OPINIÃO
06/05/2018 16:22 -03 | Atualizado 06/05/2018 16:31 -03

Festival de Cannes: O que você precisa saber antes de ver o novo filme do Godard

Aos 87 anos, autor já concorreu a sete Palmas de Ouro, mas não venceu nenhuma.

Godardvai para o Festival de Cannes. Toda vez que comento isso com alguém, a pergunta é sempre a mesma: Mas ela ainda está fazendo filmes?

Godard e a Nouvelle Vague me fazem pensar nas sessões de cinema no meio da tarde, há pelo menos 15 anos. Conheci quase todos os seus filmes - e de Truffaut - em salas vazias de longas remasterizados, e acho que os meus 20 anos teriam sido completamente diferentes sem Jean-Paul Belmondo e Anna Karina.

Aliás, os dois ilustram o poster oficial da 71ª edição, em cena de um dos filmes mais famosos de Godard: O Demônio das Onze Horas (Pierrot de Fou no original).

Mas Godard é muito mais do que isso.

Festival de Cannes/2018
Anna Karina e Jean Paul-Belmondo em O Demônio das Onze Horas

Godard nunca ganhou a Palma de Ouro

Aos 87 anos - 88 em dezembro - Godard concorreu a sete Palmas de Ouro, mas não ganhou nenhuma. Em 2014, seu filme Adieu au Langage, ganhou o Grande Prêmio do Júri, o mais importante depois da Palma.

Neste ano, concorre com Livre d'Image - Livro da Imagem em tradução livre. A gente sabe muito pouco sobre a obra, além da sinopse estranha: nada além do silêncio, de um canto revolucionário, uma história em cinco capítulos, como os cinco dedos da mão.

O filme, que será exibido no dia 11 de maio no Grand Théâtre Lumière, é uma reflexão sobre o mundo árabe em 2017 através de imagens documentais e de ficção.

... mas no último ano foi protagonista de O Formidável

Na edição de 2017, um dos filmes na competição pela Palma foi O Formidável, longa de Michel Hazanavicius - diretor de O Artista - baseado no livro Um Ano Depois, da ex-mulher de Godard, Anne Wiazemsky.

Com Louis Garrel na pele de Godard, o filme retrata a época em que ela era sua musa e protagonista do filme A Chinesa, às vésperas do maio de 68.

Em 68, ele cancelou o Festival de Cinema...

2018 marca o aniversário de 50 anos do movimento de maio de 68, quando Godard, Truffaut e companhia pararam o Festival depois de apenas 8 filmes exibidos. A história é contada de forma deliciosa pelo jornalista parisiense Éric Neuhoff no livro Ces Années-Là, publicado no ano passado para comemorar os 70 anos do evento.

Só um trechinho: Roman Polanski, desolado, diz que o que estava acontecendo lembra certos dias na Polônia stalinista. Godard responde: "O stalinismo varia de acordo com o país".

... e, ao longo de sua carreira, Godard quebrou todas as regras

Um dos principais nomes da Nouvelle Vague - que resume o cinema francês dos anos 60 - Godard usou técnicas bem inovadoras de edição. Para citar alguns exemplos, em Acossado, temos faux raccords, que podem ser traduzidos por erro de continuísmo (Godard achava que continuísta era uma profissão idiota), e o uso de jazz pouco convencional no momento da edição.

Em entrevista à Folha, Hazanavicius disse que até os YouTubers imitam Godard. O jump cut, por exemplo, que recorta um mesmo plano, sugerindo um salto no tempo, seria uma herança godardiana. O jornal inglês The Guardian o chama de o "Picasso" e "Che Guevara" do cinema.

Já os temas são universais: a morte e a impossibilidade do amor.

Quase todos os filmes que você conhece foram feitos na década de 60

Você pode até não ter visto, mas com certeza já ouviu falar: Acossado (1960), Uma Mulher é Uma Mulher (1961), O Desprezo (1963), Uma Mulher Casada (1964), O Demônio das Onze Horas (1965), Alphaville (1965), Masculino-Feminino (1966), A Chinesa (1967) são todos da prolífica década de 60 do diretor. (Recomendo muito Uma Mulher Casada, que vi pela primeira vez recentemente: Macha Méril está maravilhosa como a mulher casada do título, dividida entre os relacionamentos com o marido e amante. Os planos são quase poesia).

O serviço de streaming cult Mubi traz muitas informações sobre filmes de Godard e sobre o autor em si. Mas as referências não param por aí.

De qualquer forma, agora é esperar Cannes. O que eu queria mesmo era ver o filme ao lado dele, na promiscuidade de uma sala de cinema.(E o Grand Théâtre Lumière não é uma sala qualquer).

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.