OPINIÃO
09/03/2016 18:57 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Willem Dafoe é o melhor de 'Meu Amigo Hindu'

Dono de uma aparência física distintiva, Dafoe sempre intimida: não importa se vampiro ou espião canadense. No novo filme de Hector Babenco, 'Meu Amigo Hindu', ele interpreta o seu alter-ego: Diego Fairman. E não decepciona. Na verdade, arrisco dizer que ele é a melhor coisa nas duas horas de projeção.

Gosto de Willem Dafoe desde que o vi pela primeira vez no cinema, em 'A Sombra do Vampiro', que rendeu várias indicações ao ator e despertou em mim uma enorme fascinação por F. W. Murnau.

Dono de uma aparência física distintiva, Dafoe sempre intimida: não importa se vampiro ou espião canadense. No novo filme de Hector Babenco, 'Meu Amigo Hindu', ele interpreta o seu alter-ego: Diego Fairman. E não decepciona. Na verdade, arrisco dizer que ele é a melhor coisa nas duas horas de projeção.

Diego é um famoso diretor de cinema que luta contra o câncer (no sistema linfático) ao lado de sua bela esposa Lívia, interpretada por Maria Fernanda Cândido. O filme explora a jornada que ele percorre do tratamento à cura.

Logo no começo, assistimos a uma tragicomédia involuntária: com a participação de Dafoe no projeto, o idioma do longa passou a ser o inglês, e o desconforto dos atores brasileiros, muitos deles bastante experientes, traduz-se em desconforto da plateia.

A cena do casamento, pontuada por diálogos intensos ou espontâneos demais para uma interpretação em língua estrangeira, poderia ter sido reduzida, pois o resultado compromete desde já a experiência e a boa vontade do espectador.

Alternando momentos como esse com cenas de Diego em seu processo criativo (que transmitem com facilidade a urgência do artista) e instantes de pura arte, o filme é bastante irregular. E Dafoe, quase onipresente (e irresistível para todas as personagens do sexo feminino). Então é preciso gostar dele para apreciar o longa.

Quem curte cinema vai gostar (Atenção: spoilers!) da homenagem a 'O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman, quando Diego joga xadrez com a Morte, personificada como homem médio corporativista por Selton Mello. Ou sorrir quando, sentado na cama de hospital, ele canta (para desespero das enfermeiras) 'Cheek to Cheek', imortalizada por Fred Astaire e Ginger Rogers em 'Top Hat'. A cena final, em que Barbara Paz dança nua na chuva em referência a 'Cantando na Chuva' também é linda.

O 'amigo hindu' do título é apenas um capítulo, mas o mais bonito. Na clínica dos Estados Unidos, Diego conhece um menino hindu que também está passando por um tratamento. Eles logo ficam amigos, e o elo de ligação é, justamente, a contação de histórias.

Além de servir como incentivo adicional para o diretor de cinema voltar a criar (e trabalhar), fica evidente o uso da narrativa como cura. Explorada em diversas vertentes da psicanálise e da literatura, aqui ela aparece em de forma delicada. Os dois personagens não trocam uma única palavra, mas transformam a inóspita sala de hospital em cenário para diversas aventuras e (por que não?) filmes de ação.

É mesmo uma pena que o diretor não tenha explorado mais essa linha.

LEIA MAIS:

- Feminista e revolucionário, 'Mad Max' merece o Oscar de Melhor Diretor

- A novas bonecas Barbie são uma homenagem às meninas do futuro

Também no HuffPost Brasil:

Galeria de Fotos 11 filmes indispensáveis sobre Jornalismo Veja Fotos