OPINIÃO
07/04/2014 10:36 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

Carlos Kleiber, 10 anos depois

Com certeza o mais importante da segunda metade do século 20. Não como celebridades do jet set internacional, mas como um maestro que forneceu um apurado padrão de excelência em suas obras.

Getty Images
Carlos Kleiber, conductor The conductor after a concert with the Symphony Orchestra of Baviera (Photo by Quim Llenas/Cover/Getty Images)

Há muitas efemérides musicais em 2014, como os 250 anos da morte de Jean-Philippe Rameau, os 150 anos do nascimento de Alberto Nepomuceno, os 100 de Guerra Peixe ou os 80 da morte de Ernesto Nazareth. Mas me dou ao direito a uma peculiaridade pessoal e vou considerar, como mais importante, os dez anos da morte de Carlos Kleiber.

Carlos, quem? Ora, ele foi um dos maiores maestros de todos os tempos. E, com certeza, o mais importante da segunda metade do século 20. Não como celebridades do jet set internacional, como o foram, merecidamente, Herbert von Karajan ou Leonard Bernstein. Mas como um maestro que forneceu um apurado padrão de excelência na combinação dos sons produzidos por uma orquestra sinfônica.

Nascido em Berlim, mas autoexilado com a família a partir dos 3 anos, primeiro em Cuba e depois na Argentina - onde seu pai, o também maestro Erich Kleiber, era diretor musical do Teatro Colón -, ele trocou o nome de Karl Ludwig para Carlos e fez uma carreira avessa às disputas políticas pela titularidade das grandes orquestras.

Aos 34 anos já era titular em Postdam, a seguir das óperas de Dusseldorf, Zurique, Stuttgart e, por fim, a de Munique, último emprego permanente que ele deixou em 1973.

Os 31 que restariam de sua vida foram consumidos como regente freelance. Sobre ele, Karajan teria dito certa vez: "Kleiber aceita reger apenas quando percebe que a geladeira da cozinha está vazia."

Há também um certo mistério quanto às circunstâncias de sua morte. Ele era casado com a bailarina eslovena Stanislava Brezovar, com quem teve dois filhos. Ela morreu em 2003, levando-o a uma forte depressão. Ele também estava com câncer na próstata. Uma versão romantizada informa que, sabendo estar próximo seu fim, ele deixou sua casa na Áustria e foi para a cidadezinha eslovena de Konjsica, onde tinha uma casa de campo e onde a mulher estava enterrada.

Mas no número de janeiro da revista Concerto, o maestro Júlio Medáglia, muitíssimo entrosado nas informações musicais da Alemanha, dá claramente a entender que o maestro se suicidou, aliás como o fizeram seu pai e de sua mãe, em Zurique, em 1956. Carlos Kleiber encomendou um jantar para dois (para ele e para a mulher defunta), fechou-se e foi encontrado morto e sozinho na manhã seguinte. A hipótese do suicídio já havia insinuada, em junho de 2011, por um documentário do canal de televisão franco-alemão Arte.

O século passado foi pródigo em grandes maestros. Tivemos, para citar alguns, Arturo Toscanini, Bruno Walter, Arthur Nikisch, Richard Strauss, Wilhelm Furtwängler, Victor de Sabata, e, mais para a frente, o próprio Karajan, Georg Solti, Bernstein, Charles Munch, Carlo Maria Giulini, Claudio Abbado ou Pierre Boulez (o único da lista ainda vivo).

Inexiste algo como um "maestrômetro", aparelhinho hipoteticamente capaz de somar, com objetividade, os pontos relativos aos múltiplos aspectos que definem a qualidade de um regente.

No caso de Kleiber, no entanto, há uma procura pela perfeição até nos minúsculos detalhes de uma partitura sinfônica. Um mastro, qualquer maestro, lê, com os olhos percorrendo a página em sentido vertical. Ele comanda a intervenção simultânea de muitos naipes - por exemplo, primeiro e segundo violino, viola, trompa e oboé - cada um numa linha de pentagrama. É dificílimo saber como combinar essa complexidade sonora e dela extrair a máxima clareza, sem abandonar uma visão de conjunto da obra e um compromisso de fidelidade para com o compositor.

Charles Barber, biógrafo de Kleiber, dá com relação a isso um bom exemplo. O maestro ensaiava à exaustão, antes de considerar sua orquestra apta para uma récita ou para um registro fonográfico. Na ópera de Munique, por exemplo, só se contentou com seu "Wozzeck", de Alban Berg, depois de 34 ensaios. Em Londres, no Covent Garden, fez 17 ensaios para uma "Bohème", de Puccini.

