OPINIÃO
24/04/2015 18:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:01 -02

Eu tenho um corpo perfeito

Não passou pela minha cabeça compartilhar a foto com vocês todos. Mas, quando comecei a olhar melhor para os quase 23 quilos a mais acumulados no meu corpo de 1,75 metro, em vez de enxergar camadas de gordura e celulite, enxerguei alguma coisa bela de verdade.

Pode não ter sido essa a primeira coisa que veio à sua cabeça quando viu essa foto de mim, grávida de 39 semanas e dois dias, brincando com meus filhos no quintal de casa. Mas é verdade.

Era um sábado e fazia calor. Os meninos estavam brincando na piscininha. De repente me ocorreu que eu gostaria de ver o tamanho de minha barriga. Passei meu iPhone para meu marido, sorri e lhe disse: "Talvez seja a última foto". Ele fez a foto e eu a mandei para minha mãe, minha sogra e minhas irmãs, escrevendo embaixo: "Pessoal, vejam meus 90 quilos de beleza".

Não passou pela minha cabeça compartilhar a foto com vocês todos. Mas, quando comecei a olhar melhor para os quase 23 quilos a mais acumulados no meu corpo de 1,75 metro, em vez de enxergar camadas de gordura e celulite, enxerguei alguma coisa bela de verdade.

Enxerguei uma mulher autoconfiante, feliz e saudável, faltando poucos dias para dar à luz.

Sim, é verdade que estou com celulite nas coxas. Se você quer saber, minhas pernas nunca estiveram tão grossas. Quando ando, sinto a gordura debaixo de meu bumbum indo de um lado para outro. Quando me sento, as calças apertam meus culotes e minha virilha. Quando uso vestido ou saia, uma coxa esfrega na outra, produzindo assaduras vermelhas e doloridas.

Mas a verdade é que minhas pernas estão fortes. Desde que me tornei mãe pela primeira vez, três anos atrás, estas pernas já andaram uns 5,4 milhões de passos. Caminharam para o parque, para o consultório do pediatra, para o estacionamento do supermercado, para a igreja. E não é descabido observar que, durante pelo menos 1,8 milhão desses passos, eu levei um bebê preso ao corpo, carreguei um garotinho pequeno no colo ou empurrei 15 a 30 quilos adicionais num carrinho de bebê com uma ou duas crianças.

Acho isso bacana.

Você provavelmente observou que minha barriga se projeta para fora do meu corpo e parece um enorme balão branco que está prestes a estourar. Ela é marcada por veias e transborda por cima do biquíni.

Entendo que não é exatamente aquela barriga de bola de basquete em cima de um corpo magrinho que você está acostumado a ver na televisão, em anúncios nas mídias sociais ou na capa da Fit Pregnancy.

Mas esta barriga já realizou algumas coisas que acho incríveis. Somando minhas três gravidezes, três pessoinhas, num total de mais de nove quilos, se formaram em meu útero -intencionalmente, milagrosamente, perfeitamente. Dentro de minha barriga, meus órgãos levaram chutes e cotoveladas, e há pelo menos três meses uma cabeça aperta meu osso pélvico de uma maneira bem incômoda para mim. É nesse lugar onde, num total conjunto de 27 meses, três fetos sucessivos viveram, cresceram e se desenvolveram até ficarem prontos para vir ao mundo.

E isso é incrível, é maravilhoso.

Se você me visse por trás, notaria os pneuzinhos na minha cintura. Se eu uso o sutiã errado, ele forma rolinhos de gordura em minhas costas e axilas. Os pneuzinhos são tão grossos que consigo segurá-los entre meu polegar e indicador.

Mas a verdade é que eu não trocaria estas costas por nada. Elas já comprovaram seu valor, suportando o peso adicional que ganhei durante cada gravidez: 16 quilos, 19 quilos e 23 quilos, respectivamente. E na semana passada, quando meu filhinho que está no jardim de infância teve um dia ruim, graças a essas costas eu pude pegar seu corpinho querido de 17 quilos nos braços e carregá-lo por alguns minutos. Somados ao peso adicional que já estou carregando, foram 40 quilos adicionais que minhas costas carregaram.

