OPINIÃO
23/04/2014 10:17 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

Queridos pais, tem gente mentindo para vocês sobre as vacinas

Você deve - a seus filhos e a si mesmo - investigar totalmente a questão. Não confie no que algum estranho na internet diz. Leia estudos científicos e fale com seu pediatra.

Jennifer Raff

Diante dos recentes surtos de sarampo e outras doenças que poderiam ser evitadas com vacinas, e da recusa dos adversários das vacinas a reconhecer o problema, achei que estava mais que na hora de publicar isto.

Queridos pais,

Estão mentindo para vocês. As pessoas que afirmam atuar no melhor interesse de seus filhos estão colocando em risco sua saúde e até suas vidas.

Elas dizem que o sarampo não é uma doença mortal.

Mas é.

Elas dizem que a catapora não é grande coisa.

Mas pode ser.

Elas dizem que a gripe não é perigosa.

Mas é.

Elas dizem que a coqueluche não é tão ruim para as crianças.

É sim.

Elas dizem que as vacinas não são muito eficazes para evitar as doenças.

Mas as vidas de 3 milhões de crianças são salvas todos os anos pela vacinação, e 2 milhões morrem de doenças que seriam evitadas com vacinas.

Elas dizem que a "infecção natural" é melhor que a vacinação.

Mas estão erradas.

Elas dizem que as vacinas não foram rigorosamente testadas quanto a sua segurança.

Mas as vacinas são submetidas a um nível de escrutínio mais alto que o de qualquer outro medicamento. Por exemplo, um estudo testou a segurança e a eficácia da vacina contra pneumococos em quase 38 mil crianças.

Eles dizem que os médicos não admitem que as vacinas têm efeitos colaterais.

Mas os efeitos colaterais são bem conhecidos, e, exceto em casos muito raros, são muito suaves.

Eles dizem que a vacina contra caxumba causa autismo.

Não causa. (A questão de se as vacinas causam autismofoi investigada em diversos estudos, e todosmostraram provas avassaladoras de que não causam.)

Eles dizem que o antisséptico thimerosal contido nas vacinas causa autismo.

Não é verdade, e ele não faz parte da maioria das vacinas desde 2001.

Eles dizem que o alumínio contido nas vacinas (um componente coadjuvante da vacina, destinado a reforçar a reação imunológica do corpo) é prejudicial para as crianças.

Mas as crianças consomem mais alumínio no leite maternodo que nas vacinas, e níveis muito mais altos de alumínio são necessários para causar danos.

Eles dizem que o Sistema de Relato de Eventos Adversos das Vacinas (e/ou "tribunal das vacinas") prova que elas são prejudiciais.

Não prova.

Eles dizem que o calendário normal de vacinas é duro demais para o sistema imunológico de uma criança enfrentar.

Não é.

Eles dizem que se os filhos de outras pessoas forem vacinados não há necessidade de que os seus próprios sejam.

Este é um dos argumentos mais desprezíveis que já ouvi. Em primeiro lugar, as vacinas nem sempre são 100% eficazes, por isso é possível que uma criança vacinada ainda seja infectada se for exposta a uma doença. Pior, certas pessoas não podem receber vacinação porque são imunodeficientes ou porque são alérgicas a algum componente da mesma. Essas pessoas dependem da imunidade coletiva para sua proteção. As pessoas que decidem não vacinar seus filhos contra doenças infecciosas estão pondo em risco não apenas seus próprios filhos, mas também os de outras pessoas.

Eles dizem que remédios "naturais" e "alternativos" são melhores que os científicos.

Não são.

A verdade é que as vacinas são uma de nossas maiores conquistas em saúde pública e uma das coisas mais importantes que você pode fazer para proteger seu filho.

Eu posso prever exatamente qual será a reação dos ativistas antivacinas. Como eles não podem argumentar com eficácia contra as avassaladoras evidências científicas sobre as vacinas, dirão que eu trabalho para os grandes laboratórios. (Não trabalho e nunca trabalhei.) Eles dirão que não sou cientista (eu sou) e que sou um "Agente 666" (não sei o que é isso, mas tenho certeza de que não sou).

Nenhuma dessas coisas é verdadeira, mas são as respostas reflexivas dos ativistas antivacinas porque eles não têm fatos para sustentar suas opiniões. Em certo nível profundo, eles devem compreender isso e temer as implicações, portanto atacam o mensageiro.

Por que eles estão mentindo para você? Alguns o fazem por lucro: tentam vender seus medicamentos alternativos causando o temor dos remédios científicos. Tenho certeza de que muitos outros no movimento antivacinas realmente têm boas intenções e honestamente acreditam que as vacinas são prejudiciais. Mas, como disse há pouco tempo um certo astrofísico, "o bom da ciência é que ela é verdadeira, quer você acredite quer não". No caso dos inimigos da vacina, isso não é bom. As boas intenções não evitarão que os micróbios infectem e prejudiquem as pessoas, e a mensagem de que as vacinas são perigosas está tendo consequências terríveis. Hoje existem surtos de doenças que poderiam ser evitadas com vacinas em todos os Estados Unidos, por causa de crianças que não foram vacinadas.

Em certo sentido, minha mensagem é igual à dos ativistas antivacina: eduque-se. Mas enquanto eles querem dizer "leiam todos esses sites que sustentam nossa opinião", eu sugiro que você aprenda o que diz a comunidade científica. Aprenda como funciona o sistema imunológico. Leia sobre a história das doenças antes do advento das vacinas e converse com pessoas mais velhas que cresceram quando a pólio, o sarampo e outras doenças não podiam ser evitadas. Leia sobre como as vacinas são desenvolvidas e como elas funcionam. Leia sobre Andrew Wakefield, e como seu trabalho que alegou uma relação entre a vacina contra sarampo e o autismo foi retirado e sua licença médica, revogada. Leia os numerosos e extensos estudos que examinaram explicitamente se o autismo é causado pela vacina... e nada encontraram. (Aproveite para ler sobre a atual pesquisa para determinar qual é a causa -- ou as causas -- do autismo, que não é ajudado pelas pessoas que continuam insistindo que é causado por vacinas.)

Pode parecer muito trabalho, e os estudos científicos às vezes são intimidatórios. Mas ler artigos científicos é uma técnica que pode ser aprendida. Aqui está um excelente recurso (em inglês) para avaliar informações médicas na internet, e eu escrevi um guia para não cientistas (também em inglês) sobre como ler e compreender literatura científica. Você deve - a seus filhos e a si mesmo - investigar totalmente a questão. Não confie no que algum estranho na internet diz (nem mesmo em mim!). Leia estudos científicos e fale com seu pediatra. Apesar do que a comunidade antivacinas está lhe dizendo, você não precisa ter medo das vacinas. Você deve ter medo do que acontece sem elas.

Os seres humanos tentam dar sentido ao mundo encontrando padrões. Quando eles veem uma doença ou condição que tende a aparecer mais ou menos na época em que uma criança tem cerca de 1 ano, como o autismo, e essa também a idade em que as crianças recebem certas vacinas, eles querem juntar as duas coisas. Os pais observam os filhos com mais cuidado depois que estes são vacinados. Às vezes, percebem os sintomas nesse momento. Só porque duas coisas acontecem ao mesmo tempo não significa que uma causou a outra. É por isso que precisamos de estudos científicos cuidadosos.

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