OPINIÃO
20/01/2017 13:03 -02 | Atualizado 20/01/2017 13:03 -02

O dia que a música morreu

US President-elect Donald Trump and his wife Melania leave St. John's Episcopal Church on January 20, 2017, before Trump's inauguration. / AFP / Nicholas Kamm        (Photo credit should read NICHOLAS KAMM/AFP/Getty Images)
NICHOLAS KAMM via Getty Images
US President-elect Donald Trump and his wife Melania leave St. John's Episcopal Church on January 20, 2017, before Trump's inauguration. / AFP / Nicholas Kamm (Photo credit should read NICHOLAS KAMM/AFP/Getty Images)

Muitos de nós aqui nos Estados Unidos sentem que nossa trajetória como nação mundial não é apenas insustentável, mas terrivelmente destrutiva. Claro que temos a tendência de desconfiar e resistir aos tempos destrutivos. É assim. Mesmo sabendo que metade do tempo a lua brilha e na outra desvanece. O que significaria não mais resistir à lua minguante?

Os ciclos de existência - nascimento, sustento, ocultação/encobrimento, decadência e morte - são uma lei da natureza. Nada na criação está fora dessa lei cíclica.

No entanto, a maioria de nós tem uma resistência natural ao ocultamento, porque não somos capazes de ver o que está em ação, de decair e morrer. Associamos tudo isso, corretamente, a algum nível de sofrimento. E embora esse sofrimento, que vem com os ciclos de extinção da existência, seja inevitável, há um sofrimento muito maior vindo de nossa profunda resistência ao primeiro manifestado.

Às vezes chegamos ao ponto de perceber que o que tem nos conduzido, nos levado adiante, já não é mais suficiente, não é mais verdadeiro e, nesses momentos, experienciamos um sentimento de grande perda. A perda vem pela destruição. Na mitologia grega, a Fênix queima até uma pilha de cinzas antes que ascenda. Essa pausa entre um ciclo destrutivo e seu renascimento é mesmo muito difícil, árduo e laborioso.

Qualquer um que tenha vivido esse tipo de mudança disruptiva sabe de sua dor. Ciclos destrutivos nos despem, nos desmontam, expondo o que não foi processado e o que foi enterrado, revelando a inverdade. Nesse momento, diante de uma pilha de cinzas, é comum nos sentirmos profundamente sozinhos.

É o que está acontecendo nos EUA neste momento. A escuridão está em ascensão, e estamos sendo desmontados, revelados. É um momento assustador na História.

No Ocidente, há uma tendência de olhar para isso como uma punição. Isto é o que obtemos por nossa horrível imperfeição, nosso engano de nós mesmos, nossos maus-tratos uns com os outros.

Nosso hábito mental e cultural é encontrar alguém para culpar. Identificamos o vitimizador, a vítima e o salvador, um casamento triádico que tem sido apropriadamente chamado de triângulo do desempoderamento. Para muitos, essa maneira de caracterizar um ciclo destrutivo é tudo o que se sabe, e a história se repete uma, e novamente, e outra vez.

Mantendo a firmeza nos ciclos de destruição

Mas o que aconteceria se, apenas por um momento, baixássemos a guarda de nossa culpa? Por onde começar? É muito provável que nos sentiríamos assustadoramente desnorteados, caindo de joelhos em profundo sofrimento.

Pergunto: e se não combatêssemos essa desorientação? E se não nos afastássemos daquele sofrimento?

Quando os ocidentais falam sobre karma, há uma suposição de que, se existe tal lei, ela está aqui para nos fazer pagar por nossas más ações.

Porém, há outro entendimento sobre isso: o karma, mesmo quando árduo, é um retorno, que nos oferece uma oportunidade para aprofundar a compreensão e apoiar a evolução da consciência. Dessa perspectiva, o karma é uma expressão de amor. E o amor, para ser verdadeiro, às vezes é feroz.

Há tanto acontecendo neste tempo da História, que vem sendo, na realidade, pautado por um ciclo de deteriorização. E, para abraçarmos esse espólio, devemos estar dispostos a nos desorientarmos, a simplesmente "não saber".

Podemos começar refreando esse hábito, esse comando que nos incapacita através da culpa, pois a resposta assim manifesta, sem prévia observação e reflexão, gera um auto-ódio muitas vezes projetado sobre os outros. O triângulo da vitimização é desempoderador, principalmente porque está mergulhado em um ciclo de culpa. Talvez essa seja uma parte do que precisa morrer.

Abster-se da culpa não significa deixar de defender a justiça ou abandonar a busca da verdade. Ao contrário: ao recolhermos nossa culpa, abrimos espaço para uma pausa longa o suficiente que nos permita escutar tanto dentro como fora, para podermos receber uma verdade mais profunda, que vem de nosso interior, e deixarmos que nosso sofrimento, desapontamento e tristeza nos ensinem outro caminho.

A vítima, o vitimizador e o salvador vivem dentro de todos nós. Quando nos voltamos para essas partes de nós mesmos, com uma atitude investigativa, abrimos a possibilidade para uma compreensão mais profunda, tanto individualmente como dentro de nossa humanidade coletiva. Há nessa profundidade de compreensão o potencial de encontrarmos uma grande compaixão.

Sinto que a mudança que estamos tentando coletivamente promover é a de uma mais profunda compaixão. Para chegar lá, precisamos reconhecer o que, em nossos próprios corações e mentes, nos mantém presos ao profundo sentimento de separação, que está no cerne de nossa consciência coletiva. O que de dentro de nossa cultura coletiva realmente precisa morrer?

Substituir a culpa pela investigação abre o canal para a compreensão, a única porta de entrada para a verdadeira compaixão. Isso significa abandonar a guarda que protege tão bem e corajosamente nosso coração. Significa encontrar uma maneira de entender como cada um de nós contribuiu para este momento de profunda ruptura. Requer uma disposição para suportar aquela terrível e preciosa vulnerabilidade, que surge quando reconhecemos que somos todos, fundamentalmente, os mesmos.

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