OPINIÃO
19/12/2018 07:56 -02 | Atualizado 19/12/2018 07:57 -02

Domenico Starnone fala de amor e fantasmas em novo livro 'Assombrações'

"Talvez este seja o trunfo do livro: falar dos grandes temas da literatura através de pequenas cenas cotidianas."

Montagem/Getty/Instagram/Todavia
Dono de uma escrita elegante, escritor italiano surpreende leitor com trechos profundos ao longo do livro.

Tem livro que a gente consegue ler em um dia, até em algumas horas, e dias depois quer ler de novo. Assombrações, de Domenico Starnone, publicado recentemente pela Todavia, é uma dessas obras.

Descobri o escritor napolitano no início do ano, com Laços (Todavia, 2017). Havia todo um mistério em torno dele. Uns diziam que talvez fosse o nome por trás de Elena Ferrante e sua tetralogia napolitana — o primeiro texto de Laços traz algumas semelhanças com Dias de Abandono; ambos falam sobre a dor de uma mulher largada pelo marido, em primeira pessoa.

Outros, que seria o marido de Ferrante, porque conseguiram rastrear pagamentos referentes às obras da escritora à sua esposa, a tradutora Anita Raja.

Se Starnone for mesmo Ferrante, é um fenômeno literário, como alguns antes dele, mas não muitos. (Penso em Romain Gary, único escritor francófono a ganhar dois Prêmios Goncourt: um como Romain Gary, outro como Émile Ajar. Na época não havia redes sociais, e ninguém desconfiou. Só descobriram o feito em uma carta deixada pelo autor antes de morrer).

Os estilos de Ferrante e Starnone são distintos, se não opostos. Ferrante dá autonomia total a suas narradoras, às vezes temos a impressão de uma conversa sem fim: um convidado surpresa que chegou para jantar e começou já no aperitivo uma história que parece não acabar nunca. Os 4 livros encabeçados por A Amiga Genial poderiam ser lidos de um fôlego só (mas não foram, ao menos por mim). Acompanhamos as mudanças de humor e circunstância das personagens num ritmo entorpecedor.

Já Starnone tem uma escrita elegante, e nos surpreende com alguns trechos, como este aqui:

Mas, sincera ou não, eu bem sabia que sempre a amaria e consolaria. Não suportava que chorasse quando pequena, e não suportava agora, que era adulta.

A história narrada em primeira pessoa por Daniele Mallarico, um ilustrador de 75 anos que mora em Milão mas nasceu e cresceu numa Nápoles pobre, é aparentemente simples: ele já não tem a virilidade artística de antes e, convalescente depois de uma cirurgia, é forçado pela única filha a cuidar do neto precoce de 4 anos por 3 dias que mais parecem uma eternidade. Tudo isso enquanto precisa acabar as ilustrações a acompanhar a edição de luxo de The Jolly Corner (texto completo aqui), de Henry James. O editor a encomendá-las é jovem e arrogante, e as propostas de trabalho, cada vez mais escassas.

Há contraste e contraposição. Vemos desfilar versões do protagonista: Daniele jovem e talentoso, que "já nasceu pronto", como dizia o professor da escola primária; o ilustrador que aceitou o sucesso como algo natural; e o homem que vemos agora, na casa de sua infância, adolescência e casamento.

São fantasmas não muito diferentes daqueles presentes no livro que está ilustrando. Sentimos uma proximidade quase imediata com ele, em suas diferentes fases e sentimentos. Em dado momento, num café, observa o dono, um homem que soube desenhar uma época, mas para quem o talento "havia passado": este homem poderia ser ele, é tudo de que fugiu ao sair de Nápoles.

Olhei para ele perplexo, fiquei surpreso de que falasse de sua aptidão como de uma doença.

Ao mesmo tempo, ele e o neto Mario se contrapõem. Para a criança, os desenhos do vovô podiam ser mais claros e, ao contrário do menino, Daniele nunca teve inteligência para as coisas práticas. Assistimos à disputa entre os 2, não destituída de amor. Pequenos gestos nos prendem e emocionam, investigando o que é ser adulto e criança, avô e neto. Em uma das tardes, eles vivem uma experiência para a qual o menino não tem as ferramentas adequadas em seu "armazém de fórmulas adultas", e a relação entre os 2 adquire uma nova dimensão.

Talvez este seja o trunfo do livro: falar dos grandes temas da literatura por meio de pequenas cenas cotidianas. Não recorrer ao amor familiar romântico nem desesperançado, mas mostrá-lo do jeito que é.

Às vezes misturado à raiva, ao desconforto, ao ciúme e irritação e, por isso mesmo, muito mais interessante.

Em um momento difícil para as livrarias e as editoras brasileiras, um livro como Assombrações nos lembra por que somos apaixonados pela literatura e por que, não importa quantos livros leiamos, sempre podemos nos surpreender. Que Domenico Starnone escreva muitos outros romances, e estes possam ser traduzidos, comprados e lidos por todo o Brasil.

Serviço

Título: Assombrações

Autor: Domenico Starnone

Editora: Todavia, 2018

Preço: R$ 49,90

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.