OPINIÃO
04/05/2014 13:43 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

Por que sou fã de Bernardinho

Em tudo Bernardinho é um excepcional líder e gestor - um exemplo para todos nós educadores. Ele sabe o que é preciso fazer para estimular e desafiar cada pessoa que quer superar os seus limites.

Estadão Conteúdo

Sei que sou um de milhões de brasileiros que se consideram tietes de Bernardinho. Admiro-o como pessoa e como profissional. E vejo-o com um exemplo admirável e que poderia ser imitado com proveito por professores, diretores e dirigentes educacionais.

O trabalho começa com as pessoas. O técnico está lá para torná-las melhores. Ele pode até não saber jogar em todas as posições ou não saber jogar melhor do que elas - o que é quase sempre o caso. Mas ele sabe o que é preciso fazer para estimular e desafiar cada pessoa que quer superar os seus limites.

Depois vêm os fundamentos. No vôlei são vários: os atletas jogam vôlei, mas fazem exercícios físicos puxados, dietas compatíveis com a atividade, treinam separadamente as várias competências necessárias para jogar bem. Os fundamentos do vôlei são como o bê-a-bá, a taboada, o hábito de fazer os deveres de casa, o conhecimento da gramática e da sintaxe do jogo: receber, levantar, rebater, amaciar o passe e assim por diante.

Em seguida entra a armação do time. Um jogo depende do conjunto e depende de cada um: o time é tão bom quanto o pior jogador, o elo mais fraco. Fazer média, passar a mão na cabeça e contemporizar prejudica a todos: para ser bom tem que ser bom para todos, e todos devem fazer o melhor de si.

Fazer o time funcionar requer um conhecimento profundo de estratégias e táticas. Hoje, com a ajuda de técnicas de neuroimagem - do tipo dessas que usamos para fazer ressonância magnética - sabemos que a representação do pé de um jogador de futebol no seu cérebro inclui o espaço da bola - ela faz parte do seu corpo, de sua forma de pensar e entender o seu espaço corporal.

O cérebro de Bernardinho certamente inclui uma quadra completa de vôlei, inclusive a área onde ficam os juízes, bandeirinhas e o banco dos reservas. A estratégia permite acertar o time para tirar o melhor proveito dos jogadores disponíveis no momento, face às características do adversário do dia. A tática serve para fazer a miríade de ajustes finos durante o jogo. Mas para isso é preciso conhecer o vocabulário, a gramática e a sintaxe do jogo e conhecer cada um dos jogadores.

Mas isso não é tudo: Bernardinho tem coragem de escalar seu próprio filho sem ter medo de ser acusado de nepotismo, pois aplica seus critérios de forma coerente e consistente. Da mesma forma não hesita de deixá-lo no banco. Bernardinho é um apaixonado pelo que faz, mas não deixa sua paixão contaminar suas decisões e sua ação.

Em tudo Bernardinho é um excepcional líder e gestor - um exemplo para todos nós educadores. Mas minha admiração não para aí. Há poucos meses, num improvável encontro de 20 segundos que tive com Bernardinho num improvável lugar perguntei se ele seria candidato ao governo do Rio - como se propalou na imprensa à época. A resposta foi cordial e objetiva: "eu não dou para isso, não tenho paciência com esse tipo de coisa". Bernardinho sabe de seus limites. E tem a sabedoria para ficar dentro deles.