OPINIÃO
02/12/2014 10:43 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:01 -02

Mulheres notáveis sobre essa coisa chamada feminismo

As pessoas complicam demais as mensagens. Há muitas razões para isso, e elas não costumam ser bem-intencionadas. Feminismo virou a palavra du jour. Mas qual é sua mensagem? Quais são seus objetivos? Por que causa tanta divisão?

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As pessoas complicam demais as mensagens. Há muitas razões para isso, e elas não costumam ser bem-intencionadas. Feminismo virou a palavra du jour. Mas qual é sua mensagem? Quais são seus objetivos? Por que causa tanta divisão? Vou tentar ser bem direta. E depois compartilhar alguns pensamentos sobre as questões imperativas de pensadoras luminares.

Precisamos de um feminismo que não tenha medo de amar. Precisamos ter cuidado ao consumir cultura. Precisamos nos defender quando nos sentimos acuadas enquanto mulheres. Precisamos lembrar que palavras machucam; palavras nos colocam em risco. Precisamos conversar umas com as outras, especialmente sobre assuntos que nos deixam pouco à vontade. Precisamos falar com as crianças sobre feminismo, tenhamos filhos ou não. Se decidirmos ser mães biológicas, precisamos conhecer as opções de parto disponíveis. Quando tivermos filhos, precisamos falar com eles sobre o trabalho das mulheres nos anos 1960 e 1970 que lutaram por muitas das liberdades de que desfrutamos hoje. Precisamos de dinheiro; a igualdade econômica é o ideal, mas não é compatível com o capitalismo, então aceitamos salários iguais para trabalhos iguais. Precisamos de corpos: o seu, o meu, os corpos de nossos irmãos e irmãs. Precisamos lembrar que existe uma ideologia. E que essa ideologia é sólida, apesar de divergências em relação aos detalhes. Para mim, esses são os objetivos do feminismo. As mulheres a seguir explicam melhor que eu, e com mais detalhes. Mesmo que você ache que essa mensagem é conhecida, leia de novo. Leia o que dizem essas mulheres, porque, apesar de as histórias não serem novas, elas merecem ser repetidas.

bell hooks sobre a importância do amor:

Me voltei ao feminismo em uma busca mais completa de quem eu era. Precisamos um feminismo que não tenha medo de amar - existe essa noção patriarcal de amor e existe a noção de que o amor deve ser livre. Qualquer mulher que busque amor tem de se autodescobrir primeiro. Falemos de escolhas reprodutivas ou de amor, parte de nossa luta tem sido criar um espaço de escolha. Temos de pensar no amor como escolha.

-- bell hooks é autora de mais de 20 livros, incluindo Ain't I A Woman (Não sou mulher?), Teaching to Transgress (Ensinando a transgredir), Feminism Is For Everybody (Feminismo é para todo mundo) e Wounds of Passion (Feridas de amor).

Roxanne Gay sobre as representações das mulheres na cultura pop:

Quando não estamos tão consciente quanto deveríamos sobre a cultura popular, começamos a internalizar as mensagens danosas que recebemos sobre gênero, sexualidade e sobre o que significa ser mulher no mundo moderno. Estou sempre tentando me defender, porque acredito que exista mais de uma maneira de dar poder às mulheres. A maneira mais saudável de consumir cultura é procurar coisas que tratem as mulheres como seres humanos multidimensionais, evitando o resto. Isso raramente é possível, pois tanto da cultura pop é terrível para as mulheres. Eis uma pergunta melhor: o que podemos fazer para que os criadores de cultura pop produzam menos cultura tóxica para homens e mulheres? Suspeito que pessoas de ambos os gêneros internalizem a maneira como são representados (ou não) na cultura pop. Parece mais pernicioso para homens transgêneros e mulheres, porque ainda temos de lutar por igualdade em tantos níveis. Podemos exigir mais das pessoas que decidem como as mulheres são representadas. Podemos acreditar que temos o direito de usar nossas vozes. Podemos acreditar que nossa visão de mundo é tão legítima quanto a de qualquer outra pessoa.

-- Roxanne Gay é professora associada de inglês da Universidade Purdue. Ela é comentarista cultural e autora do romance An Untamed State (Um estado indomado) e do best-seller Bad Feminist (Má feminista).

