OPINIÃO
24/07/2014 13:21 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Ariano Suassuna: lições de mestre

Nesta temporada de tristes coincidências, fico imaginando um Guimarães Rosa entrando no São Francisco da integração nacional e se encontrando na fronteira de Petrolina e Juazeiro com o universalista do sertão pernambucano.

EVARISTO SA via Getty Images
Brazilian presidential candidate for the Socialist Party (PSB) Eduardo Campos gestures next to Brazilian writer Ariano Suassuna during the candidacy pre-launch ceremony in Brasilia on April 14, 2014. AFP PHOTO/Evaristo SA (Photo credit should read EVARISTO SA/AFP/Getty Images)

Como todo grande escritor, Suassuna revela o universal no particular. O agreste de Suassuna é como o sertão de Guimarães Rosa ou das Vidas Secas de Graciliano Ramos: o sertão é o mundo.

Suassuna parte do mais restrito retrato regional na sua busca da identidade nacional. Mas a verdade sobre a natureza humana se impõe e o faz superar as fronteiras. Essa caminhada não foi sem sofrimentos, a xenofobia inicial acabou vencida pelo imperativo do universal. Não foi em vão sua implicância com Chico Science.

Registro aqui algumas lições que eles nos deixa:

Lição 1: a função da educação e da cultura é fazer a ponte do local ao universal. Propor uma linguagem, uma literatura ou um currículo escolar local é condenar o aluno a não inserir-se no mundo. O local pode ser no máximo um ponto de partida ou de referência, o ponto de chegada tem que ser o universal que existe no sertão que se encontra dentro de cada um de nós.

Lição 2: A farsa da boa preguiça. O tema dessa peça de Suassuna é antigo - a necessidade do ócio ou da boa preguiça para a produção intelectual já se encontra refletida pelo menos desde Platão. Mas não basta o ócio ou a preguiça, é preciso ser independente e cultivar a independência de espírito. Esta, por sua vez, requer despojamento e compromisso irreevogável com a verdade, e portanto, requer total desapego com pequenas certezas ou necessidades materiais que possam criar compromissos. Foi Suassuna, não Domenico de Masi que primeiro e mais brilhantemente tratou de refletir sobre essa questão a partir dos poetas do cordel. Convido o leitor a ler - ou reler - esse grande tratado sobre os requisitos fundamentais para a produção intelectual isenta e a criatividade.

Lição 3: a mais importante. Mais que professor, Suassuna foi um grande mestre. Senhor absoluto de sua arte, ele soube mais do que ninguém estimular, impactar e formar gerações para formas inovadoras de apresentação e representação teatral. Oxalá todos professores fossem antes bons mestres.

Nesta temporada de tristes coincidências, fico imaginando um Guimarães Rosa entrando no São Francisco da integração nacional e se encontrando na fronteira de Petrolina e Juazeiro com o universalista do sertão pernambucano e o cosmopolita de Itaparica João Ubaldo Ribeiro.

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