interesses partidários não é, no mínimo, questionável? Não é exatamente isso que o próprio Merval ataca no PT?

Alguma coisa deve estar me escapando, talvez porque, ao contrário do Merval, eu não tenha o privilégio de conversar dia sim dia também com o Fernando Henrique Cardoso e, desse modo, alimentar minha imparcialidade jornalística.

Bolsa Família e meritoracia

O Bolsa Família é um programa essencial. As universidades mudaram para melhor com o PT. O ProUni foi eficiente, e as cotas são necessárias. Hoje há no ensino superior muito mais negros e muito mais pobres, o que desloca os centros de poder na sociedade.

As reclamações sobre ausência de "meritocracia" no processo vem, 90% das vezes, de quem teve todos os privilégios do mundo.

As cotas, diga-se de passagem, funcionaram nos Estados Unidos e não são para sempre. Dizer que a sociedade brasileira não é racista é negar o óbvio.

Ademais, se existe há séculos preconceito de classe e a maioria esmagadora da população de baixa renda é negra, onde se situa a diferença, exatamente?

O preconceito de séculos contra o pobre é o preconceito de séculos contra o negro.

Os piores bolcheviques desde a criação do Universo

O PT não está transformando o Brasil numa república bolivariana comunista castrista que transmite mensagens subliminares por meio da logo da Copa do Mundo.

O fato de um cara alterar o perfil da Miriam Leitão na Wikipédia de um escritório no Palácio do Planalto não constitui cerceamento à liberdade de imprensa.

Não existe ameaça à liberdade de expressão no Brasil. Dizer isso é ridículo. O PT nem mesmo diminuiu a média de repasses publicitários aos grandes veículos de comunicação.

O governo é criticado e denunciado diariamente em todos os jornais e por praticamente todos os colunistas.

Cerca de 800 mil pessoas foram às ruas esculhambar a Dilma, várias delas pedindo a deposição da presidente. Nenhuma delas foi reprimida.

Aliás, curiosamente, os mais reprimidos pela polícia foram os movimentos à esquerda. Não vai aqui nenhum juízo de valor, apenas uma constatação.

Como partido totalitário stalinista o PT, realmente, é uma decepção.

O lucro dos bancos explodiu, as vendas do comércio também.

Até as acusações e condenações do partido estão relacionadas com o favorecimento a grandes empresas.

O Lula, chefe dos bolcheviques bolivarianos, é, ao mesmo tempo, acusado de fazer lobby para empresas privadas brasileiras no exterior!

Realmente, não se fazem mais comunistas como antigamente...

E o impeachment nisso tudo?

Por que sou contra o impeachment? Porque vejo a saída de Dilma como a clássica mudança para deixar tudo como está.

A reedição de uma mentira típica no Brasil e a opção, também típica, pelo caminho mais curto.

A mentira -- já defendida pelo próprio PT -- de atribuir a corrupção e o distanciamento dos políticos da população a um partido ou a uma pessoa. Não é assim que funciona.

Não vale tudo para tirar o PT do poder nem deve ser essa a prioridade de ninguém. Também não é tirando a Dilma que vai se mudar o Estado e a política brasileiras. Essa é uma falsa luta.

Em vez de investir suas energias no impeachment, a oposição e os antipetistas fariam muito melhor em se organizar para propor uma agenda de transformação do Estado e defendê-la à sociedade, propulsionados pelos efeitos da Operação Lava Jato.

Uma agenda que fizesse o seu governo diferente do atual e não apenas contra o atual. Porque, se não o fizerem, vão tirar a Dilma da Presidência e repetir as mesmas práticas que nela atacam, como fizeram no passado, no governo federal, e fazem no presente, nos governos municipais e estaduais.

Já o PT e os petistas, em vez de acusar os tucanos de serem contra os pobres e repetirem à exaustão a história da elite branca, desqualificando todas as críticas, deveriam ouvi-las.

Deveriam tentar entender onde erraram. Deveriam, sim, renovar o partido.

Incentivar as poucas lideranças criativas que tem hoje, como o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, e o deputado Alessandro Molon (RJ) [o deputado se desfiliou do PT antes da publicação deste artigo], em vez de escondê-los ou torpedeá-los internamente em prol de políticos carcomidos.

Deveriam parar de repetir lugares comuns e perceber que qualquer partido -- inclusive o Partido dos Trabalhadores -- pode se deixar levar pelo corporativismo e pelo desejo de perpetuação no poder, a qualquer custo.

E nós todos, de todas as matizes políticas, em vez de nos acusarmos uns aos outros, deveríamos aprofundar nosso compromisso com a democracia. Porque compromisso com a democracia vai muito além da defesa partidária. Significa respeitar as opiniões diferentes da nossa.

Significa entender que uma pessoa pode ser a favor do PT porque acredita que os governos petistas melhoraram a vida da maior parte da população e não porque ganha mortadela ou incentivos da Lei Rouanet.

Significa que a pessoa pode, sim, ser a favor da redução da maioridade penal e estar chocada com os desvios na Petrobras e nem por isso é a favor da segregação racial e da oligarquia.

Significa que o talento de um escritor, de um apresentador ou de um músico não é definido pelo partido no qual ele vota.

Significa, por fim, debater política pública de verdade em vez de se fazer uma guerra cega na qual todos se sentem superiores, mas, finalmente, estão apenas competindo por likes e comentários cáusticos no Facebook.

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