Kleiber não era um obsessivo, um chato. Ele tinha uma memória interna altamente desenvolvida, que via na partitura uma perfeição que a orquestra deveria de qualquer maneira reproduzir de modo translúcido. Se isso não acontecesse, novos ensaios eram necessários.

Esse perfeccionismo, existente em maestros verdadeiramente excepcionais, tem como contrapartida o custo financeiro de um concerto ou produção operística. Músicos, na Europa, recebem pelos ensaios e pelas récitas. Quanto maior o número de ensaios, maior será o orçamento para que determinado concerto amadureça para o dia da apresentação pública.

Outros maestros foram igualmente detalhistas. Toscanini era obsessivo pela combinação das dinâmicas (intensidade dos sons) e andamento (velocidade da leitura de cada passagem), tirando disso uma expressividade inigualável. Tinha um ouvido policialesco quanto à afinação. Karajan se tornou uma espécie de engenheiro sonoplasta ao calcular de que maneira cada um dos pequenos sons se combinaria aos demais, dentro de uma mesa de gravação. Vem daí a admirável qualidade acústica de seu imenso catálogo com a Deutsche Grammophon.

Kleiber era tímido, introspectivo. Deu uma única entrevista durante toda sua carreira. Acreditava que a linguagem sinfônica era a única disponível em sua comunicação com o público. Detalhes biográficos bobinhos estão até hoje sem respostas. Por exemplo, sua nacionalidade. Para alguns, ele prosseguiu como argentino, como havia sido naturalizado com o pai. Para outros, obteve em 1980 a cidadania austríaca.

Um musicólogo japonês, Toru Hirasawa, fez uma compilação exaustiva de suas apresentações públicas e gravações.

Destrinchando o site, algumas informações curiosas. Ele gravou peças de apenas 24 compositores, quantidade atipicamente pequena para um grande regente. De Richard Wagner, fez só "Tristão e Isolda", sobretudo no Festival de Bayreuth, em 1974 e 1976. No papel título, e com uma única exceção, sempre a soprano sueca Catarina Ligendza. Kleiber não gravou nenhuma ópera de Mozart ; dele, apenas duas sinfonias. Não fez nenhuma das nove sinfonias de Gustav Mahler, apenas o poema sinfônico "O Canto da Terra". E, de Richard Strauss, regeu e gravou as óperas "O Cavaleiro da Rosa" e "Elektra", além de uma única gravação do poema sinfônico "A Vida de um Herói".

Esse repertório um tanto esquelético invalida as especulações de que, em julho de 1989, os músicos da Filarmônica de Berlim, com o qual ele se apresentava frequentemente, pensaram em escolhê-lo para substituir o recém-falecido Karajan. A Berlim é uma grande e complicada empresa, onde o repertório deve ser imenso, mas há também uma política pública de financiamento que transforma o maestro-titular numa espécie de negociador orçamentário. Não era o perfil de Kleiber, tanto que Karajan foi sucedido pelo italiano Cláudio Abbado.

Uma palavra sobre a relação entre Kleiber e Johannes Brahms. Ele gravou apenas duas de suas quatro sinfonias, as de número 2 e 4. Para quem quiser realmente conhecer o maestro por suas entranhas estéticas (eu diria, metafísicas), aconselho a audição da "Quarta", feita entre 12 e 15 de março de 1980 com a Filarmônica de Viena. A "Quarta" é possivelmente a mais profunda das peças escritas por todos os sinfonistas conhecidos (sorry, Beethoven, apesar do allegretto da "Sinfonia no. 7" que você escreveu!). É desejo e tristeza injetados na veia. Ouçam sobretudo o primeiro movimento, que se impõe pelo melancólico fraseado. Mas que, com Kleiber, nos leva a regiões inacessíveis, a não ser com essa música e esse maestro. Ou, então, por meio de uma boa psicoterapia.

Última recomendação. Não prestem muita atenção aos DVDs em que Kleiber rege dois concertos de ano novo com a Filarmônica de Viena. É pura perfumaria construída com valsas e polcas de gente como Johann Strauss Jr. Mas por que então ele aceitou a tarefa? Possivelmente, e lembrando Karajan, foi porque a geladeira dele estava vazia.