OPINIÃO
10/06/2014 13:17 -03 | Atualizado 12/08/2018 15:30 -03

Malévola e o beijo de amor verdadeiro

Contos de fada - que nem sempre são de fada - estimularam a minha criatividade mais do que qualquer outra coisa e ajudaram a formar, muitas vezes a duras penas, minha consciência de mundo. Sou grata a cada instante que vivi nesse universo.

Reprodução
O beijo do príncipe encantado sempre é tratado nos contos de fada.

Cresci com os contos de Hans Christian Andersen, dos irmãos Grimm, de Esopo. Reli As Histórias de Fadas de Oscar Wilde não sei quantas vezes, e, assim que comecei a escolher os meus próprios livros, comprei a obra em versão original. Contos de fada - que nem sempre são de fada - estimularam a minha criatividade mais do que qualquer outra coisa e ajudaram a formar, muitas vezes a duras penas, minha consciência de mundo. Sou grata a cada instante que vivi nesse universo, dos enredos inocentes e ilustrados da infância e das análises psicossexuais das aulas de literatura da adolescência, à descoberta de um mundo quase infinito de adaptações que apenas comecei a explorar.

Os desenhos da Disney ficaram com um pedaço importante de todo esse processo. Vi até arranhar as fitas cassete de Bela Adormecida, Cinderela, Rei Leão, Pequena Sereia, Bela e a Fera, e sempre vibrava do mesmo jeito com o final feliz. Acompanhei todos os novos filmes de Branca de Neve, talvez o conto de fada por excelência, e fui ver Malévola logo no dia de estreia. Sabia que ia encontrar algo diferente: o trailer mostrava uma vilã ambígua e a história era contada do ponto de vista da bruxa má, o que já tinha sido o maior sucesso em Wicked. Mas as diferenças não paravam por aí. Alguns meses antes, Frozen, vencedor do Oscar de animação do ano passado, tinha mexido com o símbolo máximo do mundo Disney: o beijo de amor verdadeiro.

Já no comecinho de Malévola, vi que o beijo final não seria do príncipe. Quando ele apareceu, montado em seu típico cavalo branco, pensei: "meu Deus, o que está fazendo ali?". Mas também não cheguei a adivinhar o fim. Achei que quem despertaria a pequena Aurora de seu sono profundo seria o corvo, para provar mais uma vez (como no delicioso Encantada) que algumas de nós nem queremos ficar com o príncipe. Mas foi Malévola, a mãe substituta, a madrasta que essas mesmas histórias nos ensinam a temer.

O beijo nem faz parte de todos os contos de fada, pelo menos não da versão original. Quem não ganhou o toque pelo estúdio, ganhou antes, em versões mais populares. O beijo que transforma o sapo em príncipe, por exemplo, nunca foi um beijo. E a Branca de Neve acorda mesmo é com o sacolejo do cavalo, que faz voar longe o pedaço de maçã que tinha ficado entalado em sua garganta. Na Bela Adormecida, dos irmãos Grimm, Aurora desperta não por causa do beijo, mas porque já tinham se passado os 100 anos de encantamento e ela já estava pronta para encarar a vida adulta. Pois é isso, na verdade, que essas histórias têm em comum. Elas nos mostram que é possível enfrentar as dificuldades mais monstruosas e conquistar o mundo. E o beijo é o melhor símbolo para esse rito de passagem.

O que gosto tanto em Malévola é do que fala sobre família. Sempre achei muito abrupta a distância, em tempo e espaço, entre a saída da casa dos pais e a construção de um novo lar. Em nossa sociedade moderna, dá até para interpretar de um jeito totalmente diferente: tudo vai se resolver quando a gente sair de casa. Talvez isso fizesse mais sentido no início do século XIX e aqueles pais tão perversos servissem muito bem aos usos de encantamento daquela época. Mas, hoje, redefinir o que é família e o que ela pode fazer por cada um de nós, seja de nascença ou escolhida, é a base de uma sociedade saudável e duradoura.

A Disney já tinha feito isso antes mesmo de Frozen, em Rei Leão e Pequena Sereia, e eram os desenhos preferidos da minha infância. Não queria saber de príncipes em cavalos brancos ou de morar em terras longínquas. Queria entender até que ponto dava para perdoar e ser perdoado no espaço mais íntimo que ocupamos no mundo, a família, mesmo que para isso tivéssemos que percorrer universos. E que essa mensagem esteja mais clara, não importa se em filmes que poderiam ser muito melhores, já me deixa feliz. Agora que já sabemos que dragões existem e podem ser derrotados, pode ser que eles nos ensinem o significado do amor verdadeiro.

MAIS CONTOS DE FADAS NO BRASIL POST:

Galeria de Fotos Personagens Disney como jovens adultos Veja Fotos