Carol Queen sobre cultura do estupro, demonização das vadias e educação sexual:

Fico angustiada com a cultura do estupro e com a demonização das vadias entre os jovens. De nada importa considerarmos o sexo positivo do feminismo uma alternativa para mulheres adultas se as crianças são pressionadas a acreditar que sexualidade e valor andam juntos. Eles vão para uma festa e tudo vai por água abaixo. Você pode ser chamada de vadia sem ser sexual. Tornou-se uma forma de ataque conveniente. O presidente Obama pediu o fim de estupros nos campus das universidades. A universidade é um dos lugares onde é mais fácil ter essa discussão. Mas os estupros em universidades são tão problemáticos porque os estudantes não têm a educação sexual necessária na escola; em vez disso, eles aprendem o valor de ser sexy. Podemos escrever ou falar da Casa Branca, mas crianças, pais, estudantes e educadores precisam ter essa conversa sobre isso.

-- Carol Queen é escritora, palestrante, educadora e ativista, com doutorado em sexologia. Ela é a fundadora e diretora do Centro para Sexo e Cultura em San Francisco.

Ruth Fowler sobre o negócio do parto:

Muitas grávidas não querem se educar sobre parto porque acham ser muito amedrontador. Temos a responsabilidade de nos educar para tomarmos as decisões corretas. É claro que falo de uma posição privilegiada, mas se as pessoas que têm as condições de se educar não o fazem, o que acontece com as mulheres que não têm esse privilégio? Os Estados Unidos e alguns outros países (especialmente o Brasil) são peculiares, pois tratam a gravidez como doença e as grávidas, como doentes. As razões pelas quais os partos são controlados e monitorados são primariamente financeiras. Hospitais e médicos conseguem tratar das mulheres rapidamente, com procedimentos caros colocados na conta dos planos de saúde - e os médicos estão protegidos de eventuais processos. Colocando o dinheiro à frente da natureza, criamos um sistema de partos que é predominantemente controlado por homens. As parteiras costumam ser mulheres, e elas partem do pressuposto de que toda gravidez é saudável e de que toda mulher pode dar à luz com o mínimo de intervenção. Acredito que parteiras deveriam cuidar de partos de baixo risco e também participar de partos em hospitais. Obstetras deveriam fazer o que sabem melhor: cuidar de emergências ou gravidezes que exigem mais intervenção médica.

-- Ruth Fowler é uma escritora e roteirista galesa que vive em Los Angeles. Seu livro de memórias, Girl Undressed (Garota nua), está disponível na Amazon. Links para outros de seus trabalhos (ensaios, jornalismo, artigos de opinião etc) podem ser encontrados em The World Breaks Anyone (http://theworldbreakseveryone.com/). Ela ganhou notoriedade em 2013 por postar fotos de seu parto em tempo real no Twitter (https://www.huffingtonpost.com/2014/01/08/photos-home-birth-social-media_n_4549531.html). As fotos foram tiradas por seu marido, o fotógrafo Jared Iorio.

Judith Kuppersmith com Phyllis Chesler sobre pagamentos iguais para trabalhos iguais:

Até o dia em que as mulheres tiverem a mesma liberdade econômica dos homens, elas serão sempre o segundo sexo. Independência econômica, e com isso quero dizer dinheiro na mão, faz as coisas acontecerem. Na nossa cultura, ganhar mais significa ser respeitado. Em 1965, 1966, quando dava aulas com minha amiga Phyllis Chesler e várias outras mulheres jovens e radicais. Descobrimos que ganhávamos menos que homens com os mesmos currículos. O que fizemos? Tivemos de 'roubar' as informações - hacker o sistema e expor a realidade. Em 1973, 25 membros do corpo letivo da Universidade da Cidade de Nova York, incluindo Phyllis Chesler, processaram a escola por discriminação sexual na contratação e nas promoções de mulheres. Foram necessários 17 anos para que ganhássemos a causa, mas ganhamos. Onde está este ativismo hoje? O feminismo tem de ser um movimento, não uma marca. Sem um movimento fica difícil se posicionar. Você precisa de irmãs e irmãos e o apoio de uma ideologia.

-- Judith Kuppersmith é terapeuta psicodinâmica em Manhattan. Phillys Chesler é autora dos best-sellers Women and Madness (Mulheres e loucura) e Mothers on Trial (Mães sendo julgadas) e do recente livro de memórias An American Bride in Kabul (Uma noiva americana em Cabul).

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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