OPINIÃO
22/03/2016 20:06 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Pode ficar pior, Dilma

Reuters

Prezada Presidente,

Antes de mais nada, quero dizer que admiro sua história. Não é qualquer um que, aos 17 anos, sacrifica a própria vida para lutar contra um regime autoritário e antidemocrático. Só por isso, a senhora já é uma cidadã de se tirar o chapéu.

Apesar da sua trajetória admirável durante a Ditadura Militar, não posso dizer que tenha ficado particularmente feliz com a sua vitória nas eleições de 2010. Não concordava com o modelo de gestão e com as alianças de caráter duvidoso que seu partido insistia em fazer.

Mas, quando eu achava que as coisas estavam fadadas ao fracasso, você me surpreendeu como raramente um político conseguiu me surpreender. Alguns meses depois de assumir o governo, a senhora demitiu ministros corruptos, controlou os gastos do governo e contribuiu significativamente para fazer a economia crescer.

Não à toa, as pesquisas da época apontavam que a sua gestão tinha 79% de aprovação.

E eu com certeza estava incluída nesse número.

Mas aí, prezada presidente, as coisas começaram a degringolar. Não vou entrar em detalhes sobre os motivos que levaram a essa queda, mas nós duas sabemos que algo aconteceu para que um governo que antes ostentava pomposos 79% de aprovação caísse para um vergonhoso índice de 9% de aprovação. E, no fundo, no fundo, a senhora sabe, creio eu melhor do que ninguém, que as coisas não vão melhorar.

Veja, não estou discutindo se a senhora é competente ou não. Isso eu deixo para os mais esclarecidos falarem. O que eu estou dizendo é que, analisando o cenário político atual pura e friamente, sem interferências ideológicas ou partidárias, concluímos que seu governo acabou.

Pode até ser que você tenha razão, talvez você não estivesse querendo livrar Lula do xadrez, mas sim tentando salvar o País. Talvez você realmente acredite que ele vai conseguir recuperar a base aliada. Talvez a sua atitude de passar o documento para ele de fato tivesse mais a ver com um procedimento burocrático do que com uma atitude inescrupulosa.

Talvez a senhora esteja falando a verdade, afinal. Mas, mesmo que você não esteja mentindo, o que você fala ou deixa de falar não importa mais.

A maior parte da população não confia mais em você. Seu partido, incluindo aí o novo ministro da casa civil, Luiz Inácio Lula Da Silva, não tem mais o prestígio que tinha outrora. Em uma empresa, quando os superiores acreditam que um funcionário não está fazendo um bom trabalho, ele é rapidamente mandado embora. No caso do Brasil, embora muitas pessoas esqueçam disso, o seu superior é o povo. E, nesse momento, o povo acredita que a sua prestação de serviços não está mais sendo satisfatória.

É claro que as alternativas não me agradam. Caso você caia, Michel Temer e Eduardo Cunha, dois políticos que são altamente contestáveis, assumiriam o comando do país. Por isso, que fique claro que não estou pedindo a sua renúncia porque acho que o que virá depois é melhor. Não, de jeito nenhum.

Estou pedindo que a senhora renuncie porque tenho medo que algo pior possa acontecer caso a senhora insista em continuar no cargo. Tenho medo que o processo de impeachment, que é uma ação ilegal, já que, até o momento, não podemos provar concretamente nada de antiético em relação a sua pessoa, seja levado a cabo e acabe destituindo a senhora à força. Se isso acontecer, pela primeira vez em minha vida, vou ser obrigada a ver o meu amado País passando por um golpe.

Mais do que isso, se pegarmos o livro de história, vamos perceber que, quando os nervos da população estão tão aflorados como agora, é comum que surjam pessoas que, sob o pretexto de serem salvadores da pátria, tomam o poder e instauram ditaduras. Foi assim com Hitler, foi assim com os militares de 64. E eu tenho certeza que uma mulher que lutou tão bravamente pela liberdade não gostaria de ver isso acontecer no Brasil.

Por isso tudo, eu peço: renuncie, Dilma! Esqueça tudo o que andam dizendo e pense apenas nas consequências que a sua permanência pode trazer. Pense apenas no seu País.

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