OPINIÃO
01/04/2018 12:51 -03 | Atualizado 01/04/2018 12:51 -03

'Trama Fantasma' fala sobre o que guardamos entre costuras

A temporada do Oscar já passou, mas ainda é possível ver alguns dos filmes indicados.

Divulgação/Trama Fantasma 2018

A temporada do Oscar já passou, mas ainda é possível ver alguns dos filmes indicados.

Imperdível, Trama Fantasma ganhou apenas em uma categoria, Melhor Figurino, mas concorreu em 7 outras, algumas delas entre as principais, como Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Atriz Coadjuvante.

Era também o mais estranho em um ano de filmes estranhos. Tinha fábula com ares de filme B (A Forma da Água), filme sem arco narrativo principal (Dunkirk), uma história do grande jornalismo (The Post) e do maior estadista inglês (Destino de Uma Nação), conto de amor e descoberta masculina (Me Chame pelo Seu Nome) e feminina (Lady Bird), filme de terror cômico (Get Out).

Trama e thread (do original) remetem a tecido. O protagonista do filme de Paul Thomas Anderson, Reynolds Woodcock, é um estilista que cai nas graças de condessas, princesas e estrelas de Hollywood. Mas o tecido fantasma pode ser tanto a história de amor entre Woodcock e a garçonete Alma Elson, personagem de Vicky Krieps, como o que ele guarda entre costuras. "Você pode costurar qualquer coisa na barra de uma roupa", ele diz a Alma em um dos primeiros encontros, "eu, por exemplo, levo uma mecha de cabelo da minha mãe sempre no bolso interno do casaco".

Reynolds vive em um casarão com a irmã Cyril (que ganhou um fã clube na Internet), a namorada de ocasião e uma equipe grande de criados e costureiros. É cheio de manias: nada de conversas difíceis ou comidas indigestas no café-da-manhã, dorme num quarto separado da amante e trabalha a qualquer hora do dia e da noite. As namoradas ficam por determinado período, depois são convidadas a se retirar por Cyril, levando um ou dois vestidos da Casa Woodcock.

Quem muda a rotina é Alma. De silhueta perfeita, ela torna-se sua modelo - e amante. A paixão entre os dois nunca é explorada de frente, o que às vezes nos deixa na dúvida, mas algumas cenas, ainda bem, mostram através do tecido.

Todo ano a Academia escolhe um filme estranho para a premiação principal. Ano passado, foi A Chegada. Em 2016, Mad Max. Em 2015, O Grande Hotel Budapeste. À primeira vista, pode parecer que o odd man out de 2018 é A Forma da Água, mas não. Observado de perto, A Forma segue as regras não ditas dos filmes de sucesso. Já Trama tem um ritmo (e tempo) únicos.

Difícil defini-lo em uma só frase. De época, costurado em tensão silenciosa, é o filme de aposentadoria de Daniel Day-Lewis. Quem cresceu vendo-o em Época da Inocência ou A Insustentável Leveza do Ser, percebe logo a diferença. Daniel Day-Lewis está ficando velho. Aos 60, parece uma versão envelhecida de Archer (embora mais jovem do que o Archer envelhecido por maquiagem no filme Época da Inocência). História de amor psicológico, mostra o Daniel que legiões de cinéfilos aprenderam a admirar e que até hoje faz muitos dizerem que é o melhor ator de sua geração.

A sala de cinema estava vazia quando fui ver, mas ainda é possível assistir ao filme em várias salas de São Paulo.

Acesse a lista de premiados aqui.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.