OPINIÃO
19/03/2014 10:04 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Virgindade no século 18

Estudos estatísticos no Brasil indicam que 78% dos homens e 57% da mulheres fizeram sexo antes do casamento. Mas será que eu li direito? São apenas e tão somente 57% das mulheres?

A virgindade entre as camponesas solteiras deixou de ser mantida em algumas regiões da França e Alemanha na segunda metade do século 18. Depois voltou a ser um quase padrão. O historiador americano Edward Shorter, em The Making of Modern Family (1975), trabalhou sobre o assunto. Constatou a existência maciça de sexualidade pré-conjugal por meio de registros paroquiais, que traziam a data do casamento e a data do batizado do primogênito. Se o período fosse inferior a sete meses, a noiva, ao se casar, não apenas não era mais virgem, como também se casou grávida. Imaginem vocês, que grandes sem-vergonhas!

Não sou especialista. A sexualidade faz parte da história dos costumes que me é um tema de interesse pessoal há algumas décadas. Sei que há quarenta maneiras de falar da sexualidade. Existe alguma relação, mesmo distante, entre essas camponesas anônimas de há 250 anos e as leitoras também anônimas que hoje compram ou assinam revistas femininas. Algumas das chamadas de capa, há algumas semanas em qualquer banca de jornal: "Novas taras e dates modernos e outras tendências", "Amor de verão. Vale! Mesmo que não dure até fevereiro", "Sexo. Pense menos e aja mais", "69 ideias de sexo para você e ele delirarem", ou, então, "Te pego lá fora", este sobre um aplicativos para celular.

Nada contra essa verbalização agressiva. Ela tem como mérito legitimar e socializar comportamentos que deixariam de ser praticados sem alguma carga de culpa. Isso por excesso de pudor ou pela inexistência de uma linguagem debaixo da qual se unificam imensos grupos de mulheres com uma visão biográfica mais hedonista de si mesmas. A vulgarização de uma sexualidade mais livre funciona como um guarda-chuva que institui e abriga comunidades de comportamento.

Curioso: essas frases curtas e eficientes trazem o cheirinho da linguagem da autoajuda. As consumidoras digerem palavras para em seguida deglutirem seus homens. O problema é que a autoajuda traz como ilusão o ineditismo, o "vai ser assim, de agora em diante, e você pode se orgulhar por ser uma das primeiras". O que é uma forma de negar a história. Enterramos com algumas pás de bobagem aquilo que foi criado e vivenciado socialmente por antepassados de há alguns séculos.

Temos culturalmente uma relação compulsiva com a sexualidade. Freud até que explica, mas todas as explicações dele fogem daquilo que, pejorativamente, circunscreve o senso comum. O senso comum é um tipo de conhecimento, mas um conhecimento insatisfatório, superficial, em geral elaborado na direção errada.

O senso comum feminino sobre o sexo prevalece nas conversas de barzinho, abastecidas a cerveja, ou, no caso dos homens, nas trocas de informação com o umbigo encostado no balcão da padaria.

As "verdades" assim construídas têm pouco a ver com o tempo, com a história do grupo familiar ou mesmo da tribo social aos quais as interlocutoras pertencem. Além disso, inventamos um passado para que, no presente, possamos nos situar com uma carga narcisista maior. Justificamos o quanto as coisas são hoje melhores do que nos tempos de nossos pais ou avós.

Há duas ou três gerações, "todas as mulheres se casavam virgens". OK. Depois veio a revolução sexual dos anos 1960, com a pílula anticoncepcional e o movimento estudantil de Maio de 68. E, por fim, as feministas, que, num belo dia, levaram às ruas boa parte das quase 2 bilhões de mulheres então existentes no Planeta, para que todas, em conjunto, queimassem seus sutiãs. Será que foi isso mesmo? Pura mistura de estereótipo com verossimilhança de botequim.

Lembrei-me de uma jovem de 30 anos que revelou, há semanas num jantar entre amigos, ter ficado horrorizada ao saber, durante a adolescência, que a própria mãe havia se casado virgem. Mas como? Escolaridade superior, heterossexual, bons livros, viagens à Europa, família pouco ortodoxa em religião. Mas eis que a mãe dessa jovem não foi exceção das exceções, aquilo que os economistas designam pelo horrível chavão de um "ponto fora da curva".

De certo modo, passaram-se as mãos nessas curvas há bem mais tempo que se pensa. É o que, mais uma vez, revelam historiadores e demógrafos. Um deles, o francês Jean-Louis Flandrin, em Le Sexe et l'Occident (1981), está entre os autores que associam, já na primeira metade do século 16, um esboço de liberdade sexual que sofreria em poucas décadas um imperceptível recuo. Vejam que falamos do Renascimento, que também correspondeu aos tempos da Inquisição ibérica. Ela não reprimia a perda da virgindade, mas estava de olho na sodomia sistemática com a própria esposa ou na impotência masculina. Eram coisas que provocavam a infertilidade do casal. Sem procriar, e sem Seguridade Social disponível, marido e mulher ficavam do lado de fora da linhagem que levava às heranças por direitos e poderiam caminhar para a indigência ao final de suas vidas.

Um parêntese. Metaforicamente saboroso foi o hábito das finlandesas (citadas por Short) que saíam às ruas com uma bainha vazia amarrada à cintura. Estavam, assim, honestamente disponíveis para quem aceitasse ali aconchegar sua arma branca.

Ah, argumentariam vocês, existem os estudos estatísticos, que, respondo já de início, são muitíssimo recentes dentro da longa história da sexualidade, uma história tão bem esboçada (e apenas esboçada!) por Michel Foucault. Há o relatório Kinsey sobre a sexualidade feminina (1953), revelando que, há 60 anos, a metade das mulheres americanas não se casava mais virgens. No Brasil, o Datafolha (1997) diz que fizeram sexo antes do casamento 78% dos homens e 57% das mulheres.

Mas será que eu li direito? São apenas e tão somente 57% das mulheres? Noves fora, 43% se casaram virgens ou algo bem próximo disso. Ou, então, subnotificaram a própria virgindade. Céus, cadê a terceira geração nascida depois da revolução sexual? O senso comum - o da mulher liberada e "dona de seu próprio corpo e do seu próprio eu"- faz como sempre vergonhosamente água.