OPINIÃO
31/01/2018 15:15 -02 | Atualizado 02/02/2018 10:07 -02

'Três Anúncios Para um Crime': É preciso defender e repensar o filme 'racista' de Martin McDonagh

Drama cotado ao Oscar estreia nos cinemas brasileiros dia 15 de fevereiro.

Fox Searchlight Pictures
Frances McDormand in Three Billboards outside Ebbing, Missouri

O último 31 de dezembro entrará para o meu álbum de réveillons como a noite que passei assistindo àquele que em breve seria o provável favorito a Melhor Filme no Oscar 2018. Podem me chamar de sem-graça, mas pelo menos me lembrei de Três Anúncios para Um Crime quando acordei sozinho e sem ressaca no 1.o de janeiro.

Para ser honesto, eu não tinha ideia do tema do filme quando comecei a vê-lo no quarto do meu hotel em Munique, Alemanha. Não apertei meu proverbial cinto de segurança, porque não sabia que estava embarcando na acidentada viagem emocional de Mildred Hayes, uma mulher do Meio-Oeste dos Estados Unidos que ainda buscava justiça sete meses depois de sua filha ter sido estuprada e morta.

Eu só sabia que minha amiga e ex-colega de trabalho Mara Reinstein, crítica de cinema do Us Weekly, tinha me sugerido o filme com entusiasmo, em setembro, depois de vê-lo no Festival Internacional de Cinema de Toronto. "Você vai AMAR Três Anúncios", ela me escreveu no Facebook, dizendo que havia sido a "melhor atuação" de Frances McDormand. E completou: "Bem-vindo de volta à respeitabilidade, Sam Rockwell."

Três Anúncios merece a recomendação empolgada de minha amiga. Embora não tenha me deixado completamente de queixo caído, fiquei gratamente surpreso com a facilidade com que o filme mistura comédia e drama sem diminuir o efeito deste último. Salpicado com altas doses de humor negro, é tão divertido quanto Lady Bird – A Hora de Voar, vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme de Comédia ou Musical. E, para mim, mais comovente. Pouco depois publiquei no Facebook:

Adoro quando um filme "digno de um Oscar" atende às expectativas. Na verdade, 'Três Anúncios para Um Crime' as supera. Mas, à medida que reflito mais sobre ele, não posso deixar de pensar em como a trama seria com Viola Davis no papel principal. Nós (cinéfilos negros E brancos) precisamos desse filme mais do que de outra história sobre as atrocidades dos brancos contra os negros prévias ao movimento dos direitos civis nos EUA (do tipo Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi).

Eu ainda não havia lido nenhuma resenha, e não tinha ideia da reação negativa que o filme estava provocando. Nos primeiros dias de 2018, depois de Três Anúncios ganhar quatro Globos de Ouro, incluindo Melhor Filme de Drama, já não dava para ignorar aquela reação. O principal problema: a forma como o longa ignora as ações supostamente racistas do personagem Jason Dixon, um policial branco e cabeça-quente com fama de ter surrado um negro que estava sob custódia policial. (Dixon é interpretado por Sam Rockwell, vencedor do Globo de Ouro). Atiçando a fúria de seus críticos – a maioria deles brancos, eu suspeito –, o filme se atreve a oferecer a Dixon a possibilidade de redenção, o que alguns aparentemente veem como uma aprovação tácita do racismo.

Estou tão perplexo com a reação negativa quanto os detratores do filme estão com o sucesso de crítica dessa produção supostamente racista. Ok, então o arco de redenção de Dixon gira completamente em torno de pessoas brancas. Pode um racista com inúmeras características deploráveis alcançar a paz interior, de forma legítima, somente através da intervenção indulgente de um nobre personagem negro? (Quanto clichê!) E mais: uma vez que uma produção introduz o racismo em sua narrativa, deve deixar de abordar qualquer coisa além disso?

Considero que esse é exatamente o tipo de nonsense branco liberal que acomete Corra!, outro candidato ao Oscar de Melhor Filme. Ok, então ouvimos falar da suposta vítima negra de Dixon, mas nunca a vemos. Esse homem negro invisível não faz de Três Anúncios um filme racista.

