OPINIÃO
28/03/2016 17:40 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Pierre Lemaître, o homem que amava as mulheres

Talvez você ainda não tenha ouvido falar dele. Só encontrei dois livros editados aqui, Vestido de Noivo e Recursos Desumanos, ambos pela Vestigio, e mesmo as versões em outras línguas são feitas a um passo frustrante.

Pierre Lemaître é um escritor francês de 64 anos aclamado por seus romances noir, gênero de ficção que geralmente fica de fora do hall exclusivo da alta literatura.

Ele ganhou o mais prestigiado prêmio literário da França, o Goncourt, em 2013, e desde então parece não sair das listas de melhores thrillers de revistas e jornais mundo afora.

Talvez você ainda não tenha ouvido falar dele. Só encontrei dois livros editados aqui, Vestido de Noivo e Recursos Desumanos, ambos pela Vestigio, e mesmo as versões em outras línguas são feitas a um passo frustrante.

Mas se você lê em inglês ou espanhol, ou ainda em francês, vale a pena dar uma chance ao autor.

Pois Lemaître, ou 'o mestre', faz jus a seu sobrenome.

Seus livros fogem do clássico whodunnit que consagrou Agatha Christie, e combinam o thriller psicológico em ascensão desde Garota Exemplar com cenas dignas de filme.

As vítimas são sempre mulheres, e as obras permitem uma nova análise sobre a violência contra nós no mundo moderno.

Mas é preciso estômago.

Alguns pontos antes de começar a ler.

A tetralogia (ou trilogia) do Comandante Verhoeven

Importante dizer que são quatro livros com o Comandante Verhoeven, mas considera-se três para a trilogia: Irene (Travail Soigné), Alex e Camille (Sacrifices). O terceiro volume, Rosy & John, ficou de fora. Vamos torcer para todas as obras ganharem tradução brasileira em breve.

O Comandante Camille Verhoeven

Brilhante, introspectivo e de baixa estatura (1 metro e 45), Camille nada tem de Sherlock ou Poirot, ficando mais próximo de Maigret, do prolífico (com mais de 300 obras no currículo) Georges Simenon.

Ao contrário dos colegas famosos, Camille não rouba o show, servindo mais de pano de fundo para o desenrolar da ação. Vemos os crimes como espectadores diretos e indiretos, pelo olhar do comandante.

As noites brancas de Alex

Queria um novo policial para a minha avó, leitora voraz que supera minha média de 1 livro por semana e adora obras assim. Mandei Alex.

Dias depois de começar a ler, disse-me que não estava dormindo direito. Só fui entender após três noites insones.

Em linhas gerais, a história é sobre o desaparecimento de uma mulher de trinta anos extremamente bonita que acreditamos conhecer nas primeiras páginas.

Dizer mais do que isso é dizer demais, mas vale um conselho: não recomendo a leitura a ninguém que tenha um pavor além do normal a ratos.

Você acordará no meio da noite achando que há ratos debaixo da cama ou que eles são autores de um insistente ruído branco. Não importa onde estiver.

As mulheres de Lemaître

Ao ler Irene, a minha avó me disse: é realmente assustadora a violência sofrida pelas mulheres ao longo dos anos.

As protagonistas de Lemaître são ora vítimas ora algozes, mas o olhar sobre a mulher é sempre complexo. E generoso.

Depois de Garota Exemplar, A Garota no Trem, e tantos outros thrillers com uma personagem feminina multidimensional no centro, eis que encontramos o gentleman do noir francês, que nem por isso é menos fiel ao gênero.

Não há economia de sangue, vítimas (seus assassinos são serial killers) ou detalhes gráficos em suas cinematográficas cenas de crime.

E ainda assim vale cada noite sem dormir.

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