OPINIÃO
19/05/2018 21:32 -03 | Atualizado 19/05/2018 21:33 -03

'Whitney', do diretor Kevin MacDonald, revela abuso sofrido por Whitney Houston na infância

Documentário foi apresentado no Festival de Cannes nesta semana.

Whitney/Divulgação 2018
Imagem de Whitney Houston jovem

A história de Whitney Houston se confunde um pouco com a da América, ou assim pensa o diretor David Macdonald. A abertura do seu documentário Whitney, que estreou na sessão de meia-noite nesta quarta-feira (16) no Festival de Cannes fora de competição, é uma miscelânea de de grandes hits da cantora, como How Will I Know, com a América de Coca-Cola, McDonald's e violência contra os negros. Depois, um trecho curto — mas fundamental — de uma entrevista na qual ela diz, apesar de muito tentar, o diabo ainda não tinha conseguido pegá-la.

Começamos do começo. Logo nos primeiros minutos, a edição que MacDonald fez das entrevistas, feitas com a família e os amigos mais próximos, sugere que algo teria acontecido em seus primeiros anos de vida. Cissy Houston era cantora gospel e viajava muito com o marido, deixando os 3 filhos sozinhos com parentes. Mas nesse primeiro momento a família insiste: Whitney teve uma infância maravilhosa.

Depois acompanhamos os seus primeiros anos como cantora, apresentando-se com a mãe em boates enquanto seguia a carreira de modelo e os estudos, até a assinatura do contrato com a Arista de Clive Davis. Cissy está muito presente em todos os momentos, como um bastião de disciplina e perseverança, às vezes pouco compreendido pela artista.

Aliás, esse é um dos pontos altos do filme: fale sobre a relação mãe e filha, a sexualidade de Whitney ou a sua dependência de drogas, Macdonald sempre acrescenta uma terceira dimensão, abraçando as ambiguidades da história. Parece que a única coisa realmente inquestionável é o talento da cantora. A dado momento, o ator Kevin Costner, que contracenou com ela no sucesso O Guarda-Costas, diz: "era a menina mais bonita que sabia cantar". Por tudo isso, o filme é tanto uma homenagem aos fãs que, como eu, cresceram escutando as suas músicas, como um novo olhar sobre a história.

Chegamos então às drogas e sua sexualidade. Muito é dito sobre a amizade com Robyn Crawford, que participou ativamente de sua carreira, sugerindo uma possível conexão homoafetiva — Robyn é lésbica. O casamento com Bobby Brown é também um eixo (o cantor é inclusive um dos principais entrevistados). Mas embora explore o seu potencial destrutivo sobre a vida e carreira, a história é mostrada de forma aberta, sem tirar conclusões.

O tema drogas volta à tona após o relato dos problemas com o pai — a família inteira parecia viver do dinheiro de Whitney e quando ela fecha o principal contrato de sua carreira, o pai tenta processá-la. Whitney não se despede do pai antes da morte e nem comparece ao velório, e o possível sofrimento guardado com isso a teria afundado definitivamente nas drogas.

Se o irmão Michael Houston é o primeiro a falar sobre o vício — foi ele quem a iniciou na adolescência —, o meio-irmão Gary Garland dá o xeque-mete: Whitney e ele teriam sido abusados na infância pela prima Dee Dee Warwick. Mary Jones, sua assistente pessoal nos últimos anos de vida, confirma a história.

O diretor afirma que a suspeita começou na pesquisa para o filme, assistindo a entrevistas antigas, mas a confirmação só se deu no fim das gravações. Ele entrevistou cada um dos irmãos pelo menos 3 vezes e acabou ganhando a sua confiança. Houve muita discussão com a equipe sobre como usar o material, e alguns jornalistas dizem que é uma história de detetive. E este é realmente o clímax buscado pelo público.

Mas o filme não é só isso.

Mary Jones disse que o trauma fez que Whitney questionasse a sua sexualidade e desejasse uma vida normal, por isso talvez tenha insistido tanto no casamento com Bobby Brown, por exemplo. Mas quem dá a palavra final é a própria Whitney: em entrevista, depois de aparecer bem magra em show para Michael Jackson, Diane Sawyer lhe pergunta qual era o pior diabo — referindo-se aos tipos de droga. Whitney responde: o pior diabo sou eu.

Parece que ele a pegou, afinal.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.