OPINIÃO
27/03/2015 15:20 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Quem realmente se interessa pela depressão dos pilotos?

Desde que a investigação se concentrou sobre a personalidade do copiloto responsável pela queda do A320 nos Alpes esta semana, fala-se muito na mídia sobre os testes psicológicos pelos quais passam os futuros pilotos e copilotos. Além dos testes psicológicos, tão elogiados pelo presidente da Lufthansa, é preciso falar de psiquiatria. Em vez disso, porém, as fraquezas psiquiátricas dos aeronautas são escondidas e ignoradas. Há um verdadeiro tabu em relação a isso, especialmente no mundo da aviação.

Desde que a investigação se concentrou sobre a personalidade do copiloto responsável pela queda do A320 nos Alpes esta semana, fala-se muito na mídia sobre os testes psicológicos pelos quais passam os futuros pilotos e copilotos. Além dos testes psicológicos, tão elogiados pelo presidente da Lufthansa, é preciso falar de psiquiatria. Em vez disso, porém, as fraquezas psiquiátricas dos aeronautas são escondidas e ignoradas. Há um verdadeiro tabu em relação a isso, especialmente no mundo da aviação.

Uma amiga psiquiatra se especializou nos problemas que afetam os tripulantes de aviões. Ela percebeu que a prevalência de problemas psiquiátricos entre pilotos e copilotos é semelhante à da população geral.

A verdade por trás de tudo isso é que os pilotos vivem sob uma espada de Dâmocles: uma ou duas vezes por ano, dependendo da companhia, passam por checkup médico. Se são reprovados, sua vida profissional é suspensa: sua licença de voar lhes é tirada e eles não podem mais trabalhar. Alguns têm seguro que os protege em caso de perda de licença por razão médica. Mas, e os outros? São pessoas normais; têm uma família, uma casa, prestações a pagar. Se perdem a licença, estão acabados.

Na população geral, os problemas psiquiátricos são um tema tabu. Imagine então em uma profissão com grau tão alto de responsabilidade.

Creio que é preciso sensibilizar os profissionais da área e os que os cercam, aumentar seus conhecimentos sobre o tipo de problema que pode ser curado, desde que os problemas sejam percebidos, com a condição de que as pessoas não entrem em negação.

Também é preciso proteger a licença do piloto. Sim, as depressões e doenças psiquiátricas podem acontecer. Mas é preciso dizer aos pilotos: "Vamos suspender sua licença temporariamente, enquanto você estiver sendo tratado, mas você será protegido". Hoje o piloto se esconde, se esconde até o momento de explodir em pleno voo... Amanhã, depois do que acaba de acontecer com a Germanwings, que piloto vai procurar seu médico do trabalho para lhe dizer "estou com depressão, não me sinto bem"?

Exercemos uma profissão de alta responsabilidade, estressante e que tem uma imagem determinada. As companhias aéreas a reforçam com o uniforme do piloto, que é feito para passar uma imagem de pessoa extremamente equilibrada, profissional, madura, capaz de assumir essas responsabilidades. Por trás disso tudo há interesses comerciais em jogo, é claro. Hoje é preciso reconhecer que, por trás dessa imagem, os pilotos e copilotos são pessoas normais, pessoas que têm problemas médicos, problemas pessoais, problemas profissionais.

É preciso que esse tabu caia por terra, que os aeronautas tenham acesso a apoio para enfrentar os problemas, sérios ou não, com que se confrontam. Precisamos parar de estigmatizar os problemas psiquiátricos. Hoje não falamos desse assunto entre colegas porque pensamos que sempre haverá um que nos denunciará.

Falando com minha amiga psiquiatra, eu dizia: "Alguma coisa vai acontecer. É só uma questão de tempo. Esses problemas vão ressurgir e fazer manchetes."

O que aconteceu é terrível, e eu não imaginava que pudesse ocorrer um ato intencional, e sim erros de atenção ligados ao estresse ou depressão. Hoje, o que aconteceu ultrapassa de longe o que eu previa. Isso precisa mudar, pois o sistema atual favorece a dissimulação. Parece ter sido o que aconteceu no caso de Andreas Lubitz. Acabemos com a hipocrisia, para que todo o mundo enrole as mangas para começar a ajudar os pilotos que estão voando e precisam de ajuda.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost França e traduzido do francês.