OPINIÃO
26/02/2016 19:22 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

Feminista e revolucionário, 'Mad Max' merece o Oscar de Melhor Diretor

Se o prêmio de 'Melhor Filme' for mesmo para 'O Regresso', espero que a segunda homenagem principal seja para Miller. Em duas horas, ele reúne todos os pré-requisitos do (grande) cinema: história, personagens, fotografia, mensagens e ainda uma vontade de ver de novo. Iñarritu é muito bom, mas ele já ganhou no ano passado né?

Parece que todo ano a academia inclui entre seus candidatos a 'Melhor Filme', um título realmente excelente (e improvável) do meio do ano. Em 2015 foi O Grande Hotel Budapeste. Sabia que não ia ganhar mas me deu um prazer imenso vê-lo na lista.

Agora, Mad Max: Estrada da Fúria. Provável sequência da trilogia de George Miller,concorre a outras 9 categorias, atrás apenas do favorito, 'O Regresso'. Vi o filme duas vezes só na semana de estreia (e olha que não tinha visto nenhum da série), e se você ainda não viu, sugiro que o faça logo, de preferência antes de domingo.

(Alerta: spoilers)

A história é muito boa, e a estrutura narrativa revolucionária

Tudo começa com o Max do título no meio do deserto, em um futuro pós-apocalíptico (depois da guerra nuclear), refletindo sobre o passado e por que prefere a solidão.

Os soldados de Immortan Joe, o novo ditador que detém o controle sobre água, combustível, comida e mulheres (suas 'esposas'), o capturam e levam para a Cidadela.

Max é doador universal no meio de um exército de 'meia-vida', e logo se transforma na 'bolsa de sangue' de um deles, Nux.

Mas aí a revolução estourou: Joe descobre que em vez de se dirigir para 'Cidade do Combustível' como estava planejado, seu principal líder, a Imperatriz Furiosa, fugiu com suas Cinco Esposas em seu Tanque de Guerra.

Todo o exército é convocado para trazê-las de volta. Nux não fica de fora, e vai com sua 'bolsa de sangue'.

A ação frenética é alternada com o fluxo desigual de memória e pensamento de Max, criando um 'tempo' totalmente novo no cinema.

Vilões decrépitos e personagens fascinantes

Se não bastasse Immortan Joe, que carrega para cima e para baixo seu arsenal de subsistência -- máscara com ar puro para compensar seus problemas respiratórios, talco para aliviar sua doença de pele e uma armadura à prova de bala como proteção e disfarce -- temos também o Comedor de Gente, governante da Cidade do Combustível que, obeso, anda com dificuldade, e como Joe, parece tudo menos um antagonista invencível.

Como a Wired já disse, Miller criou o universo de Mad Max do absoluto nada.

Os personagens são divididos entre meia-vida (o exército de Joe e boa parte de seu comando) e vida inteira (Imperatriz Furiosa, As Cinco Esposas, as Vuvalinas das Muitas Mães e Max -- o herdeiro de Joe, Rictus Erectus, é apenas tecnicamente vida inteira).

A distinção é importante: o primeiro grupo parece destituído de livre arbítrio, enquanto o segundo, composto praticamente só de mulheres, expressa suas opiniões e tem vontade própria.

O filme é feminista

Quando digo que amei o filme, sempre tem alguém que pergunta: mas não é muito violento, ou muito masculino? Na verdade, 'Mad Max' é feminista, no melhor sentido da palavra.

Cinco prisioneiras repetidamente abusadas com o objetivo de parir novos soldados para o exército de Joe, fogem com a ajuda de um de seus principais comandantes, a Furiosa.

Elas querem voltar para o Vale Verde, um lugar idílico habitado exclusivamente por mulheres, as Vuvalinas das Muitas Mães.

Quando descobrem que foi destruído na última guerra dos homens, voltam para assumir a liderança no único lugar que tem água e área verde: a Cidadela.

Tom Hardy... e Charlize Theron!

Muitos disseram que Max não passa de um coadjuvante e o show é todo de Furiosa.

Ela é, realmente, a protagonista ativa, mas a química entre os dois é fundamental para contar a história, sem esquecer que o pano de fundo é o fluxo mental dele.

Sou fã de ambos atores, e já disse que Tom Hardy foi uma verdadeira locomotiva em 2015. Theron, de braço prostético e cabeça raspada, está deslumbrante.

A fotografia é demais

O ano pertence à grande fotografia. 'O Regresso', 'Carol', 'Os Oito Odiados' e o estrangeiro 'Filho de Saul' utilizam o recurso mais antigo da indústria para fazer arte.

Em 'Mad Max', ele é especialmente impactante: quilômetros e quilômetros de deserto e de repente você vê o tanque de guerra de Furiosa, e em close-up, as esposas de Immortan Joe em seus vestidos diáfanos.

Toda a história é contada por imagens, seja no desenrolar da ação presente ou nas memórias de Max, e os personagens falam estritamente o essencial.

George Miller

Se o prêmio de 'Melhor Filme' for mesmo para 'O Regresso', espero que a segunda homenagem principal seja para Miller.

Em duas horas, ele reúne todos os pré-requisitos do (grande) cinema: história, personagens, fotografia, mensagens e ainda uma vontade de ver de novo.

Iñarritu é muito bom, mas ele já ganhou no ano passado né?

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