OPINIÃO
16/05/2018 16:11 -03 | Atualizado 16/05/2018 16:20 -03

Festival de Cannes: Novo filme de David Robert Mitchell é uma aposta 'à la Lynch'

'Under the Silver Lake' foi exibido nesta terça (15) dentro da competição oficial.

Under the Silver Lake 2018/Divulgação
Riley Keough é um dos destaques do novo longa de David Robert Mitchell.

Tinha tudo para eu gostar de Under the Silver Lake (Sob o Lago Prateado, em tradução livre), terceiro longa do diretor americano David Robert Mitchell (Corrente do Mal), que estreou no Festival de Cannes nesta terça (15) como parte da competição oficial.

Fiel à tradição de filme noir, o apelo era grande. Los Angeles contemporânea com atmosfera da década de 90, um jovem desempregado - Andrew Garfield, em ótima interpretação - fica fascinado com a vizinha Sarah - Riley Keough, de The Girlfriend Experience. Mas aí ela desaparece. Sam tem uma namorada, aspirante a atriz, como quase todo mundo em Hollywood. Ela o visita de vez em quando e os dois transam. Ele também tem uma mãe: ela liga para dizer que vai passar na TV um filme de sua atriz favorita, Janet Gaynor. Sam adora a HQ Under the Silver Lake, que cria uma teoria de conspiração a partir da história de um serial killer de cachorros. Sam, que não trabalha - não sabemos nem o que queria fazer da vida - está atrasado no aluguel. Tem que pagar em 5 dias, ou então, rua.

Os primeiros trinta, quarenta minutos do filme são muito bons. Começamos a pensar que talvez Sam seja o assassino de cachorros - pois há um dog killer à solta na vida real da história - ou então há mesmo um mistério por trás do desaparecimento de Sarah, e não pista atrás de outra em continuum cinematográfico. A dado momento, você pensa: Ah, isso parece Mulholland Drive, de David Lynch. Mas nada da parte boa.

Under the Silver Lake 2018/Divulgação
Andrew Garfield interpreta um jovem desempregado em longa inédito.

Nesta quarta (16), David Robert Mitchell disse em coletiva que se você procurar bem, vai achar justificativa para tudo. Mas Under the Silver Lake não é o tipo de filme que você vai querer ver mais de duas vezes. Tem duas horas e dezenove minutos de projeção e, lá pelo meio, quando a história se perdeu completamente - quando nos demos conta de que, bem, não havia uma história - todo mundo riu com um ronco poderoso do meio da sala (onde ficam os convidados principais).

A crítica não foi unânime. Teve gente que se sentiu traído. Outros chamaram o filme de intrigante, frustrante e elíptico. Alguns foram longe: filme post-noir, com referências dos clássicos Janela Indiscreta e Chinatown (oi?), narrativa sedutora de uma toca de coelho. Teve gente até que chamou de meta-mistério. O que seria um meta-mistério?

Há bons elementos. Alguns personagens de uma só cena, como o escritor paranoico da HQ e o compositor, valem cada segundo. O olhar sexualizado, e meio fora de moda, sobre as personagens femininas, pode até ser considerado interessante. Há um grupo de garotas de programas formado por ex-atrizes de filmes cult - uma delas atuou em um sitcom entre os cinco e seis meses de idade. Os fãs de cinema vão gostar do cinema drive-in, telão no meio da rua, como a projeção de clássicos aqui em Cannes. O jeito analógico de desvendar os mistérios é um ponto alto, e a ambientação numa década de 90 com smartphones, também.

Mas, no fim das contas, a melhor coisa de Under the Silver Lake é o seu título. David Robert Mitchell disse que a ideia surgiu em uma conversa com a mulher. O que será que existe do outro lado de Hollywood? Talvez a gente descubra no próximo filme.

Under the Silver Lake ainda não tem previsão de estreia no Brasil.

Assista ao trailer abaixo:

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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