OPINIÃO
16/08/2014 12:29 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Como deter o ebola - e o próximo surto

Seremos capazes de deter o ebola nas próximas semanas e meses. Mas isso não é o fim da história. Conseguiremos também construir um sistema de saúde forte o suficiente para conter o próximo surto?

SIA KAMBOU via Getty Images
A man, wearing a protective mask, poses in front of an isolation center for people suffering from the Ebola virus, on August 12, 2014 at the airport in Abidjan. The Ivory Coast announced on the eve that it has banned all flights from countries hit by Ebola as part of steps to prevent the deadly virus from reaching the west African nation. AFP PHOTO/ SIA KAMBOU (Photo credit should read SIA KAMBOU/AFP/Getty Images)

Pela terceira vez em seus 66 nos de história, a Organização Mundial da Saúde declarou uma emergência pública global. Desta vez é devido ao surto de ebola em três países da África Ocidental: Guiné, Libéria e Serra Leoa. Depois de enfrentar dificuldades traumáticas nos últimos meses, os governos e as comunidades desses países procuram desesperadamente sinais de que o ebola pode ser contido.

Como médicos que conhecem bem o continente africano e o controle de doenças infecciosas, estamos confiantes em que o plano de reação à doença do vírus ebola, liderada por esse países e pela Organização Mundial da Saúde, poderá conter este surto da doença e, em questão de meses, extingui-la. Devemos também ter em mente que esse não é um problema da África, mas da humanidade, que por acaso ocorre em uma pequena parte da África.

A reação de emergência deve se concentrar em quatro áreas chaves.

Primeiro, devemos apoiar os trabalhadores de saúde que estão na linha de frente combatendo essa epidemia. Eles pagaram um preço muito grande até agora: quase cem trabalhadores perderam a vida cuidando dos doentes. Precisamos oferecer equipamento de proteção adequado, dar-lhes acesso aos suprimentos necessários, fornecer pagamento à altura de seu trabalho heróico e disponibilizar atendimento de alta qualidade se eles adoecerem. O Grupo Banco Mundial anunciou na semana passada uma ajuda de US$ 200 milhões para conter a disseminação do ebola, e parte dessa verba será destinada a fornecer apoio imediato aos profissionais de saúde.

Segundo, os três países precisam de mais de tudo. A Libéria tem um médico para cada 70 mil pessoas, Serra Leoa um para cada 45 mil (o Reino Unido, em comparação, tem um para cada 360 pessoas, e os Estados Unidos um para cada 410). Precisamos nos mover rapidamente para mobilizar mais trabalhadores de saúde e fornecer mais laboratórios móveis, mais clínicas e equipamentos de teste mais rápidos.

Terceiro, os países e seus parceiros internacionais precisam comunicar às comunidades sobre o surto de ebola com muito mais eficácia. O vírus ebola é transmitido de animais selvagens para as pessoas. O vírus se espalha por meio da transmissão humano-humano, e a infecção resulta do contato direto com fluidos corporais da pessoa infectada e do contato indireto com ambientes contaminados. Outra mensagem principal é que quanto mais rápido os pacientes receberem serviços de saúde, incluindo reidratação com fluidos intravenosos, mais depressa podem se recuperar.

E quarto, precisamos construir sistemas de saúde mais fortes nesses três países para que quando ocorrer outro surto de uma doença infecciosa eles sejam capazes de agir com maior eficácia. O ebola poderá retornar, ou um novo patógeno infeccioso poderia saltar do mundo animal para o nosso.

Parte da solução são sistemas mais fortes de vigilância sanitária e de saúde pública que localizem e evitem novas doenças antes que elas tenham uma ação letal na população em geral. O custo de construir sistemas de saúde mais eficazes não é pequeno -- a metade do pacote de emergência de US$ 200 milhões do Banco Mundial para combater este surto irá para a construção de sistemas de saúde --, mas ele empalidece em comparação com as perdas humanas e econômicas já sofridas com o surto de ebola. Precisamos construir sistemas de saúde pública funcionais e acessíveis, capazes de prevenir, detectar e reagir a esse tipo de epidemia muito mais rapidamente.

A comunidade internacional está começando a ajudar Guiné, Libéria e Serra Leoa. Devemos reconhecer, porém, que essa tragédia é um chamado de despertar. Todos sabíamos que nesses três países, e em muitos outros no mundo em desenvolvimento, os sistemas de saúde eram extremamente frágeis e não poderiam conter efetivamente um surto de doença infecciosa como esta epidemia de ebola. Também devemos reforçar a capacidade institucional regional de prevenção e controle de doenças na África.

Hoje estamos testemunhando os resultados de nossa aceitação da situação vigente. Seremos capazes de deter o ebola nas próximas semanas e meses. Mas isso não é o fim da história. Também conseguiremos construir um sistema de saúde forte o suficiente para conter o próximo surto? Acreditamos que é um imperativo moral e econômico fazê-lo, e todos nós devemos trabalhar na direção desse objetivo.

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