OPINIÃO
13/04/2014 08:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

Vacina contra o fracasso escolar

Uma criança criada numa família com nível socioeconômico mais elevado tem um vocabulário 3 vezes maior do que outra criada em lares pobres. Mas os pais podem reverter essa situação de uma forma bem simples.

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Oxalá houvesse uma vacina contra o fracasso escolar. Infelizmente isso não existe. Mas existem intervenções cujo efeito pode ser quase tão eficaz quanto o de uma vacina. No caso do fracasso escolar, essa vacina tem dois componentes básicos: um é a leitura desde o berço; o outro se relaciona a comportamentos e atitudes. Neste artigo tratamos da primeira dose - a leitura em quantidades maciças.

Por volta de 12 meses praticamente todas as crianças começam a falar. A natureza faz sua parte. Por volta dos 36 meses uma criança criada numa família com nível socioeconômico mais elevado tem um vocabulário 3 vezes maior do que outra criada em lares pobres: 1.200 versus 400 palavras, respectivamente. As pesquisas apontam que essa criança que fala 1.200 palavras ouviu cerca de 50 milhões de palavras, cerca de 40 milhões A MAIS do que a criança que só fala 400 palavras.

A fórmula da vacina vem de duas perspectivas diferentes. Primeiro, como demonstrado pela Dr. Adriana Weisleder, pesquisadora da Universidade de Nova York que esteve no Brasil recentemente a convite do Instituto Alfa e Beto, mesmo dentro das classes sociais menos favorecidas é enorme a diferença entre pais que falam mais ou menos. Portanto, o problema não é de classe social, é de uso da linguagem. Segundo, as evidências mostram que a criança acostumada com livros e leitura desde o berço pode superar essas diferenças.

Qual o segredo da leitura? São dois. O primeiro tem a ver com os livros - eles são escritos com uma linguagem mais parecida com a linguagem da escola. A criança amplia o vocabulário e se habitua a estruturas sintáticas mais complexas. Segundo, livro é um excelente veículo para promover a interação entre adultos e crianças, pais e filhos. A mistura dos dois ingredientes - livros e interações - torna a vacina mais potente. Brincar e conversar também ajudam, mas conversar com livros e em torno de livros ajuda ainda mais.

A primeira dose da vacina é conhecida: leitura interativa, desde o berço. Da segunda dose, os aspectos comportamentais, trataremos em nosso próximo post.

Obs.: Para os interessados em colocar em prática a leitura para seus filhos, sobrinhos e netos, o Instituto Alfa e Beto disponibiliza gratuitamente um Guia de Leitura com 600 indicações de livros para crianças de 0 a 6 anos. Também está disponível para download gratuito a cartilha Primeira Infância, Primeiras Leituras, com orientações sobre como, quando e onde ler para bebês e crianças.