OPINIÃO
13/02/2015 18:06 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

'50 Tons de Cinza' e a crítica antifeminista

Tachar 50 Tons de Cinza de "ruim" ou "descartável" apenas porque a série atrai um público feminino grande é sexismo, inegavelmente, mas existe uma crítica válida a ser feita à série por sobreviventes e especialistas que procuram contextualizar a realidade do abuso cometido por parceiros íntimos dentro deste fenômeno cultural. Nesta situação, quais são as vozes que deveríamos valorizar mais? As das mulheres que defendem seu direito de ler o que quiserem sem serem ridicularizadas ou as das mulheres que não querem ver os abusos e maus-tratos serem romantizados?

Charles Sykes/Invision/AP
Jamie Dornan and Dakota Johnson attend a special fan screening of

Dizer que não sou fã de 50 Tons de Cinza é como dizer que o universo é mais ou menos grande ou que o fogo é um pouco quente. Tendo passado dois anos inteiros de minha vida decompondo a série de livros de enorme sucesso de E. L. James, eu me considero de certo modo uma crítica profissional dos livros e do fenômeno que os cerca. Desde as semelhanças gritantes com Crepúsculo (50 Tons de Cinza é uma versão reimaginada e não autorizada da série best-seller de Stephenie Meyer) às descrições de práticas BDSM não realistas, passando pela prosa tacanha, há muito o que criticar. Mas, como o sucesso de Cinquenta Tons de Cinza é movido quase inteiramente pelo interesse feminino, será que criticá-lo é antifeminismo?

50 Tons de Cinza não é apenas uma imitação literária de Crepúsculo, mas também uma imitação cultural. Na época em que saiu e fez sucesso, Crepúsculo foi depreciado não por seu conteúdo problemático, mas pelo público ao qual era voltado: meninas teens e, especialmente, as mães dessas meninas, retratadas em tom caricato como mulheres mais velhas, cheias de desejo e fascinadas pelo corpinho jovem de Robert Pattinson. E, como Crepúsculo, 50 Tons de Cinza não deve ser imune a críticas simplesmente porque foi criado e consumido por mulheres.

Caso você não conheça a história, Christian Grey, o protagonista, é um jovem mimado pelos pais adotivos que o salvaram de uma primeira infância marcada por maus-tratos e abuso sexual. Adolescente, seu comportamento violento foi freado por uma das amigas de sua mãe, que o preparou para tornar-se um sadista ultracontrolado. Christian encena e revive seus complexos problemas psicossexuais com mulheres - mulheres como a desajeitada e ingênua Anastasia Rose Steele. Desde o dia em que Christian e Ana se conhecem, ele procura exercer controle total sobre ela; esse controle envolve exigir que ela assine um contrato sexual altamente detalhado (cujos termos são discutidos enquanto ele a induz a beber), decidir qual ginecologista a atenderá (sob a supervisão dele, na casa dele) e que método anticoncepcional ela vai usar. Christian isola Ana de seus amigos e sua família, chegando ao ponto de segui-la até o outro lado do país, sem ser convidado, quando ela visita sua mãe. Ele avisa Ana que, se ela tentar fugir, ele poderá encontrá-la onde quer que ela vá, e, depois que eles se casam, ele encarrega uma equipe de segurança de segui-la e informá-lo de cada passo que ela dá. Como a história é contada na primeira pessoa, o leitor acompanha cada momento em que Ana sente medo de Christian ou de suas reações, incluindo durante as cenas de BDSM inseguro e mal-executado que deixam Ana confusa e chorando. Ao longo de tudo isso, Christian induz Ana a acreditar que o mau comportamento dela é responsabilidade dela, até que ela conclui que sua infelicidade se deve à sua incapacidade de amá-lo o suficiente.

Para algumas mulheres, os temas de controle e estupro não são fantasia. Essas mulheres enxergam seus próprios relacionamentos abusivos espelhados na suposta história de amor de Christian Grey e Anastasia Steele, mas os esforços para fazer suas vozes ser ouvidas têm sido redondamente reprimidos por aqueles que parecem pensar que, se mulheres curtem alguma coisa, o feminismo dessa coisa é irrepreensível. A própria E.L, James já disse que não gosta de ouvir comparações entre o relacionamento abusivo que ela acidentalmente retratou em seu livro e os abusos sofridos por mulheres na vida real, dizendo em entrevista dada em 2012: "Nada me irrita mais que pessoas que dizem que a questão aqui é de abuso doméstico. Citar meu livro neste contexto trivializa o problema e faz um desserviço enorme a mulheres que sofrem esses abusos. Além disso, retrata sob ótica negativa as muitíssimas mulheres que curtem este estilo de vida e ignora as muitas, muitas mulheres que já me disseram que os livros as empoderaram sexualmente."

Para mim, não há dúvida de que muitas das críticas culturais feitas ao livro, e agora ao filme, são baseadas na nossa ideia persistente de que as mulheres, e especialmente as mulheres "de uma certa idade", não devem ter desejos sexuais ou são tolas se os têm. Como os romances históricos sensuais das últimas décadas do século 20, Cinquenta Tons de Cinza e outros romances eróticos de tema semelhante foram batizados de "mummy porn" (pornô para mamães). Esse termo depreciativo ironiza aquele que seria o público principal de 50 Tons de Cinza: donas-de-casa de meia-idade, entediadas, que leem pornografia em seus iPads durante os treinos de futebol de seus filhos. O nome e o estereótipo visam amesquinhar as mulheres que passaram por um novo despertar sexual depois do casamento e da maternidade; mulheres que, esses críticos nos dizem, deveriam parar de sentir qualquer desejo a não ser o desejo premente de agradar ao marido e aos seus 2,5 filhos (em média). Tachar 50 Tons de Cinza de "ruim" ou "descartável" apenas porque a série atrai um público feminino grande é sexismo, inegavelmente, mas existe uma crítica válida a ser feita à série por sobreviventes e especialistas que procuram contextualizar a realidade do abuso cometido por parceiros íntimos dentro deste fenômeno cultural. Nesta situação, quais são as vozes que deveríamos valorizar mais? As das mulheres que defendem seu direito de ler o que quiserem sem serem ridicularizadas ou as das mulheres que não querem ver os abusos e maus-tratos serem romantizados?

Se queremos falar de 50 Tons de Cinza e nosso caso de amor com fantasias de controle, podemos fazê-lo sem zombar da sexualidade feminina. Sim, 50 Tons de Cinza empoderou as mulheres, mas mesmo as coisas que nos empoderam não são imunes à crítica. As mulheres não são prejudicadas quando as mensagens e os temas perigosos destes livros são identificados e criticados, mas algumas mulheres serão prejudicadas se esses elementos não foram analisados. Portanto, quando você for ao cinema, na semana que vem, não ria das mulheres que estão lá para ver suas fantasias sexuais ganhando vida na telona. Acredite em mim, haverá muito material antifeminista legítimo a ser criticado.

Jenny Trout documentou extensamente o estudo que fez do fenômeno Cinquenta Tons de Cinza em seu blog, Trout Nation.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.