A suposta brutalidade policial racialmente motivada é um elemento histórico que o filme usa para dar uma ideia mais ampla de Dixon, antes de agregar detalhes sobre sua personalidade. Alguns deles o humanizam: as cenas com sua mãe estão entre as melhores, e existem alguns sinais indicando que Dixon talvez seja um gay que não saiu do armário – como a música Chiquitita, da banda ABBA. Outros detalhes jogam luz sobre suas tendências monstruosas. Sua babaquice vai muito além de ser possivelmente racista, e Rockwell a interpreta de forma sublime.

Outra questão polêmica para os que atacam o filme: ele mostra um personagem importante com uma suposta agressão racial em seu passado, mas foca principalmente nos brancos. Bem-vindo a Hollywood, pessoal. Apesar da gritante exceção à regra que vimos em 2017, os candidatos ao Oscar de Melhor Filme são geralmente repletos de personagens brancos. Uma Mildred negra certamente invalidaria essa queixa (ei, Viola!). Mas Mildred deveria ser negra para justificar a redenção de Dixon? Ou Mildred deveria ser negra porque atores negros merecem papéis importantes que poderiam ser igualmente interpretados por atores brancos?

A escassez de negros nos papéis centrais de Três Anúncios não o torna um filme racista. Segue o padrão de Hollywood. O elenco reflete a Hollywood branca, que é uma extensão da América branca.

Claro que é mais fácil criticar o filme do que enfrentar a forma como os americanos brancos (alguns deles tão ostensivamente bem-intencionados quanto os que o atacam) criaram e perpetuam uma sociedade que faz com que seu elenco seja a norma. O elenco apenas confirma o viés racial de Hollywood, que é um sintoma de uma doença maior – que se propaga do Atlântico ao Pacífico. Isso explica por que os cinemas estão cheios de filmes feitos com pessoas brancas em mente e por que #OscarsUsuallySoWhite [os Oscars são geralmente tão brancos].

Martin McDonagh, autor e diretor Três Anúncios, criou os papéis de Mildred e Dixon especificamente para McDormand e Rockwell, e eles não são os únicos candidatos ao prêmio cujos papéis foram feitos sob medida. (A lista dos indicados foi anunciada em 23 de janeiro). Allison Janney, vencedora do Globo de Ouro e indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por Eu, Tonya, disse que o roteirista Steven Rogers escreveu seu papel de LaVona, mãe de Tonya Harding, especificamente para ela, vencedora de sete Emmys.

Paramount Pictures
Viola Davis in Fences

Enquanto isso, o favorito ao Oscar de Melhor Diretor, Guillermo del Toro, criou o papel principal de A Forma da Água para Sally Hawkins, e ela também foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz. Quantas vezes, se é que já houve alguma, um autor branco criou um papel importante que não tinha a ver com a questão racial para um ator negro específico?

Mas imagine que McDonagh tivesse criado o personagem de Mildred para Viola Davis em vez de para McDormand. Sem uma única alteração no roteiro, a aposta seria automaticamente maior e as entrelinhas mudariam dramaticamente. O racismo não seria um tema apenas mencionado ou implícito. Cada cena estaria encharcada de racismo.

Aposto que não há um branco liberal vivo que teria coragem de acusar de racista um filme estrelado por Davis, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2017, no qual ela interpretasse uma mãe buscando justiça para uma filha brutalmente estuprada e assassinada, mesmo que ela fosse cúmplice da redenção de um personagem que nunca pede desculpas, realmente por talvez ser racista. (Curiosamente, muitos críticos de Três Anúncios parecem não ter problema com a redenção de Tonya Harding em Eu, Tonya, mas aposto que se sentiriam de forma diferente se Nancy Kerrigan – a ex-patinadora atacada a mando do ex-marido da rival, Harding – fosse negra.)

