OPINIÃO
20/11/2015 01:23 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Dandara vive

Reprodução/Internet

Os pés negros e ressecados, dedos esfolados e as unhas comidas pela correria daquele dia. O coração, que batia impulsionado pelo estresse, podia ser ouvido a poucos metros.

Em meio ao silêncio das matas do século XVII, a guerreira quilombola Dandara se jogava no vazio de um penhasco brasileiro. Dois anos antes da morte trágica de Zumbi, seu marido.

É o nome de Dandara que ecoou por Brasília esta semana.

É o nome dela e de tantas outras guerreiras negras que a Marcha Nacional das Mulheres, articulada há dois anos por inúmeros movimentos sociais e trabalhadoras, transbordou emoção e energia na principal via asfaltada no Plano Piloto da capital.

Dez mil mulheres entoaram cantigas afro, rezas tradicionais e palavras de ordem no trajeto até o Congresso Nacional.

Apesar de avanços em políticas públicas como cotas e o Estatuto da Igualdade Racial, garantidos nos governos Lula e Dilma, foi no Parlamento que, pela ironia dos tempos, partem diversos ataques contra a população feminina negra:

Por meio de pautas como revisão do estatuto do desarmamento, de redução da maioridade penal (que extermina a juventude negra, filhos delas) e da criminalização do aborto legal, por exemplo, que essas mulheres são atingidas no seu dia a dia - nas grandes cidades, no campo e na periferia.

A população negra é, sim, a mais prejudicada pelo grande conservadorismo que toma a atual legislatura da Câmara dos Deputados.

As mulheres negras sofrem ainda mais com preconceito em diversos campos e áreas da vida.

Foi na chegada do grupo na Esplanada dos Ministérios que momentos vergonhosos ocorreram por parte de grupos que pregam o golpe contra o governo Dilma.

Acampados há dias no gramado em frente ao Parlamento, pessoas que pedem o "retorno da ditadura" hostilizaram as moças e senhoras negras que passavam pelo local.

Duas pessoas chegaram a disparar seis tiros para o alto e houve explosão de bombas, deixando pessoas feridas física e emocionalmente.

Mesmo com a resistência fracassada da extrema direita brasileira, que ora mostra suas garras, essas mulheres conseguiram dar seu recado: o racismo e o feminicídio negro não serão tolerados neste País.

O Mapa da Violência de 2015, que estuda as estatísticas de 2013, mostra que 2.875 mulheres negras foram mortas naquele ano. O número de negras mortas cresceu 54% em 10 anos.

Muitas dos crimes cometidos contra mulheres foram em decorrência de violência doméstica. O parceiro, aquele que deveria lhe amar e dar suporte, é aquele que lhe retira a vida.

É dentro da própria casa que famílias inteiras têm sido mutiladas com a morte de suas mães negras.

Políticas públicas para elas são urgentes. Combater a violência e assassinato das mulheres negras é dever de nosso país. É dever de todos congressistas presentes hoje no Parlamento. É dever de estados e municípios.

Construir uma sociedade sem essa realidade brutal urge dentro do campo progressista.

A luta de Zumbi dos Palmares, lembrada em 20 de novembro por todo o País, ecoa essa consciência. Dandara, mulher forte na história da luta do negro brasileiro, não será lembrada à toa na capital federal.

Dandara são todas as mulheres negras que lutam pela igualdade, pelo fim da violência e por mais direitos. Dandara marchou por Brasília esta semana! Dandara vive!

1ª Marcha das Mulheres Negras no País

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