Isso é surpreendente, é incrível.

Acho que eu também deveria falar de meus braços. Nas fotos, se não coloco a mão no quadril, eles aparecem com mais ou menos o dobro da espessura normal. Se os deixo pendurados ao lado do corpo, a gordura adicional dos meus braços se espalha tanto que quase não reconheço esses braços como sendo meus. Quando aceno para alguém, já me acostumei a sentir o peso deles balançando lá embaixo.

Mas meus braços também são maravilhosos, porque eles possuem as reservas de energia necessárias para fazer exatamente o que precisam. Pelas minhas estimativas, eles já ninaram um recém-nascido umas 1.200 vezes, ajudando-o a adormecer. E já passaram algo como 1.080 horas segurando um garotinho, pesando qualquer coisa entre cinco e 13 quilos. Ergueram um bebê ou garotinho um pouco maior e o colocaram na cadeirinha no carro, mais ou menos 2.920 vezes (e no ano que vem, vão fazer tudo isso muito mais vezes ainda). Meus braços são fortes e eficientes.

E, por acaso, é exatamente disso que eu preciso.

Bem, há uma coisa que esta foto não mostra: meus seios estão inchados e com as veias aparentes. Quando ando à vontade em casa, eles balançam de um lado para o outro sobre minha barriga grandona, como dois balões de água. A verdade é que se você só olha para seios no catálogo da Victoria's Secret, provavelmente nunca viu nada como os meus.

Só que nos últimos três anos meus seios vêm realizando um trabalho incrivelmente importante. Eles forneceram cerca de 4.560 refeições a dois bebês saudáveis, que não pararam de crescer e se desenvolver bem. No próximo ano, vão produzir mais umas 2.280 refeições para meu terceiro filho, 720 delas nos próximos três meses. Eles não estão tão firmes quanto já foram no passado, mas sua curva descendente ajuda meus bebês a se agarrarem com força. Portanto, meus seios podem não parecer algo que ficaria bem numa revista, mas estão fazendo um trabalho que é muito, muito mais importante que isso.

E, para mim, isso é fantástico.

Por trás dos meus óculos de sol, você não enxerga as rugas de sorrisos e as olheiras no meu rosto inchadinho. As olheiras estão ali porque.... bem, acho que fui acordada pelo menos uma vez no meio da noite durante dois terços dos últimos três anos. Por um recém-nascido que precisava mamar, por um bebê pedindo colo, um garotinho um pouco maior com vontade de vomitar ou precisando do pinico, pedindo água ou querendo ajuda para achar a chupeta. Contabilizando tudo isso, foram mais ou menos 2.600 vezes que meu sono foi interrompido.

E o mais incrível de tudo é que em todas essas vezes, só havia uma pessoa no mundo capaz de acalmar aquela criancinha. Só havia uma pessoa que podia lhe oferecer o leite quentinho criado especialmente e unicamente para ele. Só uma pessoa que podia envolvê-lo em seus braços e lhe dar o carinho exato que ele precisava para poder relaxar e voltar a dormir. Só havia uma pessoa que ele queria que o abraçasse quando ele gritava diante da privada, apavorado com o vômito que saía de sua boca. Que podia animá-lo e lhe dizer palavras em sua língua própria de bebê. As palavras mais perfeitas, que o fariam sentir-se melhor, para que pudesse descansar.

Para meus filhos, este corpo é um lugar.

É o lugar mais perfeito, mais reconfortante, mais seguro do mundinho deles.

Por isso, você percebe? Eu realmente tenho um corpo perfeito.

O peso adicional da gravidez vai desaparecer. A foto bonita de biquíni pode ficar para o ano que vem.

Mas neste momento, é este corpo inchado que é o recipiente perfeito, aquele que carrega a pessoa mais importante no mundo dos meus filhos.

É um corpo que vem pronto com exatamente aquilo que eles precisam:

Força para quando estão fracos.

Alimento para quando estão com fome.

Carinho para quando estão assustados.

E ele sempre lhes dará amor sem limites, interminável, ininterrupto.

Para mim, não existe nada mais perfeito que isso.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

VEJA TAMBÉM: