OPINIÃO
29/06/2015 15:36 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

O retorno do Canindé: dentre festa, ofensas e apuros, esqueceram o futebol

"Nunca mais volto para ver essa desgraça", comentou o meu colega de arquibancada.

"Nunca mais volto para ver essa desgraça", comentou o meu colega de arquibancada.

Alguns segundos depois, outro soltou: "vocês deveriam pagar para jogar!".

Houve, também, muitos insultos. Como, em qualquer outro estádio, de praxe.

O fim, um angustiante silêncio, chegava a causar arrepios. Não era fim de feira, mas começo do velório. Que, obviamente, ninguém gostaria de estar ali. Juntos. Compartilhando o mesmo ar naquele recinto.

Mas estávamos, eu e uns gatos-pingados.

Porta afora, é como se fôssemos teletransportados para um planeta desconhecido: paramos no meio de uma festa junina, sim, isso que você leu, prestes a começar.

O lugar, no começo, era o Canindé. Depois, palco para os shows de MC Guimé e Turma do Pagode. Com uma leve distorção nos números dos ingressos: 1838 e 18 mil (será mesmo?). Uns, levavam os nomes de Nílton Santos e Enéas nas costas, enquanto outros pecavam, como diria a minha avó, pela falta de roupa.

Quem pecou, de verdade, foi a dona Portuguesa. Contra o Tupi, com os seus torcedores, com o Canindé, com todo mundo. O dia era especial: o tão esperado retorno ao lar, à casa própria, ao seu endereço fixo. Ao lado de uma torcida digna, representativa e incentivadora. Não parou de gritar desde quando coloquei os pés no local. Parou quando, lá pelos 40 minutos do segundo tempo, viu que o gogó rouco foi em vão. Tupi, um, Lusa, nada. Nadica.

Para contar os fatos, como se deve, quem abriu o bolso para ver um gol anulado e uma cabeçada no meio do gol, poderia ter escolhido qualquer outra coisa para fazer. Qualquer. Até ver Thiago Silva enterrar uma seleção enterrada - talvez exagerei.

Caso você queira saber detalhes do jogo: há dois conhecidos no time luso: Bolívar, o zagueiro-capitão, e Felipe, o eterno mão-de-alface, goleiro. Um camisa 10 com pinta de 10, e futebol de 5. Um camisa 5, de fato, grossíssimo. Além de dois laterais sacrificados. Ambos são "criadores", lançadores, marcadores, passadores. Só não chutam e driblam por que daí é pedir demais. Tire-os da equipe, e a Lusa, automaticamente, perde por W.O., acredite. Esqueci-me de outro detalhe: os chutões dos zagueiros. Precisos, como sempre, para não entediar o gandula. O Tupi é semelhante, mas chutou umas três, quatro vezes no gol, e fez um.

Caso você não queira saber detalhes do jogo: comece não lendo o parágrafo acima, caso dê tempo. Rolou coisas dignas de nota, e, até mesmo, de anedota: mandei fortes lembranças para a senhora mãe do camisa 11, do Tupi. Um péssimo ator, diga-se. Resolveu dar uma de cai-cai bem na minha frente, não posso aceitar. Caiu, levantou a cabeça sabiamente para ver a continuação do lance, não deu em nada, e voltou a chorar de dor. Minutos mais tarde, furou toscamente chegando a se esborrachar no gramado. A bola pune, colega.

Outro momento infeliz foi testemunhar um de nossos maiores males, não do futebol, da sociedade como um todo: o racismo. Ouvir duas vezes a palavra "macaco" e uma vez a expressão de "negro safado" foi algo totalmente inesperado, ainda mais quando você presencia tal cena. O que é mais surpreendente: ver, sem dúvida, a palavra "macaco" sair da boca de um senhor cinquentão e um moleque com seus 15 anos. Provavelmente, o moleque não tem o discernimento do que disse. Já o senhor, desculpe-me, não posso engolir. "Ah, mas você xingou o camisa 11 e repudia isso?" Sim, e com todas as letras. Quem não xinga ou nunca xingou em estádio de futebol estará mentindo. Agora, ofender, não. Há uma diferença brutal entre xingar por xingar e ofender.

Para esclarecer, o alvo foi o goleiro do Tupi, que muitas vezes fez cera ainda no primeiro tempo. Na saída, os poucos que restaram no Canindé, o malharam com diversos insultos. Mas todos xingamentos. À exceção foi o moleque de 15 anos que, digamos, escorregou e falou o que não devia. Um salve, ainda, para os repórteres da saída de campo. Dois sábios fizeram a questão de fazer uma coletiva com o goleiro, e deixou-o como presa fácil para os predadores do alambrado.

Não posso esquecer uma coisa de suma importância: caso você encontre uma moça, charmosa, com uns 28 anos, cabelinho curto, portando um papel e caneta em mãos e rondando estádios obscuros, fuja. Fuja mesmo. Estava na fila da bilheteria, até ela chegar com um sorrisinho e dizer: "vocês podem responder algumas perguntas?". Vocês, na verdade, baseia-se no fato de ela falar, também, para o torcedor que estava atrás de mim. Explicou fazer uma pesquisa sobre a Série C para o seu mestrado. Na primeira pergunta, já fingi que não era comigo.

"Para qual time você torce?". "Portuguesa", disse o cara. Fiquei mudo. Virei o rosto e sobrevivi.

Aliás, fugi de um batalhão de perguntas. Umas, ok. Outras davam vontade de gargalhar. Como:

"Na Série C, você acha que a qualidade dos jogos é igual aos da Série A"?

"Na Série C, você vai ao estádio para fazer amigos?"

"Na Série C, você vai assistir jogos para se divertir?"

Olha, moça, respondendo, agora, duvido que alguém saiu do Canindé satisfeito com o futebol, com algum amigo novo, e feliz pelo entretenimento.

*Fotos: João Almeida.