OPINIÃO
31/07/2018 11:34 -03 | Atualizado 31/07/2018 11:47 -03

Leïla Slimani: 'Toda mulher pode ser mamãe e vagabunda ao mesmo tempo'

Destaque na Flip 2018, escritora franco-marroquina fala sobre sua obra e os tabus em torno da sexualidade feminina.

LIONEL BONAVENTURE via Getty Images
Primeiro romance de Leïla Slimani, 'Jardim do Ogro', será lançado no Brasil no ano que vem.

Leïla Slimani não queria ir embora de Paraty. Na tradicional última mesa da Flip, a escritora franco-marroquina disse sentir saudade dos filhos, mas que poderia ficar mais alguns dias na cidade. Nesta segunda (30), ela esteve no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, para participar de evento promovido pela Editora Planeta.

Perguntei para as pessoas qual tinha sido a grande surpresa dessa edição da Festa Literária, muita gente respondeu: Leïla. Seu único livro lançado no Brasil, Canção de Ninar, vencedor do Prêmio Goncourt 2016, figurou na lista dos mais vendidos da Flip 2018, de acordo com a Travessa - livraria oficial do evento.

De todos os escritores, era a que mais queria conhecer, principalmente por seu primeiro romance, Jardim do Ogro, previsto para sair no Brasil no ano que vem. A protagonista, Adèle, é uma mulher viciada em sexo que vive uma vida dupla: de um lado, mãe e esposa de um médico bem-sucedido e convencional; de outro, mulher extremamente atraente de 35 anos que coleciona conquistas e noites em bares com homens de todos os tipos.

Divulgação

Mas Slimani não quer que tenhamos uma visão simplista de sua obra. "Não dá para dividir as mulheres entre vagabundas e mamães. Também não acho que é papel do escritor atuar como médico, dar um diagnóstico", contou Slimani em entrevista exclusiva ao HuffPost Brasil.

Durante a mesa que dividiu com André Aciman na última sexta (27), Interdito, ela disse que a sexualidade da mulher era profundamente complexa, e nós também poderíamos ter desejos e fantasias atribuídos normalmente aos homens.

Se Slimani acredita que "uma parte de nós permanece inacessível aos outros", em seus dois romances nos oferece uma experiência rara na literatura: revela seus personagens na intimidade e permite que nos identifiquemos com eles.

Leia a entrevista com Leïla Sliman:

HuffPost Brasil: Você poderia falar um pouco da sexualidade ou da doença da personagem Adèle, em No Jardim do Ogro?

Leïla Slimani: Na verdade, não sei se ela tem uma doença. Para seu marido, é como se tivesse. Ele é médico, então para ele é simples dizer: você tem uma doença e eu vou te curar. Talvez ela seja apenas uma mulher que se casou, teve um filho e olha para a sua vida banal, perguntando-se: é só isso mesmo? Ela volta para casa todos os dias, janta em família e não sente nada. Quer sentir algo, ser preenchida, procura alguma coisa, mas não sabe o quê. Em vez de buscar no álcool ou na droga, como algumas pessoas, ela busca no sexo.

Você encontrou mulheres que disseram se identificar com Adèle?

Sim, muitas. Algumas nunca tinham ousado falar sobre isso. Me disseram: eu a compreendo, também vivi dessa maneira extrema. Homens também. Uma vez um homem me disse: "Conheci uma mulher assim, na época eu a julguei. Pensei que era uma puta, uma mulher de mau caráter. Depois de ler o livro, tenho vontade de revê-la, tomá-la nos braços e dizer que eu entendo que talvez ela sofresse. Não era uma mulher fácil, era alguém que sofria".

Ontem à tarde, na coletiva, você disse que era importante falar das coisas íntimas para torná-las universais. Em seus livros, é como se abríssemos uma porta, descobrindo seus personagens em momentos bem íntimos. Queria que você falasse sobre isso.

Ah, obrigada. É verdade: quanto mais falamos das coisas íntimas, mais compartilhamos com os outros. Às vezes, achamos que é necessário falar dos grandes temas para que as pessoas se conheçam. Na verdade, é importante falar das coisas do dia a dia, dos sentimentos, da sexualidade, do amor. É quando falamos dessas coisas que nos reconhecemos no outro, em qualquer lugar.

E sobre a sexualidade feminina. Ontem você disse que era muito complexa...

Acho que pensamos na sexualidade feminina de forma muito clichê. Temos as mamães e temos as vagabundas. As mamães têm um marido, uma vida organizada, são gentis. As vagabundas vão dormir com todo mundo. Todas as mulheres são um pouco mamães e um pouco vagabundas, e muitas outras coisas. Acho isso interessante também: tentar mostrar que a sexualidade feminina não vai necessariamente buscar o amor, a ternura. As mulheres também podem ter um lado obscuro. As mulheres também podem querer ser objetos. A liberdade das mulheres é também a liberdade de escolher ser um objeto.

O que você achou sobre a forma como se fala de sexo no Brasil? Parecemos muito modernos e sexuados, mas tenho a impressão de que na França, é mais aberto...

É verdade. Encontrei bastante pudor ao falar no assunto aqui. Parece que falamos de forma menos direta. Com os leitores, na França, é mais aberto. No Brasil, me senti menos confortável para falar de forma mais vívida da sexualidade. Acho que há muito pudor, mas também não conheço o país o suficiente para chegar a uma conclusão.

Seus dois romances têm alguns aspectos em comum...

Sim, eu diria que a solidão é o principal deles. São personagens solitárias, que têm dificuldade em pertencer, a uma família, a um grupo, a uma comunidade. Ao mesmo tempo, são mulheres que precisam de bastante segurança - Adèle tem a sua família; Louise, a família das crianças de quem cuida. Mas também têm muito medo, não conseguem ser totalmente livres. São indivíduos presos numa solidão profunda.

Talvez, nós todos vivamos na solidão...

Sim, acho que todos nós vivemos na solidão. Sempre há uma parte de nós, muita íntima, que não conseguimos compartilhar. As grandes dores, mesmo se temos alguém com quem compartilhá-las, acabamos vivendo na solidão.

Você acha que com a literatura podemos contar essas coisas íntimas?

A literatura é um dos espaços onde podemos deixar de julgar os outros. Quando escrevo sobre meus personagens, posso contar coisas sobre eles que eles mesmos nunca poderiam dizer na vida real. A literatura é um espaço para essa intimidade, para esses segredos. Ao mesmo tempo, quando escrevemos, nos damos conta de que sempre há alguma coisa que não conseguimos dizer. A linguagem, apesar de tudo, não está à altura dos sentimentos. É por isso que é tão duro ser escritor: tentamos, tentamos, mas finalmente nunca chegamos aonde queríamos.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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