OPINIÃO
12/12/2014 20:01 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Pelos muros de Antibes

Quis conhecer Antibes por culpa de Maugham. Li o escritor inglês bem jovem e assim colecionei um ou outro destino-desejo, dizendo a mim mesma que queria ter a vida de um escritor expatriado.

Quis conhecer Antibes por culpa de Maugham. Li o escritor inglês bem jovem e assim colecionei um ou outro destino-desejo, dizendo a mim mesma que queria ter a vida de um escritor expatriado. Primeiro foi Positano, deslumbrante e atemporal em pleno verão italiano.

A cidadezinha da Riviera Francesa e do conto Três Gordas de Antibes veio depois. Morava em Montpellier e Antibes ficava a poucas horas de trem. Passeei rapidamente pelo Marché Provençal, comemos uma massa num restaurante italiano qualquer e um Pata Negra bem ruim num café. O Museu Picasso estava fechado, mal percorri as ruínas, quase não deu quase para sentir o gosto e o calor da cidade. Mas vi de longe a Antibes que achava conhecer da literatura: um restaurante no meio das ruínas, mesas de balcão, vista pro mar. Clientes e garçons elegantes. Só não sabia o nome.

Em julho último, mais de três anos depois desse dia, fui para lá de novo. Dá para dizer que as duas viagens estão conectadas por este lugar anacrônico: Les Vieux Murs. Taxista nem concierge pareciam lembrar dele - mas recomendaram muito bem Le Michelangelo, favorito de Angelina Jolie e Brad Pitt e Le Figuier de Saint Esprit. Foi só quando mencionei um restaurante antigo no meio das ruínas que o rapaz do Royal Antibes - hotel com plage privée antes de Juan-les-Pins - falou no único na cidade com duas estrelas Michelin. Reservou uma mesa alta para a gente, de onde dava para ver o mar em sua plenitude de Riviera. E o rosé da vinícula Jolie-Pitt (o "Pink Floyd") deu o tom do jantar: que começou com mini canapés absolutamente impecáveis (fora do Menu), foie gras (Terrine de Foie Gras Faite Maison et ses Toasts), um cordeirinho (Selle d'Agneau, Petits Farcis Confits, Jus au Thym) e para terminar uma torta de chocolate que pegava fogo (Palet au Chocolat Noir). Foi o melhor serviço e o melhor jantar da minha vida inteira (33 anos basicamente).

Em Antibes convivem os turistas mais interessantes. Novos ricos do mundo todo, os jovens mais jovens e os velhos mais velhos da Europa. Se você anda um pouquinho e vai até Juan-les-Pins, a concentração maior é de jovens. É também onde está o agito, que não conheci. Na cidade velha, acabamos perdendo o Marché Provençal, que é um dos pontos altos de qualquer visita no verão, mas tivemos tempo de tomar o aperitivo no Absinthe Bar. Tínhamos lido sobre o lugar na Internet, numa resenha sensacional do The Independent, e ficamos com vontade de ir. Despretensioso, parece uma lojinha no andar de cima: vende umas garrafinhas de absinto e alguns souvenirs de viagem. Tem um pôster do famoso autorretrato de Van Gogh e uma placa da fée verte (fada verde) que diz "Absinthe Bar" e ainda assim achei que estivéssemos no lugar errado. Quando finalmente perguntamos, o dono nos levou ao subterrâneo e literalmente abriu as portas para nós. Serviu-nos duas doses, uma tradicional, a outra melhor (Tomás não me deixou trazer a carta, e o absinto era tão bom que já não lembro de nome algum), e nos deixou sozinhos. Com o piano, a solidão e a meia luz de um dos bares mais interessantes que conheci. Se não estivéssemos morrendo de fome depois de um dia à beira-mar, teríamos ficado ali a noite inteira, totalmente bêbados.

Lá o terceiro setor oscila entre a arrogância - dos garçons e garçonetes do Royal Antibes - e a autenticidade francesas - da dona do Bistro 44, que nos serviu o melhor e mais barato rosé da viagem. É uma das únicas cidades no país onde insistem em falar com você em inglês, mas ainda assim é sempre bom falar a língua deles. Gostei do pequeno comércio: em uma loja de departamento mais chique comprei uma blusa para usar no jantar. Sou alucinada pelos supermercados franceses e no longo caminho a pé para Juan-les-Pins, senti como se tivesse voltado a morar na França. Nos fins de semana, ia muito para as pequenas cidades praianas do Languedoc, quase sempre com um pacote de Petit Écolier.

Nas praias privadas de Juan-les-Pins, você pode se sentir no meio do Mediterrâneo se escolher um lugar no deck. Mas estão sempre lotadas e, como o nome diz, são pagas. Os melhores "matelas" (cadeiras de praia) são reservados com antecedência, que em julho pode chegar a semanas. Ainda assim, a rotatividade é alta: todos os turistas devidamente munidos de seu Kindle ou livros de papel, fazendo topless na maior tranquilidade. Como em Positano, sempre tem uma massagista rondando a área, e o serviço é bom.

Deixamos o Museu Picasso para o último dia. Sempre deixamos algo importante - como a Torre Eiffel e o Champs-Elysées em Paris - para as últimas horas. Conhecia o museu de Barcelona, mas ali foi diferente. Primeiro, chegar até o museu significa percorrer as ruínas de Antibes. Passar, novamente, pelos Vieux Murs, e atravessar mini labirintos. A quantidade de turistas japoneses com câmeras fotográficas também aumenta. E o sol absurdo do meio dia incide ora sobre uma escultura, ora sobre uma pintura de ninguém menos que Picasso. Trouxe um único souvenir de toda Antibes. O livro Picasso de seu modelo e amigo Sabartés. Foi a mesma obra que comprei no museu de Barcelona, e a única que, tendo comprado duas vezes, ainda não li nenhuma.

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