OPINIÃO
14/11/2014 14:08 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Pare de perguntar se vou tentar ter uma filha

PhotoAlto/Ale Ventura via Getty Images

Tenho dois filhos. Dois saudáveis, brilhantes, felizes e lindos filhos. E quase todo dia alguém me pergunta se vou tentar ter uma menina. É uma pergunta grosseira, errada, ofensiva, presunçosa e maldosa. Pare.

Sério. Quando foi que as pessoas passaram a achar normal perguntar para estranhos se eles estavam satisfeitos com os filhos? Quando meu mais novo tinha três semanas, o levamos a um restaurante com o irmão. Olhando para o pequeno, de roupinha azul, a primeira coisa que o garçom disse foi: "E então? Vão tentar uma menina na semana que vem?" Três semanas. Eu ainda parecia grávida, e o garçom queria saber se eu iria tentar ter outro bebê. Não qualquer bebê: uma menina.

jen simon

A verdade é que eu queria uma menina. Eu realmente queria uma menina. Até escrevi um artigo a respeito. E toda vez que me perguntam se vou tentar ter uma é como se eu levasse um soco no estômago, me lembrando de que não tenho uma filha. Que não vou poder fazer tranças no cabelo dela, falar sobre ícones feministas ou ajudá-la a escolher o vestido de casamento (se e quando ela decidir casar). Dia sim dia não eu dou um sorriso otimista, balanço a cabeça e lamento por não ter a filha que sempre achei que teria. Obrigado por tudo, estranhos.

Sabe o que mais é incrível? Quando meu filho ouve essa porcaria. Ele tem quase cinco anos. O que será que ele pensa quando me perguntam essas coisas? Que ele não é bom o suficiente porque não é menina? Sempre respondo dizendo quão maravilhosos são meus filhos, mas em que momento ele vai começar a internalizar a mensagem de que só vale a pena ter bebês se eles foram meninas?

Tenho mais sorte que a maioria das mulheres por ter dois filhos. Na cesariana de emergência do mais velho, descobri que tenho uma anomalia uterina - só metade do meu útero é funcional; na verdade, toda a metade esquerda do meu sistema reprodutivo não funciona. Tive sorte de ficar grávida duas vezes, e ainda mais sorte por ter dado à luz em ambas. Quando meus filhos me tiram do sério, tenho de me lembrar de que eles são milagres; anomalias como a minha em geral significam que a mulher é infértil. Então: quero tentar ter uma menina? Nem sei se conseguiria engravidar de novo.

Mas e seu eu quisesse um terceiro filho e não conseguisse ficar grávida? Não tive de procurar especialistas em fertilidade. E as mulheres que tiveram? E as mulheres que tiveram abortos, naturais ou não? Será que elas querem ser lembradas dos bebês que nunca nasceram? Pior: e as mulheres que perderam um filho? Não consigo imaginar o que seria ouvir esse tipo de pergunta diariamente se tivesse perdido uma menina.

Finalmente, minhas escolhas reprodutivas não são da conta de ninguém. Sou uma pessoa bem aberta. Escrevo textos pessoais sobre minha vida e os compartilho na internet. Não dá para ser muito mais aberto que isso. Mas não quero falar do assunto com um estranho. Não quero ter de rir quando o assunto é sério e sensível. Não quero ter de justificar o gênero dos meus filhos ou minha escolha de não ter um terceiro bebê.

Portanto, da próxima vez que você vir um pai ou mãe no parquinho, fale de alguma coisa inócua. Não pergunte aos pais de meninos se eles querem uma menina. Não pergunte aos pais de meninas se eles querem um menino. Não pergunte aos pais de filhos únicos quando eles vão ter o próximo. Não pergunte aos pais que têm famílias grandes por que tantos filhos. Não tem por que. Não é da sua conta. E você não tem ideia da história daquela família.

Então pare.

Jen Simon é jornalista freelancer e blogueira do Huffington Post. Ela é mãe de um bebê e de um filho de quatro anos que tem dificuldade de dormir. Ex-relações públicas, artista e divertida, hoje em dia ela é uma senhora muito cansada. Você pode acompanhar seu diário de insônia no Twitter: @NoSleepInBklyn

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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