Devo admitir que, enquanto observava os moradores da cidade atacando Mildred, me perguntava se as pessoas brancas da vida real não teriam mais compaixão por uma mulher branca de luto, especialmente uma mulher cuja filha tivesse sido estuprada. O movimento #MeToo, afinal, concentrou-se sobretudo em mulheres brancas. Mas como uma comunidade majoritariamente branca de uma pequena cidade do Missouri reagiria a uma mãe negra de luto que desafia a aplicação da lei branca? O "anão da cidade", como é conhecido o morador interpretado por Peter Dinklage, provavelmente não teria uma queda por ela e, portanto, seria menos propenso a lhe dar um álibi perfeito. A negatividade em torno de Mildred teria muito mais sentido com Davis fazendo o seu papel.

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Frances McDormand, Woody Harrelson, and Sam Rockwell in Three Billboards outside Ebbing, Missouri

Talvez o arco de redenção de Dixon também irritaria menos os críticos do filme. Se uma Mildred negra pudesse fazer as pazes com ele e, em certo sentido, endossasse sua redenção, os cínicos que rotularam o filme de "racista" teriam mais chances de fazer o mesmo. Se uma Mildred negra abraçasse a filosofia "deixe a raiva de lado" do personagem Willoughby (Woody Harrelson) – a verdadeira alma do filme –, talvez eles também pudessem suavizar a condenação e ver a humanidade de Dixon. Talvez até mesmo o perdoassem por supostamente bater num homem negro durante a custódia policial.

Sim, perdoar. Esse é o tema central de Três Anúncios. Na carta que escreve para Dixon do além, Willoughby afirma que Dixon precisa se livrar do ódio para se tornar um detetive (ou seja, uma pessoa melhor). A guinada de Dixon vem quando um personagem branco que ele havia agredido e jogado pela janela acaba sendo gentil com ele e, em essência, o perdoa. Mas será que um racista pode evoluir como o resto de nós? Ou será que considerar que um racista brutal seja resgatável e perdoável signifique considerá-lo tão humano quanto os brancos liberais que se consideram imunes ao preconceito racial – eliminando, portanto, parte daquela confortável distância entre os racistas brutais e os brancos liberais?

Mildred nunca é apresentada como exemplo de virtude, e sua evolução, só concluída pouco antes dos créditos do filme, é mais sutil. Às vezes, ela é cruel à sua maneira. O filme não esconde seu lado sacana, que fica evidente com sua indiferença frente ao diagnóstico de câncer de pâncreas terminal de Willoughby e com a forma como ela trata praticamente todo mundo na história.

Se Mildred fosse uma mulher negra sofrendo pela perda de uma filha, os cínicos brancos que rotulam o filme de "racista" sem dúvida #TeamHer [a apoiariam]. Puxa, eles provavelmente torceriam para ela enquanto ela incendeia a delegacia. O racismo implícito de uma Mildred negra sendo alvo de escárnio de moradores brancos e de uma vítima negra sendo subestimada pela polícia branca faria a própria brancura deles parecer mais imaculada.

Isso sugere um viés racial que eles provavelmente não gostariam de ter – liberais brancos usando o racismo chocante de outros brancos para promover a autoimagem. É o tipo de consciência social dissimulada que os personagens brancos de Corra! reconheceriam.

Apesar da minha fantasia negra sobre Três Anúncios, gosto do filme assim como é. Para mim, a raça de uma mãe em luto não determina sua qualificação para entoar a canção de redenção de um idiota que pode ou não ter cometido atos racistas hediondos. Frances McDormand não precisa ser Viola Davis para validar a jornada interior de Dixon. Adoro as entrelinhas extras que Davis teria dado ao filme na pele de Mildred, mas não preciso enfatizar minha "consciência social" encontrando racismo numa mãe branca em luto que mantém um vínculo com um policial branco racista. Não preciso ver o policial branco racista redimindo-se perante um personagem negro para me convencer de que é um homem mudado.

Enquanto vivemos e respiramos, a evolução, a redenção e o perdão são possíveis. Essa, para mim, é a principal lição de Três Anúncios para Um Crime. Aqueles que não concordam, que rotulam o filme de racista por ousar conceder evolução, redenção e perdão para Dixon, talvez não sejam tão "conscientes" quanto pensam que são.

Três Anúncios para Um Crime tem estreia prevista para 15 de fevereiro no Brasil.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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