OPINIÃO
18/06/2014 12:42 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Copa, poesia e trabalho infantil

Ajudar em casa, imitar e ajudar os pais em seus trabalhos, desenvolver habilidades manuais, artísticas ou cognitivas, assumir responsabilidades na escola, ajudar em casa e em obras da sociedade não podem nem devem ser proibidos.

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Aos poetas tudo é permitido. Ao futebol da Copa do Mundo também: a sociedade parece não se opor a que crianças sejam contratadas por clubes para aprender a jogar futebol. É tempo de Copa, é tempo de reflexão.

As opiniões da sociedade divergem a respeito do trabalho infantil. Parece haver um consenso sobre a exploração do trabalho infantil - e essa bandeira tem levado a grandes avanços na erradicação de muitos males. Mas há uma diferença enorme entre erradicar a exploração infantil pelo trabalho e por outras formas, como a prostituição, e erradicar o trabalho infantil. Onde está o ponto de equilíbrio? Há trabalhos legítimos e trabalhos não legítimos?

Não é por acaso que o Brasil é penta campeão de futebol - em breve talvez sejamos hexa. Cultivamos o futebol desde o berço. Para muitas famílias, o futebol é como uma loteria: se der certo, salva todo mundo. Empresários ficam de olho nas crianças e as contratam com família e tudo. Em escala menor, atletas, artistas e artesãos que adquiriram notoriedade começaram desde cedo. Uns pagando, uns por amor à camisa, outros já remunerados. Hoje começam a despontar aqui e ali crianças e jovens com enorme capacidade empresarial ou habilidade de programação. Onde há excelência há modelos de desempenho, cobrança continua, padrões elevados e esforço desde cedo. No Rio de Janeiro há uma criança que poderá ser reconhecida como santa pela Igreja Católica em função de seu trabalho voluntário.

A questão é: onde estão os limites? O que é trabalho infantil? O que é exploração do trabalho infantil? Só vale para algumas pessoas? Para algumas atividades? Pode ser remunerado? Quem deve impor os limites? Quem deve proteger as crianças de abusos?

Na história da humanidade nunca houve separação entre brincar e aprender, aprender e trabalhar. Nas sociedades caçadoras, as crianças desde cedo imitavam as atividades dos adultos e logo saíam junto com eles para o trabalho da caça, de que dependiam para sobreviver. Nas sociedades sedimentárias, as crianças ajudavam na horta ou ficavam em casa cuidando dos irmãozinhos. Na sociedade industrial, começaram os abusos - as crianças tornaram-se mão de obra escrava. Na sociedade moderna inventamos outra forma de trabalho infantil - a escola, que no Brasil passa a ser obrigatória a partir dos 4 anos de idade.

A partir da Constituição de 1987, tem havido um esforço enorme da sociedade para estabelecer e assegurar direitos. Em muitos casos a fome e sede de justiça tem criado mais problemas do que soluções. A confusão entre trabalho infantil e exploração das crianças tem levado a exageros. Num primeiro momento a legislação talvez tenha sido necessária para coibir abusos, mas errou na dose. Progressivamente, em nome da proteção às crianças, retira-se dos pais e das famílias a autoridade que lhes é essencial. Jogamos fora o bebê junto com a água do banho.

Nada existe contra o trabalho infantil - ele é importante e necessário. Ajudar em casa, imitar e ajudar os pais em seus trabalhos, desenvolver habilidades manuais, artísticas ou cognitivas, assumir responsabilidades na escola, ajudar em casa e em obras da sociedade não podem nem devem ser proibidos. O mesmo vale para mil e uma oportunidades de empreendedorismo e de envolvimento em causas sociais. É hora de criar espaço para o exercício do bom senso. O desafio consiste em proteger as crianças de abuso - e não do trabalho.

Que a Copa do Mundo e as histórias de sucesso de nossos meninos-campeões sirvam para ampliar o debate e o espaço para refletir sobre esses temas.

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