OPINIÃO
13/05/2018 14:07 -03 | Atualizado 13/05/2018 14:51 -03

Asghar Farhadi, diretor de 'Todos Lo Saben': 'Filme espanhol sem cair nos clichês'

Thriller espanhol abriu o 71º Festival de Cannes na semana passada.

Divulgação Todos Lo Saben/2018
Pénélope Cruz e Javier Bardem no novo filme do iraniano Asghar Farhadi, Todos Lo Saben

O 71o Festival de Cannes abriu na semana passada com a première do filme Todos Lo Saben, do diretor iraniano Asghar Farhadi. Com Penélope Cruz, Javier Bardem e o argentino Ricardo Darín, é um thriller psicológico, mas também um filme sobre a família e o efeito de nossas ações no tempo.

Laura (Penélope Cruz) viaja com os filhos para a cidade natal na Espanha, para o casamento da irmã Rocio. No meio da festa, a filha Irene desaparece. Enquanto ela conta com a ajuda de Paco (Javier Bardem), seu antigo namorado, do marido Alejandro (Ricardo Darín) e de toda a família para reencontrar a filha, um segredo antigo vem à tona.

Todos Lo saben foi rodado na Espanha, em espanhol, língua que o diretor não fala e ainda assim conseguiu levar verdade à história e a cada cena. "É o mais espanhol dos filmes espanhóis", disse Javier Bardem durante coletiva.

Asghar Farhadi, diretor dos premiados A Separação (2013) e O Apartamento (2016), ganhadores do Oscar em seus respectivos anos, participou de uma mesa-redonda com a imprensa para falar sobre o filme.

HuffPost Brasil: O filme parece mesmo de um diretor europeu ou espanhol. Como você conseguiu isso?

Asghar Farhadi: Este foi o maior desafio quando decidi fazer o filme: que ele não parecesse o filme de um estrangeiro, principalmente para o público espanhol, que conhece tão bem o que é ser espanhol. Foi uma preocupação de todos: achar um equilíbrio sem cair em clichês. Se o filme parece espanhol, é graças aos atores, aos pequenos detalhes trazidos pelo time.

Tenho certeza de que muitas pessoas querem trabalhar com você ao redor do mundo, e a história que você conta também poderia acontecer em qualquer lugar. Por que Espanha?

Alguns momentos cruciais da história acontecem lá por coisas que eu sempre associei à Espanha. São conflitos espanhóis, então não imaginava que acontecessem em outro lugar. Pode ser também porque, desde a minha infância, tive uma imagem idealizada da Espanha, como o que o Irã poderia ter se tornado. Tem um equilíbrio muito adequado entre modernidade e tradição que eu queria para o meu país.

Para mim, o filme foi como uma tragédia grega. Influenciou o seu trabalho?

Tragédias gregas me interessam muito. Hoje não podem ser usadas diretamente, mas algo de sua essência é totalmente válido para contar uma história. Talvez, o sacrifício que o herói tem que pagar não seja com sua vida, mas ainda é um sacrifício. Aqui não é apenas uma pessoa, mas todo o grupo. Todo mundo tem que se sacrificar.

Você fala muito sobre família como instituição em seus filmes. Por que é tão importante?

Não decido conscientemente falar sobre família, mas quando vejo, já estou numa casa, com uma família. É uma janela para as relações humanas, emoções, tudo está lá, na estrutura familiar. Também está muito presente na literatura, no teatro. Famílias são um ótimo lugar para observar a natureza humana.

Por que você é tão obcecado com o tempo, como disse na coletiva?

O tema sempre esteve presente nos meus filmes, mas fica cada vez mais importante, talvez por eu estar envelhecendo. Começa uma espécie de contagem regressiva, e você se pergunta quanto tempo ainda terá. Os relógios são circulares, não uma linha reta. Tempo é repetição. Gosto da imagem do relógio suíço, com o cuco: um pássaro preso no tempo. É muito interessante, por isso usei na abertura do filme.

A decisão de um personagem acaba afetando a vida de todos. Você é alguém que sofre com decisões importantes?

Tomo decisões importantes, mas tenho muita consciência sobre a dúvida. Dúvida é algo muito importante no centro de nossas decisões. Você se define por cada ato e decisão que toma. Você é responsável por suas decisões e tem que assumir as consequências dessas decisões. O problema do mundo é que pessoas estúpidas estão muito seguras delas mesmas, e as inteligentes, cheias de dúvida.

O que gosto nos seus filmes é que tudo se passa no mundo antigo dos homens, mas as personagens femininas são bem fortes. Como você cria essas personagens?

É algo insconsciente, mas é verdade que nos meus filmes sempre tem alguma mulher tomando uma decisão importante. Em Todos Lo Saben, embora haja dois homens expressando seu poder, eles o fazem a partir de uma figura ausente, que é uma mulher. Ao fim, tem um novo filme e uma nova história que se abre para o espectador, também a partir de uma mulher.

Você falou sobre pertencimento na coletiva. Poderia desenvolver?

É um assunto bem complexo e sutil. No filme, você vê isso na discussão sobre a quem pertencem as terras. Embora Paco tenha comprado barato, ele trabalhou na propriedade nos últimos anos. A quem pertence agora? É a pergunta eterna comunista. Pode ser uma terra, uma propriedade, ou alguém.

Ou a filha, como você mencionou.

É isso que é interessante: quando o objetivo dessa discussão é uma pessoa, ela pode dar sua própria opinião sobre o assunto e esse relacionamento. Uma criança não necessariamente. Quem é responsável por uma criança? Agora, quando as famílias têm uma nova estrutura, esse é um tema muito importante.

Então o filme é espanhol. A quem pertence uma obra de arte. Ao artista, ao público, ao país em que é feito?

Uma vez que uma obra de arte é criada, não pertence a ninguém mais. Mas sim a todo mundo. Tolstoi, Ibsen, García Márquez pertencem ao mundo inteiro. García Márquez é tão meu quanto de qualquer colombiano.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.